Chorar não... Por favor,...
Vânia Moreira Diniz

Amanheci, com aqueles nevoeiros d’alma, que vez por outra nos acometem, de maneira profunda. Tudo parecia escuro à minha volta e a chuva que caía fina e ininterrupta, contribuía para esse estado atual. Se eu começasse  a trabalhar naquela hora não conseguiria mais parar e precisava fazer outra visita à periferia da cidade e dar assistência ao meu casal de velhos que tanto me impressionara, pela miséria que os cercava no momento mais frágil das suas vidas.

Dirigi-me, então para lá, certa de que cenas tristes me esperavam. Sempre me causa pânico e dor, ao observar que chegando nesse lado mais pobre da população, tudo parece desafiante e inesperado. Até as ruas são diferentes e a chuva começou a cair forte, enlameando a pobreza já existente.

Com acesso difícil, cheguei finalmente a casa planejada. Bati, mas percebi que a porta estava entreaberta e pedindo licença entrei. Deparei-me então com Sr. Antônio que se encaminhava com dificuldade para a porta. Com enorme dificuldade de andar. Continuava como exemplo vivo da fragilidade. Seus olhos, no entanto se iluminaram ao ver-me enquanto dizia:

-Foi Deus que lhe mandou aqui, moça. Minha filha não aparece há muito tempo. E Maria só voltou hoje do hospital. Passou mal com remédios que lhe deram no posto para o reumatismo.

Seu rosto estava enormemente abatido e olheiras fundas se instalavam em volta dos olhos. E enquanto o abraçava e pedia que me levasse até o quarto para ver a esposa, pude perceber o quanto estava emocionado. Sua voz trêmula saía com um ligeiro cansaço, e finalmente quando vi Dona Maria, pude perceber que ainda estava pior do que ele.

O quarto era apenas um cubículo, pequeno, escuro, sem quase nenhuma luz e a velha senhora encolhida numa cama tosca e baixa, parecia muito pequenina. No entanto quando cheguei até perto dela e beijei-a pude vislumbrar um sorriso que eu não esperava.

Percebi apesar do sorriso, que estava chorando, e meu coração se confrangeu, sem saber o que fazer, enquanto um nó imenso se formava na minha garganta, impedindo-me de falar. Enxuguei então com meus dedos, as lágrimas que desciam de seu rosto e enguli as minhas próprias.

Perguntei-lhe então, se podia andar, ou se precisava de repouso absoluto.

-Posso, disse-me ela. O Doutor falou até que eu não posso ficar muita deitada. Mas ando daquele jeito que você conhece.

-Não tem importância. O importante é que pode. Venha, eu lhe ajudarei. Quero mostrar-lhe o que trouxe para vocês.

Com dificuldade ela se levantou e foi andando curvada como sempre, resultado da artrite perniciosa. Mas quando chegou no outro cômodo que alcunhavam de sala,  e viu os pacotes que lá estavam um verdadeiro sorriso se formou em seu rosto.

-Filha, não sei o que falar. Quanta coisa! Vou comer macarrão. Aí tem macarrão, veja Antônio, dizia ela chamando o marido.

Emocionada, ouvi quando falou com tristeza:

-Não podemos cozinhar. Não temos gás. Minha filha tinha levado o bujão para cozinhar para as crianças. Deve ter acabado.

-Mas já providenciei.

Dona Maria nesse momento começou a chorar, de uma maneira  convulsiva enquanto eu pedia;

-Por favor, não chore...  Não chore, por favor.

As minhas visitas àquele lugar tem me trazido uma riqueza interior muito grande. E enriquecido meus dias.  Conhecer e poder partilhar de momentos como esse, me faz ver o quanto sou egoísta em diversos momentos de minha vida. Penso nas diversas vezes que me entristecia por fatos tão pequenos, sempre cercada de carinho e amor. E agradeci pelo fato de estar sempre aprendendo com pessoas especiais.

Sr Antônio aproximou-se de mim. Olhei para ele com carinho e ele me disse apenas:

-Obrigada. A única coisa que podemos fazer é rezar pela moça.

-É tudo que quero e preciso. Reze, reze muito. Eu preciso! Quanto ao resto, vocês me dão alegrias imensas. São exemplos de coragem!

