O Espelho da Fome
Jan Muá - 22 de junho de 2001

Vamos no espelho...
Bem atentos... Olhemos...
As multidões do terceiro quarto e quinto mundo
Olhemos o quadro patente
Exposto a nossos olhos...
A informação, a notícia, os dramas
As fotos, as caminhadas
Os êxodos de Sebastião Salgado

 

Olhemos a Luz em trevas
A miséria de uma humanidade tragicizada  sem rosto
Crianças famintas de barriga obesa
doentes
De ossos salientes e tristes
Agonizantes
Junto ao colo da mãe
No barraco arruinado
de cantinho sem banheiro
Em chão seco onde não há mandioca
Nem raízes nem vegetais
Onde o cacho da banana  esgotou
Onde o galinheiro está vazio
Onde há o silêncio do curral

 

Só há areia para torrar com ilusão
No irreal esforço de manter-se vivo...

 

Olhemos a tragédia sem nome
Ritualizada nos alpendres da fome
Descubramos a opressão do direito de viver
Onde nem as sopas da caridade chegam mais
Nem o caldo de ossos rejeitados por açougues
Nem manga verde
Nem o cheiro de restaurantes fartos das cidades
Nem os restos rejeitados
Ou abandonados no Lixão
Nem o queijo envelhecido para disputar com ratos
Nem os programas sociais
Nem os frutos silvestres
Nem a lembrança solidária
 

Nada..A fome é erma...
A Fome...é a terra onde nada chega
Onde só a  tragédia desumana
Acelera o caos da explosão da morte
De organismos gerados para viver...

 

A Fome é o campo onde há uma necessidade sem resposta
Onde a  angústia se implanta como má conselheira

 

Vamos, amigos, vamos no espelho
Olhemos teimosamente...
Como náufragos sobreviventes
De uma Humanidade que perdeu o senso de conjunto...

 

Vejamos os quadros...os muitos quadros
Os êxodos, as guerras, as opressões, as carências
Todos os lençóis e cobertores da Fome...

 

Vejamos como ela cobre toda a tela dos quadros
E nos dá esta tremenda  vontade de chorar
Esta  radical vontade de parar
Esta profunda  vontade de reclamar
E esta resistente vontade de viver...

 

A Fome... meus amigos...
O quadro trágico de um trabalhador que não recebe
O espelho das crianças que param de brincar sem alegria
O quadro onde o dinheiro é mercadoria estranha
O espelho onde o supermercado é cassino de elite
Com desperdícios infinitos
O quadro onde a mercearia não vende fiado
A dura verdade onde a água salobra que não há
Causa profunda saudade...

 

A Fome... meus amigos
Que existe talvez perto de nós
A fome fotografada e úmida
De lágrimas sofredoras
A fome exposta em quadros e quadros
Em múltiplos espelhos e espelhos...
A fome...esta linguagem trágica de nosso teatro do absurdo...
Que tem tantos espectadores
E onde faltam entradas para uma  Humanidade mais solidária...

 

Campanha contra a fome?
Vejamos os espelhos...os quadros...
E passemos rápido pelos acampamentos dos excluídos
Dos personagens dos êxodos ou das migrações
Das populações famintas...

 

Elas são mercadorias desprezadas
Sem solidariedade
E nós que ainda sentimos e vemos
E temos sensibilidade para entender a mensagem de um quadro ou de um
espelho
Vamos escolher uma família cada um
Ou uma criança
Como referência de ajuda
E concorrer para que a vida se mantenha sem injustiça
Ou esquecimento
Nas células de quem não pediu
Para nascer...

 

A tragédia da Fome
Pode ser o sinal trágico para chegarmos mais perto...de nosso próximo...
E pode ser a semente de uma nova consciência crítica
De solidariedade humana.

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