Causos Mineiros
Eurico de Andrade

                                     O Prefeito e a Providência

Prefeito de Tabuí era uma negação. Nenhum progresso trazia pra cidade que parecia caranguejo. Só ia pra trás. Entrava ano, saia ano e Tabuí continuava na mesmice de sempre. Nas redondezas aquela terrinha começou a ser chamada de "já teve". Já teve campo de futebol, já teve rodoviária, já teve escola municipal boa, já teve zona decente...

Um dia prefeito recebe uma reclamação:

- Sô prefeito, o teto do grupo caiu!

- Que grupo, meu fio?

- O grupo, sô prefeito! O grupo escolá! L'adonde a gente aprende a lê!

- Ah, bão! Dexa comigo que vô tomá providência!

Tomava providenciamento nenhum. Esquecia. Ia pra casa, escondia dos problemas e não dava mais o ar da graça.

- Prefeito, a ponte do corgo seco quebrô!

- Quebrô? Pode deixá! Vô tomá providência!

- Prefeito, a gente picisa duma iscola no Pindura Saia! Dá um jeitinho!

-  É cumigo memo! Vô tomá providência!

Povo foi ficando chateado. Nervoso. Revoltado até com o descaso do prefeito. O homem não queria nem saber quem lustrou as costas da barata e nem quem botou fogo no inferno. Vivia encafuado dentro de casa. Vez ou outra é que apontava o nariz. Bastava ouvir reclamação sumia de novo. E ainda dizia que ia tomar providência...

O caso ficou mais sério no dia da enchente. Rio Sorongo não deu conta de segurar aquele aguão todo dentro das suas caixas. Entornou água na metade da cidade. De quebra lavou tudo no cemitério. Era defunto boiando, esqueleto escorrendo rua a fora, caveira descendo ladeira abaixo... Tanta mortaria pelas ruas que arrepiava até cachorro vira-lata. O defunto da gorda Dorotéia, enterrado dois dias antes do dilúvio, deu o maior trabalho pra ser encaixado de novo na sua última morada. Continuou teimosa na morte como o foi em vida. E o prefeito dizendo:

- É comigo memo! Deixa que tomo providência!

Povo desorientado resolveu tirar o desgramado do prefeito de dentro do seu esconderijo. Alguns cidadãos mais indignados invadiram a casa da autoridade. Tava lá o homem, num quartinho dos fundos, só de cueca, cercado de garrafas vazias, num porre danado e tomando mais uns goles de Providência, a famosa pinga do vale do Sorongo.


Eurico de Andrade.

Um menino que nasceu e começou a crescer lá no interior do interior pescando piabas, traíras e chorões no anzol e no puçá... pegando juritis e saracuras na arapuca... chupando ingá, gabiroba, peidorreira, baco-pari, araçá, mangaba e cagaita... montando cavalo em pêlo... bebendo leite direto dos peitos de vacas, éguas, cabras e ovelhas... comendo pururuca, angu com couve e torresmo... morrendo de medo de assombração, evitando mato para não virar comida de onça... fazendo promessas pra São Sebastião, São Jorge e Santa Bárbara... garrando com o chefe de tudo quanto é santo para não deixar nenhum insatisfeito... acreditando no coisa ruim, em mal olhado, em assombração e no saci pererê... curando cobreiro e inflamação de aroeira na Maria Geroma às custas de muita Ave-Maria e fio frio da faca afiada... educado sob a batuta do chicote e ameaças de castigo de Deus, nosso Senhor... trabalhando como candieiro guiando carro de boi... trabalhando como meeiro e tarefeiro no cabo da enxada... ajudando vaca na hora do parto... vendo a Joaninha apanhando do Zé da Ponte do Bode enquanto ele cobria de mimos e beijos a mocinha Julieta... bebendo chá de mané turé, carqueja, fedegoso, chapéu de couro, congonha... comendo beldroega, broto de aboboreira, miolo de gueroba, frango com pequi, angu com quiabo, quibebe, inhame com leite... assistindo a boiada passar... vendo o trem de ferro apontar na boca de um corte e sumir na outra carregando boi, muquiça e gente... vendo a enchente destruir as roças de arroz e milho do pai... arrancando mandioca no muque pra farinha e o polvilho do ano... fazendo paçoca de carne seca e socando arroz e café no monjolo de pé... indo pra escola a uma légua de distância no cavalinho da orelha murcha... convivendo e conversando com João Pelota, Zé Rosa, João Garrote, João Geada, Zé Ficiano, Zé Pelotinha, João Garrotinho, João do Zé Ficiano, Zeca do Zé Ficiano, Zé Albino, João Miguel, Zé do Orico, Zé Taviano, João Vergina, Zé Cota, Zé Ramo, João do João Vergina, Severo... só podia dar no que deu: um escrevedor de coisas da roça.

Assim é Eurico de Andrade. Para contar ele não leva muito jeito não. Mas para escrever!... Sai por aí a fora e entra discretamente, como bom mineiro, em qualquer cantinho onde tá rolando uma boa prosa. E anota tudo o que ouve para depois transformar em assunto pros seus causos e contos extremamente localizados naquele ponto onde tudo, para ele, começou, fiel ao ensinamento que um dia leu num livro de um mestre russo "se queres alcançar o mundo, escreve sobre tua aldeia".

 

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