Percebendo que estavam cheios de emoção pedi:

- Não chorem, por favor, não chorem... Não sou tão corajosa como vocês...


Experiência de um natal
Vânia Moreira Diniz

Não poderia deixar passar a noite do dia 24 sem visitar e levar um pouco de conforto a eles. A última vez que visitei aquele senhor foi no Hospital, estava inconsciente e sob a ação de remédios, completamente entregue a um sono que não sabíamos se teria  fim. Havia sofrido um derrame e eu temia pela sua vida. Olhando-o retornava-me a pergunta que sempre me acompanhou desde pequena: A vida valeria a pena? Para que vivermos? Olhando para o velho homem sentia um misto de tristeza e ternura por sabê-lo sofredor e, no entanto, sempre dando lição de grande e valiosa experiência.

Conhecera-o numa das visitas que eu fizera à periferia da cidade para levar alguns alimentos básicos e remédios.  Ele morava com sua mulher, a sofrida Dona Maria, e um filho alcoólatra, cujo casamento acabara motivado pela própria miséria. Ele fora então morar com os pais. Dona Maria se tomou de amores por mim e eu senti um carinho imenso por aquela lutadora cuja vida nunca conhecera a paz ou  um pouco de felicidade.

Nunca esquecerei a expressão do casal e do filho que embora viciado procurara conversar comigo, relatando-me num momento sóbrio,  todas as fases que já passara, e a dor de não sobrepujar o vício.Lembro-me que o encaminhei aos alcoólatras anônimos e procurei enviar vitaminas e alimentos para que pudesse agüentar as diversas síndromes de abstinência, que lhe acometiam nas fases em que parava de beber. Tudo era profundamente dolorido de se ver e eu ficava muitas vezes chocada, com quadros que nunca presenciara em minha vida.

Hoje fui visitá-los para desejar senão um feliz natal, pelo menos lhes levar o conforto de um abraço e de alguma comida natalina, para suavizar  a tristeza de uma vida insuportável. Dona Maria me recebeu com um sorriso (eu me perguntava como ainda conseguia sorrir) e logo segurando minhas mãos, olhava-me agradecendo num gesto de humildade. Não pude suportar e, puxei-a para perto de mim, querendo infundir-lhe no velho  corpo um pouco do meu vigor. Seu Francisco ainda estava deitado e o rosto magro se voltou para mim com a ternura que sempre demonstrava. Seus olhos estavam fundos, mas pelo menos brilhavam, quando me fixaram tristemente:

- Filha, hoje é véspera de natal. Que está fazendo aqui?

- Vim desejar-lhes um feliz natal! E  trazer-lhes uma pequena ceia.

Quando alguém trouxe as bandejas que eu deixara no carro, as lágrimas transtornaram a todos nós. A eles pela emoção daquele momento e a mim  pela tristeza de fazer parte de um mundo tão contrastante, em que a miséria era um fato comum e aceito sem protestos ou grandes revoltas .

Muitas vezes, como hoje me senti culpada, embora inconscientemente, por ter sido criada num ambiente, em que me sobrava o que lhes faltava. E quando meu pensamento se entregou a essa reflexão instintiva, ouvi a voz do filho do casal cumprimentando-me e pude olhá-lo, sabendo naquele instante que seu tratamento continuava e os alcoólatras anônimos haviam feito um belo trabalho.

Agradeci a Deus, à natureza, ao que quer que seja, que de poderoso energizava o ambiente naquele momento, e compreendi o quanto esses irmãos simples de caminhada, haviam me ensinado e contribuído para momentos especiais e maravilhosamente vividos. Uma experiência de Natal!


Significado do amor
Vânia Moreira Diniz

Costumo trabalhar até muito tarde e geralmente pela manhã acordo sem muito tempo de fazer alguma coisa antes de recomeçar novamente. Mas hoje amanheci pensando naquele menino epilético que eu havia visitado e que agora com um tratamento adequado, já não sentia as conseqüências devastadoras.

