Valeu passar fome?
Vânia Moreira Diniz

Essa noite foi agitada em todos os sentidos para mim. Dormia e acordava e parece que estava alerta aos mínimos movimentos.E foi com alegria que acolhi a manhã ensolarada, clara e convidativa. Levantei-me pressurosa, com muita vontade de conviver um pouco com meus protegidos.

Assim depois de um banho e um rápido café parti para a periferia da cidade onde ao contrário do que todos pensam, encontro muitos motivos de aprendizado e carinho e até aprendo mais que ensino. A temperatura estava amena e enquanto o carro deslizava e com a música suave, eu aproveitei para fazer minhas reflexões.

Parei numa rua que costumava visitar, uma da mais pobres famílias daquela região. Na verdade quando os conheci era muito mais que pobres, eu classificaria como miseráveis, um estado nada condizente com a dignidade que se deve a qualquer ser humano.Felizmente os donos daquela casa onde mal cabiam 2 pessoas e moravam seis, estavam empregados e tudo tinha melhorado um pouco.

Quando entrava ali, mais do que nunca,tudo me parecia muito mal distribuído nesse mundo.Admito que possa haver classes diferentes, mas não miséria, isso fere qualquer senso de justiça e compreensão.

Ângelo, o menino que sofrera algumas convulsões e que meu amigo psiquiatra Sam estava tratando aproximou-se de mim, sorrindo. Pude ver que seus olhos estavam brilhando e pensei como as pessoas ficam mais bonitas quando expressam seus sentimentos.Claro,ele estava mais calmo, menos angustiado e poderosamente feliz apesar da pobreza que o cercava.

Abraçou-me repentinamente e percebi que se sentia seguro ali entre meus braços e eu mesma me senti confortada.Ele tinha apenas nove anos, mas era profundamente inteligente. Como poucos que eu já vira! Sentou-se no chão à minha frente  e fixou-me longamente enquanto eu lhe perguntava pelos estudos. E depois que me respondeu disse:

-Quero ser escritor... Quero escrever como você. Fazer versos e...

-e... complete, o que mais?

-Ser muito famoso!

-Como você sabe que isso lhe poderá fazer feliz?

-Porque eu vi televisão ali na casa do João e tem aquele lugar em que todos são pobres e estão ali e vão ficar famosos.

Olhei-o pensando como a mídia às vezes pode deturpar a imagem de uma criança em formação.

-Ali é apenas uma passagem. Tudo depende de sorte e não devemos jamais contar apenas com a sorte para conseguirmos o que queremos. Terá que estudar e então sim, será um homem realizado...Você nunca se sentirá verdadeiramente feliz de ganhar dinheiro com um jogo. Porque aquilo, meu querido Ângelo, é apenas um jogo.

-Você já ficou assim em alguma casa dessas?

-Claro que não, querido. Ângelo, as pessoas se mantêm porque trabalham e porque estudaram e continuam a estudar a vida inteira. Ponha isso na cabeça!

Intempestivamente ele me declarou

-Queria escrever versos e coisas como você. Para ter livros e todos conhecerem. Como se escreve?

-Em primeiro lugar não sou conhecida!.Eu não sou famosa, disse rindo muito enquanto ele me pedia:

-Você me ensina como se escreve assim?

-Em primeiro lugar estudando para pelo menos não errar o sua língua e depois expressando seus sentimentos, um dia vou lhe explicar tudo com detalhes.

Olhou-me então com ternura e falou:

-Vou contar a minha vida, e dizer que não quero mais sofrer nem ver minha mãe sofrendo. Isso dá para escrever? È feio dizer isso? Que sentimos fome e frio?

Emocionada abracei-o e respondi:

Não, não é feio, é triste, e um dia você vai entender o porque de tudo e cantar isso tudo nos seus versos.

Olhou-me então entre triste e esperançoso e respondeu:

-Então valeu passar fome pelo menos para isso!

Não respondi, apenas peguei nas suas mãozinhas frias de emoção e pedi que me ajudasse a buscar algumas coisas no meu carro, enquanto nós dois enfrentávamos, cada um a seu modo seus próprios e tumultuosos pensamentos.


Sei que faria o mesmo por mim...
Vânia Moreira Diniz 
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       Sábado foi dia especial para mim. A noite da véspera também especial e acordei algumas vezes pensando, que a vida reservava para nós momentos que em suas contrastantes diversidades causavam sensações fascinantes.

