
Querida
Assunção
(Psicóloga e amiga)
Sei que está muito longe de mim. Num lugar onde o descanso pode ser
interpretado de vários modos. Nos últimos e difíceis anos em que uma cadeira
de rodas te conduzia eras aquela figura de amor e compreensão que eu me
acostumei a contemplar com os olhos úmidos e entremeados de admiração. Nada
te abalava em tua fé, na enorme consideração pelas pessoas fossem quais
fossem as atitudes tomadas, no vigor com que mesmo doente dedicavas à clientela
ávida de contar-te as misérias e sofrimentos humanos e principalmente na
enorme generosidade que espalhavas como um bálsamo à tua volta.
Nos momentos de confidência mútua e profunda, em que deixávamos
esparzi de dentro do coração nossos traumas e alegrias acumulados, aprendi
muito de doação, carinho, perdão pelo que me transmitia de tua vida
atormentada. Atormentada, digo eu pelo estreito e modesto conhecimento
verdadeiro do que era a tua riqueza interior incomensurável.
Muitas vezes te via sempre com um delicioso sorriso nos lábios levemente
pintados, sorriso que apaziguou a alma e suavizou a dor daqueles que cercavam
teu consultório de psicologia. Sorriso que deliciou a tantos desafortunados.
Não esqueço jamais do teu olhar inteligente e profundamente expressivo,
quando falava da ajuda primordial que exercia sobre as mentes das crianças
especiais. O progresso de senti-las mais perspicazes e com o mundo mais perto
delas, a alegria de vê-las sorrir nas oportunidades de prazer desconhecido
antes do tratamento. A satisfação de proporcionar-lhes o exercício de viver,
tendo consciência dessa vida.
Jamais esquecerei a expressão desses seres maravilhosos e de seus pais
que esperavam ali a tua luz que enfeixava raios dourados de esperança. Esperança
que elas já não tinham e que vieram buscar na tua imensa generosidade que
procuravas ocultar com uma capa de naturalidade.
Essa generosidade também cobriu as feridas interiores daqueles que já tão
dependentes de drogas não conseguiam escapar do inferno de sua própria condição.
Meu Deus, que trabalho bonito e emocionante que encantava a todos que conheciam
a tua energia vigorosa. Não há palavras possíveis nesse momento.
Para todos tinhas uma palavra amiga e, entretanto tua própria vida que
eu conhecia em detalhes minuciosos jogavas para o alto, esquecendo que tinhas
essa artrite perniciosa e que te enchia de dores as noites insones. Mas eu sabia
que de manhã estarias lá pronta a ouvir com minucioso carinho cada uma de
todas aquelas pessoas indefesas, ricas, pobres, cultas ou ignorantes, a todos
que te procuravam e deixando que vissem teu sorriso sedutor.
Só uma coisa não conseguiste ultrapassar, embora tenha que dizer em tua
defesa que lutaste desesperadamente para isso: A morte repentina de tua filha.
Não
posso esquecer quando falaste comigo nessa oportunidade e disseste de um jeito
que as lágrimas me vieram aos olhos abundantemente:
-Preciso, estar no meu consultório, Vânia. Essa é minha vida. É a
minha fortaleza inexpugnável. Só nele reunirei alento para continuar a viver.
Tenho que estar com a minha gente e as minhas crianças.
Abracei-a com força e assim ficamos nós durante um instante interminável
de emoção, em que procuravas conforto e eu pedia a Deus que te ajudasse num
dos únicos momentos que a vira indefesa.
Poucos dias depois fostes definitivamente para essa viagem inexplicável
deixando a saudade que jamais terminará, mas também o exemplo da figura humana
impressionante, fascinante e apesar da deficiência talvez a criatura mais linda
e deslumbrante que jamais conheci.
Vânia Moreira Diniz