Não sei porque uma angústia tomava conta de mim e minha vontade era me dirigir à periferia da cidade para ver aquela família, e talvez outra, que estivesse necessitando. Naquele momento, acho que espiritualmente, eu precisava bem mais que eles. Em vésperas de natal, imaginava a devastação e tristeza que deveria tomar conta deles, sempre tão carentes de doçura e afeto.

Meu coração batia desordenadamente quando cheguei à porta, se pudermos chamar de porta o lugar onde deveria bater para que me atendessem. E surpreendentemente Marlon apareceu, com o rosto mais cheio e menos amarelado do que o tinha conhecido, o que tanto me impressionara. Ele sorriu para mim sinceramente e aquela expressão ficou fixada para sempre em mim, tenho certeza absoluta.

Sua mãe chegou logo depois, e ela sim, me pareceu deveras abatida. Ligeiro ríctus de satisfação, mais parecendo um esgar, surgiu em seu rosto, ao me ver, e as lágrimas, acho represadas, saíram livremente quando a abracei. Olhei-a admirada que apesar da vida e dos sofrimentos incomensuráveis pudesse ainda ser bonita. Os traços estavam marcados pela vida atribulada, e muitas rugas precoces se alojavam nos olhos grandes e impressionantemente negros. Os cabelos mal tratados eram lisos e também escuros, e mesmo com a falta de trato, abundantes, embora foscos pela limpeza precária. O nariz perfeito poderia servir até para se comparar às nossas deusas gregas, mas a pele estava manchada pelo sol em demasia.

Imaginei, como teria sido bela , se a vida lhe tivesse dado oportunidades e conforto. Nesse momento, jurei, que haveria de ajudá-la, sempre no que me fosse possível. E me entristeci ao sentir como somos tão mesquinhos e mal agradecidos quando temos um mundo de vida, esperança, amor, ternura, realizações, ideais concretizados, mesmo que não inteiramente, e perspectiva para sonhar. Eu me senti uma idiota ali, ao lado daquela mulher valorosa, e não sabendo apreciar o que recebera ao nascer. Que recebia elogios com a mesma indiferença que ela ouvia críticas e desdém. Que me sentia ofendida com uma palavra quando ela almejava por alguém que se interessasse  pela sua vida.

Saí de lá sabendo que ela esperava outro filho de um homem bêbado, violento, que a brutalizava para deixar nela ainda uma criança, que passaria as mesmas e inevitáveis agruras. Saí de lá imaginando a vida de alguém que tinha alma, coração, sentimentos, a quem não deveria ser  vedado sonhar e desejar, mas que estava transformada num robô pronta a sofrer sem a palavra definitiva e final.

Ao entregar uma cesta com alimentos, deixei junto com isso a minha impotência, porque sabia que a verdadeira alegria lhe tinha sido negada ou ela estava frágil para procurá-la. Perguntei-lhe o que queria fazer, se gostaria de passar algum tempo longe daquele lugar ou tomar outro rumo, se pudesse, e ela prontamente me respondeu que sua vida era ali, e não se sentiria bem em outro lugar.

Lembrando do natal, recordando as mágoas tão sem consistência que às vezes tomam  conta do ser humano, pergunto-me porque não encaramos a vida de outra forma sendo capazes de sobrepujar coisas tão pequeninas. E é no espírito de natal, que quero aprender cada vez mais com pessoas excepcionais como essa moça, e pedir ao criador seja qual for o nome que ele tiver, que me ajude nessa íngreme e pretensiosa missão.  Mas principalmente me ajude a ser menos egoísta, mais, muito mais compreensiva e ser capaz de ver acima e além das pequeninas coisas que recebemos e usufruímos.

De nada adiantará pensar e confraternizar o Natal com o coração afastado do que é a essência do “ser”  e do “viver”. Será inútil tentarmos  a confraternização se durante o ano nos afastamos de tudo que possa significar a profundeza de se doar e de amar verdadeiramente. Por isso quero aprender. Por isso almejo me aperfeiçoar. E seguir  sem entraves para compreender realmente o significado da palavra amor. Se conseguir um mínimo que seja, sei que terei conseguido ser feliz e poderei encarar meus ideais fundamentados em meu próprio conhecimento do ser humano.


