
Contos
Vânia Moreira Diniz
CAROLINA
Parece-me
que sempre a conheci. Era muito mais velha do que eu e me parecia com sabedoria
bastante para que eu pudesse aprender todas as coisas que me ensinava.
O
rosto bonito e clássico era de um suave tom moreno e seus olhos negros
profundamente expressivos. O que mais chamava a atenção em Carolina não era
propriamente a beleza, mas o carisma intenso que parecia confundir todas as
pessoas. Era uma figura cheia de contrastes no modo singular que encarava a vida
e o mundo à volta dela.
Achava-se
superior a tudo e a todos e jamais a vi triste ou doente. Naquela época não
contestava nada em Carolina. Achava-a realmente diferente de tudo que me
cercava.
Mesmo
sendo ainda pequena passávamos longas horas conversando e segundo ela dizia
“dando-me dicas de boa vida”. Era alguém especial, contrastante e
profundamente curiosa.
A
beleza era apenas uma característica sua. Mas o que mais influía naquele seu
especial fascínio era justamente o porte incomum. Sabia convencer as pessoas de
qualquer coisa que quisesse e não compreendia a vida sem esse domínio.
Pertencia
a uma família rica e poderosa e isso ela encarava como algo que lhe era devido
e não como uma sorte do destino.
Olhava
sempre as pessoas em geral de cabeça erguida porém a vi várias vezes
emocionar-se com algum fato pequeno e sem importância.
Ficava
fascinada ao ver minha amiga conquistar com extrema facilidade qualquer coisa
que desejasse e nunca duvidava dessa arte que me rendia um sorriso de aprovação
ao contemplá-la admirada.
Assim
o tempo passava e cada vez mais eu compreendia o quanto Carolina era singular.
Quando ela começou a ter relacionamentos sérios com os rapazes procurava usar
a mesma tática infantil e muitas vezes pude presenciar mágoas e conflitos.
Apesar de inspirar fortes paixões o seu temperamento tendia a ser extremamente
autoritário e isso desgastava o que pudesse haver de mais intenso.
Quando
procurava fazê-la entender o quanto isso poderia prejudicá-la, levantava o
rosto bonito e chamando-me de "pirralha" dizia me que eu ainda tinha
muito a aprender. Mas eu começava a desconfiar que todo esse modo bizarro de
minha amiga poderia trazer-lhe grandes sofrimentos.
Naquele
tempo não saberia deduzir o que a tornava tão diferente das outras pessoas.
Tempos depois comecei a poder analisar as incoerências de sua forte
personalidade e me apavorei sinceramente. Gostava muito de Carolina para que
pudesse assistir indiferente ao lento mas progressivo perigo a que se expunha
constantemente
DOIS
ANOS DEPOIS
A
família de Carolina jamais a compreendeu pois também precisava de ajustes
profundos. Intensamente egoístas não percebiam o quanto carente a filha única
demonstrava ser. E a jovem sabia disso. Não se dava bem com a mãe e nem com os
tios, porém tinha pelo pai um amor e admiração enorme que ela mesma não
assimilava. Embora o Dr. Fernando fosse um homem individualista e voltado para
seus próprios problemas ela o amava demais.
Foi
num dia quente de verão que Carolina o conheceu.
O
rosto era sedutor e ele possuía esse fascínio muito perigoso em pessoas
inteligentes cujo caráter mal formado leva a muitas situações complicadas
principalmente para os outros. Alto, forte e musculoso possuía esse tipo bem
masculino que arrebatam as mulheres, principalmente as muito jovens. O olhar era
direto, profundo e impregnado daquela confiança natural nos pretensiosos. E foi
por ele que Carolina se apaixonou realmente. E completamente. O relacionamento
deles foi tórrido como o dia em que se conheceram e ambos esqueceram todo o
resto do mundo e das conseqüências de tudo.
Quando
os via esquecia as minhas previsões quanto ao temperamento da minha amiga e me
convencia que a felicidade chegara completamente na devida proporção da beleza
de ambos. E como eu mesma apreciava o impulso que leva ás grandes demonstrações
de qualquer sentimento verdadeiro sentia-me feliz e tranqüila.
Quando
Carolina chegou naquele dia, e me olhou com uma certa preocupação, imaginei
algum conflito entre os dois e ansiosamente indaguei:
-
Vocês brigaram?
-
Não.E seu olhar estava dividido entre tenso e feliz.
-
Aconteceu alguma coisa?
-
Aconteceu e você pode dizer que eu sou maluca mas eu estou com toda a alegria
borbulhando em mim. Eu juro.
-
Meu Deus, o que pode ser maior que a paixão?
-
Estou esperando um filho do Roberto. Entendeu?
Não
sei porque comecei a rir aparentemente sem uma razão. Na verdade tentava
imaginar a reação de Dona Lúcia, mãe de Carolina.
Rimos
juntas conversando despreocupadamente como nos velhos tempos.
-
Esqueci de perguntar algo: E a reação de Roberto?
-
Ele não teve reação.
Olhei-a
espantada e seriamente preocupada
-
Nenhuma?
-
Não me olhe assim. Estou feliz, de qualquer jeito.
SEIS
MESES DEPOIS
Carolina
sofria muito com a gravidez que lhe parecia um peso no lugar da alegria
anterior. Combinaram casar-se e a jovem aceitou, começando o longo calvário
que seria sua vida de agora em diante.
Ela
deixou os estudos, ele não trabalhava e foram morar num rico apartamento dos
pais de Carolina. Brigavam demasiado e ele aproveitava o conforto atual sem
qualquer constrangimento.
Nasceu
uma menina e depois dela mais dois, mas jamais deixaram de brigar
incoerentemente. Ele montou uma pequena empresa de moda masculina em outra
cidade e ela o acompanhou.
Continuava
bonita mas havia perdido a arrogância que a caracterizava, seus olhos não
estavam tão brilhantes e uma tristeza estranha tomava conta dela. Todos achavam
que ela havia mudado enormemente. Só não sabíamos que ela perdera com o
enorme sofrimento e desilusão a vontade de viver.
Foi
constatado que ela tomava tranqüilizantes demais e os misturava com
anfetaminas.
Seus
pais desesperados mandaram buscá-la no sul do país e a trouxeram ao Rio de
Janeiro onde morávamos e foi aí que eu não consegui reconhecer a minha amiga.
Ela
chegou à casa da família e se trancou no quarto. Pediram-me que viesse vê-la.
Bati em seu quarto e só quando soube quem era, abriu a porta.
Não
sabia que era a última vez que a via. Abraçamo-nos e ambas choramos a ausência
da alegria . Ela me repetia inúmeras vezes que não queria ver ninguém da família
a não ser o pai. E eu não reconhecia a brilhante Carolina que fora a líder de
minha infância.
Deprimida,
angustiada calada só perguntava pelo homem que segundo soubemos depois tinha até
chegado a ponto de maltratá-la fisicamente .
Morreu
poucos dias depois em meio a um tratamento de sonoterapia aos 22 anos, com uma
parada cardíaca.
Nunca
esqueci a imagem daquela amiga que nasceu e viveu uma infância brilhante, uma
paixão incontrolável e foi embora ainda na juventude, sem ter realmente
vivido.