
A
Riqueza e a Fome
Vânia Moreira Diniz
Não
tenho vergonha de dizer que nasci em berço de ouro. Tudo que a vida podia me
proporcionar em termos de bens materiais ela o fez. Ali, ao nascer. Meu pai era
um homem de muito prestígio, advogado famoso e respeitado. E todos os meus
desejos eram prontamente atendidos. Olhava
tudo isso com naturalidade já que nascera ali e não conhecia outro ambiente.
Logo comecei a perceber o quanto a vida era injusta.
Ao
mesmo tempo, muito cedo tive uma visão completamente límpida que tudo isso
serviria para conforto e tranqüilidade, mas jamais constituiria o caminho certo
da verdadeira felicidade. Pelo menos da minha felicidade. Ainda muita criança
perguntava aos meus pais porque havia tanta diferença entre os pequenos que eu
via pedindo esmola na rua e eu ou minhas amiguinhas. Eles explicavam ao modo que
os adultos procuram convencer as crianças. E a vida continuava. Eu sempre com
minhas dúvidas. Minha vida foi oposta à maioria das pessoas. Saí de casa aos
15 anos, contra vontade de meus pais para escolher e traçar meu próprio
destino. O conforto excessivo foi trocado pela luta de cada dia. E pude
verificar o quanto a vida pode ser difícil. Difícil , porém gratificante
quando se procura objetivos.
Havia
uma obra social que as docentes do meu colégio faziam entre os menos
necessitados. E cedo pedi para que me deixasse acompanhá-las ao morro
nos dias feriados, para visitar as pessoas que lá moravam. Eu tinha dez
anos e durante algum tempo minha mãe proibiu absolutamente mesmo com as
professoras esse passeio que aos meus olhos seria fascinante.Finalmente aos 12
anos meus pais foram convencidos
que teria sempre alguém perto de mim e a contragosto deles subi ao Morro Dona
Marta e encontrei um mundo maravilhoso e inusitado. Pobre, triste, devastador
pela escassez de conforto, mas encantador pela luta e forças dos que lá
viviam. Claro que sabemos o que existe de violência, mas será somente lá? E não
terá começado pela desesperança e carência das coisas mais elementares? Como
um gesto de carinho? Não estou justificando, mas não sei o que seria de cada
um de nós se tivéssemos enfrentado tanta tristeza, miséria e dor!
A
simplicidade e pobreza daquelas crianças me emocionaram e encontramos atrações
diversas no modo de viver. Partilhamos experiências em nossas conversas e
aprendi muito das suas vivências que me empolgavam. É como se ali, duas vezes
por semana, me sentisse completamente livre de qualquer entrave, o que em
Copacabana, na movimentada Rua Barata Ribeiro eu não conseguia. Foi uma lição
de vida, trocas de sentimentos e sofrimentos antagônicos partilhados
mutuamente. Dei aulas aos pequenos que não eram alfabetizados ou que tiveram
que sair do colégio para ajudar aos pais.
Começou
aí meu grande ideal que junto à literatura, iria me acompanhar em todos os
momentos e que minha mãe brincando comigo chamava de “socialista”
Ver
um mundo melhor, menos diferenciado e mais humano constituiu meu pensamento de
muitas horas adolescentes. Costumava cismar no enigma da riqueza e da fome.
Compreendi,
pouco depois que os sofrimentos são variados e universais e que outros tipos de
dores substituem a falta da pobreza e de recursos.Que todos sofrem em menor ou
maior grau e também que as
alegrias são múltiplas e atingem a todas as camadas.
Observando,
porém no decorrer de minha vida como a pobreza tem aumentado e a miséria vem
predominando, vejo o quanto falamos e enunciamos palavras bonitas sem entender o
que é a fome. Como podemos entendê-la se
essa peste da humanidade é tão devastadora e amarga , deixando pessoas e crianças
em lamentável situação de horror e debilidade?
Que
se reproduz mais forte e mais potente enquanto restos de comida são jogados
fora e o solo fertiliza maravilhosamente em nosso país? Como entenderemos se
nunca passamos por tragédia tão pungente e aniquilante?
Falamos
da miséria, da fome e mesmo assim encontramos um governo que faz demagogia nas
horas necessárias, mas não encaram o problema com a severidade que deveriam. Aí
está um espaço em meu site em que falamos da fome, com o apoio de muitos
poetas que aderiram ao movimento e muitas e muitas pessoas que me escreveram
emocionadas. A todos eles eu agradeço com grande carinho. O que lamento é que
tudo isso foram apenas gritos no deserto, como com milhares de pessoas que
tentam abordá-lo ou tem a ilusão que seus lamentos surtirão algum efeito.
Mas continuaremos, sem restrições, com persistência maior que antes,
agarrando-nos a qualquer esperança mesmo suave que possa existir.
Sozinhos
não vamos resolver o problema da fome e da miséria, mas podemos ajudar aquele
que está ao nosso lado, e ele na medida que possa, ao que está perto dele.
Assim sucessivamente. Não solucionaremos, mas amenizaremos, suavizaremos e
tentaremos dar um pouco de alento. Vamos então dar a um asilo, creche ou a uma
ou mais famílias que precisam nosso apoio moral, espiritual e material. Sem
alardes! Silenciosa! Ternamente!
Se
todos conseguirmos isso já é uma esperança, que brilhará como uma luz talvez
fugidia, mas constante e esperamos que vigorosa.
Vânia
Moreira Diniz