Muito além  da emoção
Vânia Moreira Diniz

Saí para mais uma visita à periferia da cidade de Brasília, já me entristecendo pelo que poderia ver. Andar de carro por aquela região nos dá um sentimento de quase total impotência, como se estivéssemos com as mãos atadas. É lastimar porque estamos sentados com tanto conforto, enquanto pessoas tão merecedoras como nós estão ali, cansados a esperar uma condução, na maioria das vezes viajando em pé e mesmo assim pagando uma quantia pequena e que, no entanto fará falta.

Quando cheguei verifiquei que devia ser uma rua das mais pobres da região e meu coração se confrangeu por tanta miséria perguntando-me insistentemente como fazia há anos, a razão de tanto contraste.

Na porta daquela casa eu me detive. Sempre procuro tomar um pouco de ar para que possa me controlar ao ver tantas coisas tristes. Mas quando entrei e deparei-me com tanta miséria, a revolta foi maior. Não se podia chamar aquele compartimento de uma casa. Casebre era o máximo, mas o mais triste quando vi no meio do aposento frio cujo piso era de cimento, uma criança deitada num colchão. Seu aspecto  era tão frágil que parecia não ter mais de cinco anos mas os traços  de uma magreza estranha revelava ter muito mais. O rosto estava amarelado e os olhos fixavam uma distância impossível de avaliar. Pareciam vidrados e quando se virou para mim, teve uma expressão de surpresa e ficou me olhando durante longo tempo. Queria saber sua reação, por isso fiquei calada enquanto sorria para ele:

- Como é seu nome?

- Marlon, respondeu ele enquanto fazia a primeira sílaba ficar tônica.

-Você tem nome de artista. Ele então fez um movimento súbito e disse baixo parecendo que a fraqueza não o deixava pronunciar claramente as palavras.

-Você é bonita, quem é?

Olhei-o com ternura enquanto apenas dizia

-Alguém que veio visitar-lhe. Gosta de receber visitas?

Não me respondeu, mas seus olhos continuavam fixos em mim. Observei então com mais detalhes aquele cômodo pobre, sem uma luz para dar um pouco de vida e vi mais três crianças. Todas com aspecto doentio notando as lágrimas que desciam pelo rostinho da menor. E pouco depois, uma jovem que imaginei ser a mãe saiu de um vão que deveria ser a cozinha.

Aproximei-me, beijando-a enquanto a moça,  tímida, não sabia o que falar.

- Conversei com o Marlon, o que ele tem?

-Ele é doente. O Doutor disse que ele sofre de ataques.

Fiquei imaginando o que seria e então lhe perguntei

-Ataques? Convulsão? Epilepsia?

-Sim, é esse nome. Ele toma remédio controlado.

- E onde consegue esses remédios?

-No posto. Mas não é sempre que eu encontro. O Doutor me dá a receita dizendo que ele não pode deixar de tomar, mas nem sempre consigo encontrar.

Foi com muito custo que consegui acalmar meu coração enquanto lhe passava a cesta básica e lhe fazia algumas perguntas. E ela começou a falar com naturalidade como se precisasse desse momento de desabafo.

Imaginei a miserável vida que levavam, a luta da mãe para trabalhar deixando aquelas crianças ali e a ausência do pai que não dava nenhuma assistência.

Comecei a pensar uma forma de arranjar um lugar para que as crianças ficassem durante o dia, onde recebessem assistência e um tratamento mais adequado para Marlon.

Meus pensamentos iam para longe, mas nunca me conformaria. Não com a miséria! Não com uma vida indigna para as pessoas! Não com o sofrimento de uma criança!

E imaginei meus anos de infância, o conforto que me cercou, os brinquedos que alegraram minha meninice em contraste com aquela miséria e tristeza. Prometi que voltaria na próxima semana, pois queria ir ao hospital em que o garoto se tratava.

Caminhei devagar divagando longamente, sentei no carro e não consegui vencer a emoção.O quadro triste não saía do meu pensamento e como um filme contemplava as cenas em seus mínimos detalhes.  Ali mesmo, naquele lugar onde crianças brincavam pelo chão de terra e poeira, esquecidas de seu triste destino, as lágrimas aliviaram a enorme dor que se apoderava de minha alma como um terremoto hediondo.


