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Valeu
passar fome? Essa noite foi agitada em todos os sentidos para mim. Dormia e acordava e parece que estava alerta aos mínimos movimentos.E foi com alegria que acolhi a manhã ensolarada, clara e convidativa. Levantei-me pressurosa, com muita vontade de conviver um pouco com meus protegidos. Assim depois de um banho e um rápido café parti para a periferia da cidade onde ao contrário do que todos pensam, encontro muitos motivos de aprendizado e carinho e até aprendo mais que ensino. A temperatura estava amena e enquanto o carro deslizava e com a música suave, eu aproveitei para fazer minhas reflexões. Parei numa rua que costumava visitar, uma da mais pobres famílias daquela região. Na verdade quando os conheci era muito mais que pobres, eu classificaria como miseráveis, um estado nada condizente com a dignidade que se deve a qualquer ser humano.Felizmente os donos daquela casa onde mal cabiam 2 pessoas e moravam seis, estavam empregados e tudo tinha melhorado um pouco. Quando entrava ali, mais do que nunca,tudo me parecia muito mal distribuído nesse mundo.Admito que possa haver classes diferentes, mas não miséria, isso fere qualquer senso de justiça e compreensão. Ângelo, o menino que sofrera algumas convulsões e que meu amigo psiquiatra Sam estava tratando aproximou-se de mim, sorrindo. Pude ver que seus olhos estavam brilhando e pensei como as pessoas ficam mais bonitas quando expressam seus sentimentos.Claro,ele estava mais calmo, menos angustiado e poderosamente feliz apesar da pobreza que o cercava. Abraçou-me repentinamente e percebi que se sentia seguro ali entre meus braços e eu mesma me senti confortada.Ele tinha apenas nove anos, mas era profundamente inteligente. Como poucos que eu já vira! Sentou-se no chão à minha frente e fixou-me longamente enquanto eu lhe perguntava pelos estudos. E depois que me respondeu disse: -Quero ser escritor... Quero escrever como você. Fazer versos e... -e... complete, o que mais? -Ser muito famoso! -Como você sabe que isso lhe poderá fazer feliz? -Porque eu vi televisão ali na casa do João e tem aquele lugar em que todos são pobres e estão ali e vão ficar famosos. Olhei-o pensando como a mídia às vezes pode deturpar a imagem de uma criança em formação. -Ali é apenas uma passagem. Tudo depende de sorte e não devemos jamais contar apenas com a sorte para conseguirmos o que queremos. Terá que estudar e então sim, será um homem realizado...Você nunca se sentirá verdadeiramente feliz de ganhar dinheiro com um jogo. Porque aquilo, meu querido Ângelo, é apenas um jogo. -Você já ficou assim em alguma casa dessas? -Claro que não, querido. Ângelo, as pessoas se mantêm porque trabalham e porque estudaram e continuam a estudar a vida inteira. Ponha isso na cabeça! Intempestivamente ele me declarou -Queria escrever versos e coisas como você. Para ter livros e todos conhecerem. Como se escreve? -Em primeiro lugar não sou conhecida!.Eu não sou famosa, disse rindo muito enquanto ele me pedia: -Você me ensina como se escreve assim? -Em primeiro lugar estudando para pelo menos não errar o sua língua e depois expressando seus sentimentos, um dia vou lhe explicar tudo com detalhes. Olhou-me então com ternura e falou: -Vou contar a minha vida, e dizer que não quero mais sofrer nem ver minha mãe sofrendo. Isso dá para escrever? È feio dizer isso? Que sentimos fome e frio? Emocionada abracei-o e respondi: Não, não é feio, é triste, e um dia você vai entender o porque de tudo e cantar isso tudo nos seus versos. Olhou-me então entre triste e esperançoso e respondeu: -Então valeu passar fome pelo menos para isso! Não respondi, apenas peguei nas
suas mãozinhas frias de emoção e pedi que me ajudasse a buscar
algumas coisas no meu carro, enquanto nós dois enfrentávamos, cada um
a seu modo seus próprios e tumultuosos pensamentos. Sei
que faria o mesmo por mim...
Sábado
foi dia especial para mim. A noite da véspera também especial e
acordei algumas vezes pensando, que a vida reservava para nós momentos
que em suas contrastantes diversidades causavam sensações fascinantes. Foi
uma noite de muita emoção, na sexta-feira, em que senti o quanto a
vida pode nos surpreender através de uma pessoa muito especialmente
querida, a demonstrar o valor e grandiosidade de cada acontecimento a
desvendar sonhos e ideais.
