
“Ela me tira a fome"
Vânia Moreira Diniz
Tão perto do Natal minha luta na campanha da fome se acirra mais e mais
e sinto-me triste com as pequenas coisas que procurei realizar.Desde tão criança
sentindo a desesperança de pessoas sofridas, com fome e que se sentem apartadas
ou excluídas, eu me pergunto sempre a causa de tanta miséria e sofrimento.
Compreendo a pobreza, mas jamais a miséria.
Hoje além das famílias costumeiras queria visitar mais gente,
especialmente um lar que me
disseram estar devastado por fome, doenças e também revolta.
Imaginei as milhões de vezes que já tinham passado por pessoas tão
desesperançadas e sofredoras que quase não tinha o que falar.
Resolvi ir diretamente para essa família, que ainda não conhecia. Com
dificuldade encontrei. Do lado de fora pedi forças a Deus para que pudesse
ajudar em alguma coisa.
A madeira sem pintura que servia de porta, abriu-se e pude entrever a
figura de uma mulher ainda jovem, mas cujo rosto revelava dor e amargura. Ficou
olhando para mim, um tempo que imaginei enorme.
_Conheço você, moça bonita. Já vi
por aqui. Pensei que tivesse
medo de vir até aqui.
- Não tenho medo. Apenas não tinha podido vir porque os problemas a
resolver eram muitos. Posso entrar?
Ela se afastou ainda olhando para mim dando-me passagem, num vão escuro,
silencioso e com colchões espalhados pelo chão.Apesar do escuro pude ver
algumas manchas escuras em seus braços e perguntei o que era.
-Levei uma surra. Meu marido é alcoólatra.
- Não denunciou? E ele...?
- Está chegando. Veja. Você vai gostar dele. Quando não bebe é amável!
Virei-me rapidamente para trás e pude receber um sorriso sem
luminosidade de alguém que parecia envelhecido
prematuramente.
Sorri em resposta perguntando com o ele ia.
Também me olhando estranhamente baixou logo os olhos
-A moça está aqui visitando?
-Sim vim trazer alguns alimentos, mas vejo que você precisa de assistência
e sua mulher de cuidados.
-Ela estava dizendo que sou viciado na cachaça, não é?
- Não é?
- não é vício.
Posso parar se quiser. Mas ela me tira a fome.E minha mulher me atormenta.
Parei pensando em alguma palavra que não o tornasse hostil.
-Escute, vim aqui para ajudar, Todos nós precisamos de ajuda, quer num sentido, quer noutro. Estou aqui para fazer tudo que estiver ao meu alcance.
- Moça, não consigo emprego, meu filho está doente e que quer que eu
faça?
- Pode me ajudar a trazer algumas coisas aqui para dentro? Posso
conseguir-lhe umas reuniões nos alcoólicos anônimos. Mesmo que não seja
viciado como diz, não faz mal a ninguém. No mínimo quando bebe se descontrola
e bate em sua mulher.
Senti uma ligeira animosidade em seu olhar, mas ele não falou nada.
Estava querendo ter tempo para ainda conversar com Dona Jacira sobre sua vida.
Pude observar que eles estavam sem nenhum alimento além de farinha e um pouco
de óleo e virei-me para um lado em que não vissem meus olhos úmidos. Agora
deixaria os alimentos, gás e algum dinheiro para os remédios, mas voltaria no
sábado para conversar com cada um e orientar a mulher que me fizera sentir uma
dor aguda no coração. Antes disso porém procuraria saber onde estava o filho
doente e o resto de sua família. E depois seguiria rumo a outros lares
desabrigados e tristes.
Pensava em que como a miséria era indigna de qualquer ser humano mas
prosseguiria com fé rumo aos
ideais de justiça pedindo a Deus que me tornasse menos egoísta e mais
compreensiva.
25-11-2002