Nada menos que egoísta
Vânia Moreira Diniz

Eram quatro crianças. Olhava-as procurando entender porque estavam ali, naquele casebre, sem conforto e sem comida enquanto nós podíamos usufruir um conforto razoável. Procurava entender na minha ignorância porque seus olhos deviam estar tão tristes e opacos quando mesmo difícil existia um mundo que elas deveriam admirar. Não questionava Deus. Apenas não entendia seus desígnios.

Aproximei-me de uma delas. O menino era louro e seus cabelos foscos de poeira tinham uma tonalidade que muitas pessoas procuram. A suave tonalidade clara em certos momentos e à luz do sol que entrava tênuemente, pois eu deixara a porta aberta ao entrar, tinha reflexos cor de mel. E os olhos imensos pareciam dizer que tinham medo. Logo compreendi que expressavam o quanto sentiam fome.

Agachei-me para conversar com os quatro garotos, que pareciam desconfiados, e, no entanto me fitavam com um sentimento que eu não sabia definir, embora me confortasse.

Passei a mão pela cabeça daquele que estava mais próximo, perguntando:

- Está sentindo alguma coisa, querido?

Ele apenas balançou gravemente a cabeça olhando para os alimentos e doces colocados numa plataforma que estava ali, à guisa de poltrona. E eu compreendi seu intercâmbio tímido e esperançoso. Sorri para todos esperando receber na retribuição do sorriso uma forma de me sentir menos culpada.

A mãe se aproximou sem mais tanta cautela, olhando-me ternamente enquanto me dizia:

- Eles estão com fome! Só isso!

Observando-a percebi que aquela mulher, mãe das crianças, estava envelhecida prematuramente e que a vida não a privara de sofrimentos estampados em seu rosto que deveria ter sido um dia, se talvez tivesse sido bem tratado, o de uma mulher bonita. Os traços eram delicados, mas o sol tostara a pele de uma maneira  selvagem, deixando marcas de maltrato e engrossando a pele,prova evidente da aridez de sua vida.

Segurando minhas mãos, agradecia aquele momento e minha vontade era infundir-lhe calor nas mãos ásperas que eu sentia entre as minhas. E mais uma vez não entendi a diferença que tem que haver, entre seres humanos criados pelo mesmo Onipotente Deus.

Pedi a ela que tirasse os mantimentos necessários e que fizesse um almoço para todos enquanto distribuí os chocolates que havia levado, e que sabia que logo lhes daria um certo vigor, enquanto esperavam. Embora desconfiados, os quatro meninos sorriam, mostrando os dentes que já careciam de tratamento e então me sentei e pus no meu colo a menina que fora motivo de minha apreciação maior.

Ela acedeu mansamente e perguntou

- Por que trouxe comida?

- Para que vocês se alimentem

- Por que? Você já veio aqui?

Olhava para a pequenina de cabelos castanhos e olhar belicoso, que dava um traço de charme intenso à sua fisionomia. Era um rosto agreste, bem brasileiro e encantador, e desejei que ela jamais voltasse a passar os momentos duros que já  deveria ter enfrentado. Mas Tanite me olhava sem tirar os olhos dos meus. E então num movimento recíproco nos abraçamos, sem que eu pudesse entender a sincronia intensa que se formou.

As outras crianças me cercaram e fiquei pensando como poderíamos ajudar tanta gente, nessa circunstância, num país todo que passava fome. Num lugar cujas crianças que cresciam ansiavam para que abríssemos os olhos, notando que ali estaria o país de amanhã que poderia ser valoroso se seus membros em crescimento recebessem educação e carinho, mas que poderia ser fatal, se a nação continuasse maltratando e indiferentes à fome e miséria de milhares de crianças e famílias, que definhavam em meio a uma terra produtiva e fecunda

Enquanto comiam vorazmente pensei em quanto alimento colocamos fora, inconscientemente, e na verdade julguei-me, nada menos que egoísta. Foi isso que pensei naquele momento, as lágrimas lentamente descendo, enquanto observava a cena de pessoas que ali estavam tão perto de mim e com as quais fora tão indiferente.

Obs - O resultado da venda do meu livro em Cd  ofertei aos carentes. Não fiz mais que minha obrigação.