Foi uma noite de muita emoção, na sexta-feira, em que senti o quanto a vida pode nos surpreender através de uma pessoa muito especialmente querida, a demonstrar o valor e grandiosidade de cada acontecimento a desvendar sonhos e ideais.

       Foi com esses sentimentos todos liderando meus pensamentos que cheguei ao lugar que moram meus protegidos e acho que havia um sorriso mais acentuado em meus lábios quando vi as crianças se aproximando em algazarra, cada um querendo falar mais rápido comigo. Foi nessa a hora que rindo muito eu procurava coordenar a pequena e ruidosa confusão das crianças que se empurravam, que eu ouvi a vozinha da pequena Luiza (que eu conhecera a semana passada e tinha perdido a mãe)

       - Você está feliz?

     Ela uma das menores tinham passado pelas outras justamente nas brechas de espaço porque era bem pequenina. Estava a uma distância que eu podia vê-la, mas não dava ainda para tocar-lhe.

       -Por que está dizendo isso? 

      Enquanto falava, beijava os que estavam na frente e pude chegar perto dela no exato momento em que acabava de fazer a pergunta. Beijei-a com carinho e segurei sua mãozinha enquanto dialogava com ela.

       - Não sei. E de repente me abraçou impetuosamente, as lágrimas descendo de seu rostinho bonito. Perguntei-lhe o que havia acontecido e enquanto chupava uma das balas que eu tinha trazido para elas perguntou, a voz dominada pelos soluços:

       -Ela nunca mais vai voltar? .

        Entendi que estava falando da mãe e procurei da melhor forma confortá-la. Meu Deus! Que se pode dizer a uma criança indefesa, numa hora dessas? Sabia que seu pai era alcoólatra e precisava conversar com ele. Segundo a vizinha ele havia concordado em conversar comigo. Pedi às outras crianças que esperassem um pouco e segui com Luiza para sua casa. Não sabia como seu pai iria me receber, mas eu não retrocederia um milímetro no que pretendia fazer. Uma senhora que morava ao lado deles nos acompanhava e chegando ele abriu a porta antes mesmo que batêssemos.

      Sr Pedro ficou olhando para mim, sem falar uma palavra enquanto eu o cumprimentava. Era bastante jovem e parecia sóbrio, seu rosto  estava congestionado talvez pelo sono e os olhos vermelhos não muito amistosos embora eu tenha notado que quando me viu suavizou a expressão. Sorri para ele perguntando se podíamos conversar a sós e a senhora e Luiza saíram lentamente do corredor estreito que funcionava à guisa de sala. Ele pediu que me sentasse numa cadeira tosca que estava ali

        Tudo era escuro, ainda mais que o tempo estava realmente chuvoso, entretanto sempre me impressionava como alguém poderia viver num lugar tão petrificante e como sempre lamentando o sofrimento de nosso semelhante...

         - Sr Pedro não é fácil iniciar um assunto que o senhor poderá dizer que não é da minha conta...

          - Você tem direito sim.Não tinha comida em casa. Minha filha  ia passar fome. Ainda tenho alguma coisa na cesta da semana passada. Só não sei se vai adiantar alguma coisa. Bebo e já tentei parar 3 vezes.Não consigo trabalhar quando paro. Tremo muito você sabe...

           -Entendo. É normal que isso aconteça. Mas já foi algum dia nos Alcoólatras Anônimos? E quanto à cesta, não se preocupe. Trouxe outra.

           Contava com tudo, mas não com a atitude inesperada dele.

Baixou a cabeça sobre os braços e soluçava profundamente. Minhas lágrimas desceram sem que eu conseguisse dominar e levantando-me da minha cadeira agachei-me em frente a ele perguntando:

            - Quer ser ajudado? Já soube que é uma pessoa boa e trabalhadora. Que gostava de sua mulher, mas que está revoltado.  Posso ajudá-lo?

             Ele olhou muito tempo para mim suavemente, mas não abaixei os olhos. Tinha que convencê-lo e dizer que estava disposta a ajudar.

           -Sim, eu quero, estou doente, me sinto mal, mas tenho que pensar na minha filha.

           - Arranjaremos alguém de confiança que tome conta de crianças, por enquanto. Luiza foi ao médico comigo essa semana. Está tomando a vitamina?

           -Quero agradecer. Ninguém nunca fez isso. Porque faz isso?