Foi
com esses sentimentos todos liderando meus pensamentos que cheguei ao
lugar que moram meus protegidos e acho que havia um sorriso mais
acentuado em meus lábios quando vi as crianças se aproximando em
algazarra, cada um querendo falar mais rápido comigo. Foi nessa a hora
que rindo muito eu procurava coordenar a pequena e ruidosa confusão das
crianças que se empurravam, que eu ouvi a vozinha da pequena Luiza (que
eu conhecera a semana passada e tinha perdido a mãe)
-
Você está feliz?
Ela
uma das menores tinham passado pelas outras justamente nas brechas de
espaço porque era bem pequenina. Estava a uma distância que eu podia vê-la,
mas não dava ainda para tocar-lhe.
-Por
que está dizendo isso?
Enquanto falava, beijava os que estavam na frente e pude chegar
perto dela no exato momento em que acabava de fazer a pergunta. Beijei-a
com carinho e segurei sua mãozinha enquanto dialogava com ela.
-
Não sei. E de repente me abraçou impetuosamente, as lágrimas descendo
de seu rostinho bonito. Perguntei-lhe o que havia acontecido e enquanto
chupava uma das balas que eu tinha trazido para elas perguntou, a voz
dominada pelos soluços:
-Ela
nunca mais vai voltar? .
Entendi
que estava falando da mãe e procurei da melhor forma confortá-la. Meu
Deus! Que se pode dizer a uma criança indefesa, numa hora dessas? Sabia
que seu pai era alcoólatra e precisava conversar com ele. Segundo a
vizinha ele havia concordado em conversar comigo. Pedi às outras crianças
que esperassem um pouco e segui com Luiza para sua casa. Não sabia como
seu pai iria me receber, mas eu não retrocederia um milímetro no que
pretendia fazer. Uma senhora que morava ao lado deles nos acompanhava e
chegando ele abriu a porta antes mesmo que batêssemos.
Sr
Pedro ficou olhando para mim, sem falar uma palavra enquanto eu o
cumprimentava. Era bastante jovem e parecia sóbrio, seu rosto
estava congestionado talvez pelo sono e os olhos vermelhos não
muito amistosos embora eu tenha notado que quando me viu suavizou a
expressão. Sorri para ele perguntando se podíamos conversar a sós e a
senhora e Luiza saíram lentamente do corredor estreito que funcionava
à guisa de sala. Ele pediu que me sentasse numa cadeira tosca que
estava ali
Tudo
era escuro, ainda mais que o tempo estava realmente chuvoso, entretanto
sempre me impressionava como alguém poderia viver num lugar tão
petrificante e como sempre lamentando o sofrimento de nosso
semelhante...
-
Sr Pedro não é fácil iniciar um assunto que o senhor poderá dizer
que não é da minha conta... - Você tem direito sim.Não tinha comida em casa. Minha filha ia passar fome. Ainda tenho alguma coisa na cesta da semana passada. Só não sei se vai adiantar alguma coisa. Bebo e já tentei parar 3 vezes.Não consigo trabalhar quando paro. Tremo muito você sabe...
-Entendo.
É normal que isso aconteça. Mas já foi algum dia nos Alcoólatras Anônimos?
E quanto à cesta, não se preocupe. Trouxe outra.
Contava
com tudo, mas não com a atitude inesperada dele. Baixou
a cabeça sobre os braços e soluçava profundamente. Minhas lágrimas
desceram sem que eu conseguisse dominar e levantando-me da minha cadeira
agachei-me em frente a ele perguntando:
-
Quer ser ajudado? Já soube que é uma pessoa boa e trabalhadora. Que
gostava de sua mulher, mas que está revoltado.
Posso ajudá-lo?
Ele
olhou muito tempo para mim suavemente, mas não abaixei os olhos. Tinha
que convencê-lo e dizer que estava disposta a ajudar.
-Sim,
eu quero, estou doente, me sinto mal, mas tenho que pensar na minha
filha.
-
Arranjaremos alguém de confiança que tome conta de crianças, por
enquanto. Luiza foi ao médico comigo essa semana. Está tomando a
vitamina?
-Quero
agradecer. Ninguém nunca fez isso. Porque faz isso?