Um Casal Especial
Vânia Moreira Diniz

À medida que me aproximava de uma cidade satélite de Brasília, Santa Maria, na periferia da cidade, sentia a pobreza tomar conta até da paisagem. E realmente entendo que nem todas as pessoas, infelizmente, podem fitar o céu ou ver as estrelas com o mesmo deslumbramento. Para os moradores daquela parte da cidade, os dias ensolarados e claros devem ser ofuscados pela desesperança, e a maior parte dessas horas encobertos por um denso nevoeiro. Isso eu pensava enquanto me dirigia com cestas básicas para aquele lugar onde vi tanto sofrimento.

Mesmo que costumemos visitar bairros pobres ou asilos, toda vez que vamos a um lugar tão triste, onde pessoas como nós sofrem privações e fome, é  como se nossos corações ficassem oprimidos e se sentissem culpados. Foi essa a impressão que tive ao ir chegando à casa de um casal de velhos. Quando bati e me viram, embora já sabendo que eu iria lá, surpreenderam-se com minha visita. E ao me verem entrar, sentiram-se constrangidos embora eu fizesse todo o possível para deixá-los à vontade. Mas era um constrangimento que ocultava  claramente felicidade.  Logo sorriram para mim com a espontaneidade das pessoas simples e boas.

Seu Antônio parecia bastante doente. Soube que usava uma sonda para que seu rim trabalhasse e fazia hemodiálise num Hospital do governo. Dona Maria andava com muita dificuldade, curvada, apoiando-se sempre, porque sofria de uma artrite perniciosa. A casa era tão pobre de chão batido e paredes frias e quase transparentes, que eu senti interiormente uma forte  dor.

Ambos olharam a cesta de alimentos, agradecendo com um brilho nos olhos  e então me disseram que estavam completamente sem nenhum mantimento em casa.

- Estamos com fome, moça, disse-me ela com uma voz frágil. Só temos agora farinha dentro de casa.

Engolindo o soluço que fazia um nó em minha garganta encetei uma conversa com o casal e soube que não tinham nem gás para cozinhar os alimentos. Contaram-me então as dificuldades, lutas insanas num país que não se preocupa com seus velhos e principalmente quando doentes, e sem sequer usufruir uma aposentadoria mínima. Haviam trabalhado no campo e estavam lutando por ela   há muito tempo.

Enquanto providenciava o gás, ligando para a companhia do meu celular, aproveitei para me estender no diálogo e ouvi-los. E mais do que nunca pude entender como a miséria é  penosa e ultrajante. Chegar àquela idade e não ter nem o básico para viver, se assemelha a ser  enterrado vivo sem condições de emitir um grito que no desespero pudesse ser ouvido.Olhava-os, certa de que eles eram os verdadeiros heróis. Porque eram heróis, além de tudo, sem medalhas, comemorações ou festividades para engrandecê-los.

Deixei algum dinheiro para que pudessem comprar remédios e ele então me falou, olhos marejados e vermelhos, enquanto sua mulher chorava suavemente:

- Temos fome, mas sei que existe gente como você, moça. Nunca vou esquecer disso.

Pensei quão pouco eu ainda estava fazendo e enxerguei no humilde casal ídolos verdadeiros, cuja bondade e desprendimento, faziam com que vissem o lado positivo de tanto sofrimento.

Abraçei-os com carinho, mas jamais poderei deixar de ir visitá-los sempre porque nunca esquecerei o que significaram para mim em emoção misto de indignação e dor, mas também intensa admiração por alguém que é capaz de sofrer sem mostrar revolta ou desespero.  Fui eu, que recebi verdadeiramente um presente maravilhoso tendo podido conviver com esse casal tão especial.


Um intervalo para a miséria

Hoje peço mais um dia de trégua nas considerações que comecei a fazer sobre a cidadania que devemos exercer e no critério mais justo que os políticos devem seguir. Dessa vez não é para apreciar a natureza e expor minha poesia que tanto gosto. Infelizmente não. Mas para chamar a atenção sobre uma reportagem que vi há dois dias no Jornal Nacional sobre a miséria que grassa em nosso país. E da qual me envergonhei apesar de saber de tudo que se passa.

