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Fascinante Visita Vânia Moreira Diniz
Enquanto meus olhos se abriam, pela manhã,
ainda na vigília do sono, lembrei-me quanto precisava fazer outra visita a
periferia da cidade. Costumava mandar
alimentos e dinheiro para medicamentos a um casal idoso, doente ambos e
necessitados de apoio. Como fazia visitas regulares àquela região, tinha
deixado para ir até a sua casa outro dia. Tinha muitos trabalhos a concluir e ainda precisava dar uma chegada à
Faculdade, mesmo assim esqueci daquilo tudo e tomei como opção principal a
minha visita.
Desejava levar com meu carinho e apoio, alimentos e medicamentos. Assim
apressei-me a realizar o que estava em minha mente. E como sempre visualizava o
que poderia encontrar ou assistir de triste ou amargo. O sol batia na terra espalhada fazendo uma crosta de lama seca, e ao
olhar para o horizonte parecia que uma luz se escondia no dourado da distância,
tantas vezes por mim admirada em outros lugares. Havia crianças pequenas nuas
e, no entanto brincando como se ali fosse o paraíso.
Nesse momento retrocedi no tempo, pensando em minha brilhante infância
confortável e fascinante. E imaginei como em algumas ocasiões a vida é
injusta! Desejaria levá-las para um lugar aprazível e poder direcionar-lhes
uma vida pelo menos digna de um ser humano, principalmente nessa fase da existência,
cujos traumas se fixam para sempre na memória. Como desejaria ter condições
para isso! Finalmente dirigi-me ao endereço certo, na casa que já tinham me
mostrado, uma certa vez em que lá estive. Bati receosa e então uma velha
senhora abriu a tosca e frágil porta e
ficou me olhando, com uma expressão admirada como se tivesse visto um ser
diferente. Era meio curvada, talvez por um problema sério de coluna e
seu rosto devastado de rugas. Mas nesse mesmo rosto brilhava os olhos negros que
pareciam ter sido intensamente belos um dia. Havia uma luz diferente de bondade,
amor e compreensão. Eram grandes e apesar da idade se distinguiam plenamente na
fisionomia cansada.Eu me fixei nesse olhar tão difícil de ser encontrado no
sofrimento e na velhice. _Quem é você? Ela me perguntou sem
se desviar do meu rosto. -Meu nome é Vânia e... Ela não deixou que eu acabasse a frase e abraçou-me
com um carinho inusitado - Entre minha filha, como é bom lhe conhecer! E
foi assim, num estado ansioso que me levou para a um estreito corredor à guisa
de sala, quase pedindo perdão pelo estreito espaço e pobreza que eu via e me
dava uma percepção de impotência e dor. Quando ainda abraçada com Dona Maria virei-me ligeiramente pude divisar
Seu José deitado numa ínfima cama, numa extensão daquele lugar pequenino em
que conversávamos. Ele havia tido um derrame e se recuperava miseravelmente.
Seus olhos que pareciam ter sido claros um dia, tinham uma expressão de quem
havia sofrido algum tipo de intervenção e parecia sempre que fitava em direção
oposta de quem conversava Quando fui buscar no carro os mantimentos com um garotinho, neto do casal, minhas lágrimas eram tão intensas que eu não conseguia enxugá-las com eficiência. Não eram lágrimas apenas de tristeza, mas de admiração por pessoas valorosas que enfrentavam o sofrimento com a mesma galhardia que eu tinha para minhas vitórias ou momentos cristalinos. Ao voltar, senti aquele brilho de felicidade real nessa mulher, como
agradecendo a Deus continuamente o fato simplesmente de existir. Senti uma fé
embriagadora na vida, naquele momento de apogeu em que testemunhava a vitória
de pessoas, que passaram ainda mais a encantar e fascinar meu mundo interior. Não
importava a eles o que tinham, mas sim a certeza que na hora certa teriam a
legitimidade de possuir o que precisassem. Sensação plena de realizações e
de saber que tinham cumprido seu dever fruto do amor e generosidade intrínseca. Ao retornar para casa embora meus olhos estivessem continuamente úmidos,
tive uma sensação de plenitude e de beleza
ao conhecer essas pessoas que
não precisavam de dinheiro, fama ou sucesso
para enxergar o horizonte que não conseguia por vezes discernir.
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