Olhei-o
sorrindo e respondi lentamente:
-
Porque estamos aqui fazendo essa viagem na terra, somos companheiros de
trajeto e nada melhor que um ajudar o outro.
Ele
sorriu docemente, baixou a cabeça e quando levantou o rosto devastado
de sofrimento, eu lhe disse:
-
Sei que faria o mesmo por mim... Lágrimas
Saí muito Cedo de casa hoje (7 horas da manhã) em direção à
periferia, onde moram meus protegidos. Tinha acabado de tomar um banho e
a sensação de bem-estar era muito grande. Uma das coisas boas da vida
é um banho reconfortante e o perfume que nos dá sensação de
frescura.
Mas
depois de um rápido café em que me dirigia ao meu destino, comecei a
pensar em quanta diferença existia entre as pessoas
e já me senti entristecida por usufruir coisas que muita gente não
poderia.
Brasília
estava nebulosa e um pouco escura àquela hora e novamente como no sábado
anterior me rendi à beleza dessa cidade cuja natureza lidera em todos
os sentidos, mas novamente experimentava
a diferença que existia quando começamos a ficar mais longe do
Plano Piloto. Quando cheguei, muitas crianças me cercaram, cada uma
querendo falar e contar as novidades mais do que as outras e me
encantava sempre com aquela espontaneidade. Pedi a elas que esperassem
um pouco que eu retornaria para conversar com elas, mas que antes
precisava visitar seus pais. Prometi que leria histórias, responderia a
toda as perguntas, brincaríamos de roda e inventaria alguma
música para acrescentar.
Sem
entender vi de repente uma criança de uns seis anos a um canto daquele
vão onde ficam as pobres
casas e vi que cenário triste para os pequenos aquele miserável lugar
sem conforto nenhum. Soube então que a mãe da menina havia morrido.
Ela não morava ali e sim na outra quadra e eu não conhecia sua família.
Quando
a vi, tão triste lembrei-me de uma menina que com essa mesma idade eu
conhecera na minha infância e que por motivos diversos sofreu uma dor
funda e desesperante. A única diferença é que a outra garota era de
uma família rica, mas nem por isso sua dor fora menor. Abracei a
pequena com ternura e longamente e soube que seu pai era alcoólatra.
Resolvi
por intermédio de um dos vizinhos da encantadora Luiza
saber um pouco da vida da família da garota para ver como
poderia ajudar seu pai. Se ele quisesse, eu tinha contato com o AA (alcoólatras
anônimos), mas antes gostaria de conversar com ele. Mas hoje apenas queria ficar com a menina, a que mais precisava de carinho naquele instante. Mudei meu projeto, reduzi minhas visitas e voltei correndo para ficar ali com as crianças. Enquanto contava histórias senti o sorriso de Luiza e vi o quanto era bonita. Seus cabelos eram cacheados e negros e os olhos verdes como esmeralda tinha uma expressão suave e triste. O seu rostinho de traços bonitos estava, porém, demasiadamente queimado pelo sol do planalto e apresentava algumas manchas brancas, conseqüência de ínfimos cuidados.Desejei carregá-la e não deixar que saísse de meus braços para que eu pudesse transmitir minha ternura. Mas sabia que isso ia emocioná-la mais.
Li
algumas histórias muito interessantes e elas me
fizeram muitas perguntas. Mas eu estava querendo apenas que Luiza se
interessasse e imaginava que seu sofrimento a estava impedindo. Pensei
em voltar lá no começo da semana para conversar com sua família e revê-la.
Até que surpreendentemente ela se aproximou de mim e passou os braços
em volta do meu pescoço perguntando:
-Você
é artista?
Sorri
pensando em meus sonhos de teatro, rememorando a luta que tive para
tentar convencer um dia a meus pais, as peças nas quais encenei e os
cursos de teatro de pouca duração que tinha recomeçado mil vezes por
falta de tempo. Relembrei que junto com tudo que já fiz desejaria que o
teatro estivesse junto. E também recordei-me a alegria esfuziante,
exuberância e delírio com que desempenhava
cada papel.
Os
pensamentos foram rápidos e Luiza já me perguntava
-Eu
posso ser artista?
Lembro-me
que respondi afirmativamente com um sorriso vibrante que refletiu em seus
olhos brilhantes abraçando-a forte com o nó na garganta que se
desmanchava em lágrimas abundantes e bem-vindas! |
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