Nunca presenciei uma guerra. Mas sei dos seus efeitos desesperadores pela própria história. E de repente senti que talvez tivesse vivendo numa delas, vendo crianças, pele e osso e seus pais também com fome, sem ter o que lhes dar para comer. Mães chorando à procura de alimento para que as crianças possam sobreviver. E se conseguirem, sofrerão de raquitismo, problemas de crescimento, anomalias mil, que infernizarão o resto de suas vidas. Isso se escaparem do marasma da fome e do desespero que ronda pessoas de um país que sabemos produtivo o suficiente, para que seja erradicado esse fantasma.

Ao contemplar horrorizada as crianças cujas costelinhas apareciam debaixo da pele muita fina, ao ver o sofrimento dos adultos impotentes e frágeis em suas vidas miseráveis pela falta da mais básica condição de vida, as panelas velhas e vazias e um grude de resto de comida que seria oferecida aos filhos como último alimento existente ali, senti uma súbita e terrível depressão. Mas principalmente por ter conhecimento  da opulência de  pessoas que exploram covardemente o povo. E minhas reflexões só me levavam à tristeza a que esse país chegou. As cenas que eu vi pareciam as pessoas cujas fotos foram tiradas em Biafra. Amargurantes e estarrecedoras!

Isso tudo creio, que é a recessão tomando conta do país.Enquanto não houver empregos e salários estáveis essa situação só tenderá a se agravar. Frentes de trabalho não resolvem a situação. Agem como paliativo. As pessoas trabalham seis meses e voltam a ficar sem emprego e agravada ainda por compromissos de sobrevivência assumidos.

Só estabilizaremos razoavelmente com salários diretos e estáveis. Economistas, psicólogos, sociólogos e tantos outros, falam muito em política de distribuição de rendas. São acordes que somente uma política de distribuição de renda seria capaz de eliminar a situação flagelada que se encontram mais de trinta e cinco milhões de brasileiros muito abaixo do nível de pobreza, efetivamente na miséria, mas não indicam uma forma objetiva. Creio que a melhor política para distribuição de rendas será pelo incentivo mesmo oficial da criação de empregos. Consiste em incentivar aos que detém empregos que adicione mais um, até com incentivos fiscais. E aqueles que não tem postos de trabalho, que crie pelo menos um.

Como exemplo da mais fácil criação de um posto de trabalho será a contratação de empregos domésticos com carteira assinada, recolhimento da respectiva previdência, pagamento de todos os direitos cujos custos poderiam constituir parcela dedutível do imposto de renda da pessoa física, adotando-se o mesmo critério da atividade empresarial.

Em síntese criando empregos aumenta a renda, em conseqüência a capacidade de consumir e finalmente poderá contribuir para a elevação da arrecadação de impostos.

Não sou nenhuma técnica no assunto, mas observo o que está a meu lado com muita atenção. Outras idéias e manifestações poderão ir se agregando até chegar a uma solução que reduza efetivamente a fome. Conclamo a cerrarmos fileiras contra ela.

Gostaria que nossos dirigentes pensassem um pouco menos neles mesmos e atentassem para o problema mais urgente do Brasil: A Fome. A fome que cresce devastadoramente e entristece um país rico e fértil cuja prodigalidade da natureza  é imensa. Basta explorá-la.  Parafraseando o escrivão Pêro Vaz de Caminha ao comunicar ao Rei de Portugal a descoberta de novas terras “Terra roxa, terra boa que plantando a tudo dá”.

Seremos felizes no momento em que pelo menos os nossos políticos pensarem nessa fome que ronda a maioria dos brasileiros. Pelo menos pensem e reflitam que ninguém pode ser feliz e auspicioso tendo a seu lado um irmão de caminhada, cuja miséria é tão grande que nem um grito de socorro é capaz de emitir nesse momento de tristeza pela fragilidade que a fome lhe confere.  Por isso pedi um intervalo para a miséria, falando, gritando e implorando  a quem pode ter alguma influência que se mova em defesa de nossos concidadãos, lamentavelmente abatidos pelo espectro terrível da fome.

Vânia Moreira Diniz

voltar