
Meus
velhos Amigos
Vânia Moreira Diniz
Hoje
quando acordei estava uma manhã cheia de sol, embora com a característica
dos dias frios de inverno. Se for possível
chamar de inverno, dias cujo sol queima ao tocar a pele é a esse
mesmo que me refiro.
Costumo
visitar um casal já idoso na periferia de nossa cidade, para quem levo
comida, remédios e gás. E sempre achei que eles me davam lição de
vida ao me mostrarem, o sofrimento e uma existência quase miserável
com coragem e alegria.
Tinha
recebido a notícia de que Sr Antônio ia se operar de um câncer na próstata
e meu coração doeu à lembrança daquele casebre em que viviam.Ele
sempre com uma sonda para facilitar a deficiência que o amargava e Dona
Maria, curvada pela artrite e mal conseguindo andar o necessário dentro
da própria casa.
Foi
com dificuldade e muita tristeza que consegui bater naquele frágil portãozinho
que me acostumara já a visitar.E com os olhos marejados vi aparecer a
figura de um dos netinhos do casal, que já me conhecia.
Olhei-o,
beijando-o sem conseguir perguntar pelos avós, mas ele me disse.
-Eles
perguntam todo dia por você!
Fiz
apenas um carinho nos cabelos esvoaçantes do garoto sem conseguir falar
enquanto entrava naquela
casinha pobre, que tantas vezes me entristeceu pelo abandono e devastação.
Seu
Antônio foi o primeiro que me viu e seu rosto se iluminou, se é possível
dizer isso de uma pessoa tão fraca, pálida e acabada. Agachei-me perto
de sua tosca cama procurando fazer-lhe
um carinho no rosto e beijando-o em seguida.Dona Maria entrou então por
um vão que era apelidada de cozinha e levantei-me para abraçá-la.
Tudo
ali era tão patético que mesmo sem querer, as lágrimas não tinham tréguas.
E por incrível que pareça, na coragem que ostentavam, parecia que mais
me consolavam do que eram consolados.
Foi
então que Seu Antônio me disse:
-Vou
me operar, minha filha!
Achei-o
tão fraco, que temia por uma operação naquelas circunstâncias.
-
É mesmo necessário? O que disse o médico?
-O
doutor disse que estou muito velho e fraco. Que seria melhor não
operar.
Mas
eu quero. Não agüento mais essa sonda. Minha filha vai ter que
assinar.
-Quer
dizer que ela vai ter que autorizar é isso?
Ele
balançou a cabeça desconsolado e compreendi que era uma operação de
alto risco mas na qual queria tentar um alívio.
Olhei então para Dona Maria e não pude me conter ao vê-la tão esmagada pela dor e pelo medo de perder o velho companheiro. Senti sua dor no olhar arrasado em que quase me pedia socorro. E pela milionésima vez eu lamentava em desespero a impotência que nos domina em momentos como esse.
Pedi
ao rapazinho que buscasse no carro o que tinha trazido para eles,
constatando que já quase não existiam mais alimentos dentro de casa e
prometi conversar no Hospital com o médico que
estava atendendo ao meu triste amigo.
Meu
coração estava extremamente doído e perguntava-me como era possível
que a vida fosse realmente injusta com pessoas tão maravilhosas. Vi
quando Dona Maria sorriu e disse:
-Vou
comer macarrão, hoje, minha filha!
-gosta
de macarrão? Eu também adoro!
-Sim,
mas só como quando você traz nas compras.
-Não
tem importância. Trarei mais e poderá comer sempre que quiser.
Minha
garganta estava embargada com um nó imenso a interceptar que as lágrimas
descessem de tanta emoção.
Abracei-os
com carinho imenso pensando como seria difícil minha conversa com o médico
que estava tratando o meu velho amigo.E ainda mais imaginei como me
sentia orgulhosa de poder conviver com pessoas fantásticas, tão nobres
que em meio ao sofrimento se mantinham
altivas e compreensivas e cuja revolta não faziam parte de seu
mundo.