            Olhei-o sorrindo e respondi lentamente:

           - Porque estamos aqui fazendo essa viagem na terra, somos companheiros de trajeto e nada melhor que um ajudar o outro.

           Ele sorriu docemente, baixou a cabeça e quando levantou o rosto devastado de sofrimento, eu lhe disse:

           - Sei que faria o mesmo por mim...


Lágrimas
Vânia Moreira Diniz

         Saí muito Cedo de casa hoje (7 horas da manhã) em direção à periferia, onde moram meus protegidos. Tinha acabado de tomar um banho e a sensação de bem-estar era muito grande. Uma das coisas boas da vida é um banho reconfortante e o perfume que nos dá sensação de frescura.

     Mas depois de um rápido café em que me dirigia ao meu destino, comecei a pensar em quanta diferença existia entre as pessoas  e já me senti entristecida por usufruir coisas que muita gente não poderia.

      Brasília estava nebulosa e um pouco escura àquela hora e novamente como no sábado anterior me rendi à beleza dessa cidade cuja natureza lidera em todos os sentidos, mas novamente experimentava  a diferença que existia quando começamos a ficar mais longe do Plano Piloto. Quando cheguei, muitas crianças me cercaram, cada uma querendo falar e contar as novidades mais do que as outras e me encantava sempre com aquela espontaneidade. Pedi a elas que esperassem um pouco que eu retornaria para conversar com elas, mas que antes precisava visitar seus pais. Prometi que leria histórias, responderia a toda as perguntas, brincaríamos de roda e inventaria alguma  música para acrescentar.

        Sem entender vi de repente uma criança de uns seis anos a um canto daquele vão onde ficam as  pobres casas e vi que cenário triste para os pequenos aquele miserável lugar sem conforto nenhum. Soube então que a mãe da menina havia morrido. Ela não morava ali e sim na outra quadra e eu não conhecia sua família.

         Quando a vi, tão triste lembrei-me de uma menina que com essa mesma idade eu conhecera na minha infância e que por motivos diversos sofreu uma dor funda e desesperante. A única diferença é que a outra garota era de uma família rica, mas nem por isso sua dor fora menor. Abracei a pequena com ternura e longamente e soube que seu pai era alcoólatra.

          Resolvi por intermédio de um dos vizinhos da encantadora Luiza  saber um pouco da vida da família da garota para ver como poderia ajudar seu pai. Se ele quisesse, eu tinha contato com o AA (alcoólatras anônimos), mas antes gostaria de conversar com ele.

         Mas hoje apenas queria ficar com a menina, a que mais precisava de carinho naquele instante. Mudei meu projeto, reduzi minhas visitas e voltei correndo para ficar ali com as crianças. Enquanto contava histórias senti o sorriso de Luiza e vi o quanto era bonita. Seus cabelos eram cacheados e negros e os olhos verdes como esmeralda tinha uma expressão suave e triste. O seu rostinho de traços bonitos estava, porém, demasiadamente queimado pelo sol do planalto e apresentava algumas manchas brancas, conseqüência de ínfimos cuidados.Desejei carregá-la e não deixar que saísse de meus braços para que eu pudesse transmitir minha ternura. Mas sabia que isso ia emocioná-la mais.

            Li algumas histórias muito interessantes  e elas  me fizeram muitas perguntas. Mas eu estava querendo apenas que Luiza se interessasse e imaginava que seu sofrimento a estava impedindo. Pensei em voltar lá no começo da semana para conversar com sua família e revê-la. Até que surpreendentemente ela se aproximou de mim e passou os braços em volta do meu pescoço  perguntando:

            -Você é artista?

             Sorri pensando em meus sonhos de teatro, rememorando a luta que tive para tentar convencer um dia a meus pais, as peças nas quais encenei e os cursos de teatro de pouca duração que tinha recomeçado mil vezes por falta de tempo. Relembrei que junto com tudo que já fiz desejaria que o teatro estivesse junto. E também recordei-me a alegria esfuziante, exuberância e delírio com que  desempenhava cada  papel.

            Os pensamentos foram rápidos e Luiza já me perguntava

             -Eu posso ser artista?

             Lembro-me que respondi afirmativamente com um sorriso vibrante que refletiu em seus olhos brilhantes abraçando-a forte com o nó na garganta que se desmanchava em lágrimas abundantes e bem-vindas!

 

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