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Sexualidade e Afetividade: Caminho Para A Completud Algumas
pessoas encontram bastante dificuldade em conciliar suas necessidades de
afeto genuíno com as sexuais.Amadurecido sexualmente é quem consegue
associar essa premência, na verdade, um assunto polêmico,porque bate de
frente com conceitos morais se dominantes em sua cultura ou grupo
social:as pessoas são instadas,em especial as casadas, a se relacionarem
apenas com os cônjuges,com quem amam.Dissocia-se o sexual do social, do
afetivo... Nenhuma
das mudanças acontecidas a partir dos anos sessenta preconizando a
liberdade e o direito de escolha sexual,na grande maioria,consegue passar
impunemente pelas “sentinelas do “status quo”, como salienta Ângelo
Gaiarsa em “Tratado Geral da Fofoca”(*), sendo esta,um assunto tão sério
que nos meus tempos de faculdade, no Centro de Ensino Superior,em Juiz de
Fora MG,passamos seis meses a devorar/estudar esse livro.Na verdade, não
é exatamente a fofoca , que pressupõe julgamentos sobre nossos atos,que
nos travaria.O que nos algema e amordaça,é a fofoca íntima:a que
fazemos com nós mesmos(o que diria meu vizinho,minha mulher,meu
sogro...eu perderia meu emprego se viesse à tona este “caso”...o
padre,o pastor,Deus,meu guru, irão condenar-me por essa transgressão?...E
por aí vai).Não suportamos nossas pressões internas.Elas se enraízam
desde a infância, através dos vetos e das censuras dos mais velhos-avós,
pais, educadores.O livre arbítrio,sendo o mais testado de nossos direitos
de pessoa adulta, maior, vacinada, responsável, vive nos encostando
contra a parede, num beco sem saída.... Quando
fui assistir ao filme “O Feitiço de Áquila”,tempos atrás,encontrei
a perfeita representação dessa dicotomia
sexualidade/afetividade.Conhecem a história:o Bispo de Áquila,
apaixonado pela heroína, para afastá-la do amado,lança ao jovem casal
uma terrível maldição os enamorados apenas poderão se encontrar no
rapidíssimo perpassar da noite para a aurora, um transformando-se em águia
e o outro, acabando de ser um lobo.Mas nessa transiçaão de
segundos,quanto amor emitindo sua energia aos dois!Trata-se da perfeita
alegoria à espiritualidade e os desejos carnais.Um sobrevoa os ares.O
outro, é uma fera aqui na Terra. A
pessoa,por exemplo, que acusa o outro de não conseguir fazê-la gozar, na
verdade sofre da impossibilidade imposta pelo seu próprio
interno.Amadurecidos sexualmente, sabem usar o corpo do outro e o seu próprio,para
o prazer,princípio este perseguido por todos desde o
nascimento.Independe, inclusive, da genitalidade.Um bebê com a boquinha
voraz no seio materno,está obtendo um máximo de prazer.Um nadador após
seu salto de trampolim,um religioso a orar em êxtase...Na verdade, o ápice
do pique orgásmico, reúne um “mix” de modelos
pessoais do que é realmente saboroso para o espírito e a mente,
além da carne, daquele que se entrega... Entrega,
outra palavra chave.Para o orgasmo, é preciso entregar-se.Ao limite.Por
isso, os franceses chamam esse patamar de “Petit Mort”.Quem tem medo
de morrer=viver,não se entrega,não goza. Para
a plenitude do momento amoroso,é pois necessário ir fundo.Digo sempre
que a relação sexual não deve ter início à noite,no quarto.E nem
precisa ser à noite, ou no quarto, embora casais
mais novos tenham de pensar nos filhos que podem aparecer pela
casa, temendo serem flagrados.Interessante pensarmos o quanto as pessoas
se envergonham de estarem demonstrando seu desejo, como se tê-lo e
demonstrá-lo seja um tabu:esconda seu desejo, senão...Pais procuram-me
apavorados:nossa filhinha levantou-se e nos viu...”pecando”,por certo
a palavra inominável.Acredito que os pais não devem ser exibicionistas
sexuais.Mas entre ser visto, se por acaso esqueceram a porta do quarto
aberta, a fazer amor(o que pode ser aproveitado para se falar de como as
criancinhas são feitas,posteriormente) ou a brigar, por certo, a primeira
das possibilidades é extremamente mais salutar. Em
educação sexual para adolescentes, como um meio de prevenção à DST(Doenças
Sexualmente Transmissíveis, incluindo a AIDS ou SIDA, em Portugal),à
gravidez indesejada(pela tenra idade), a partir dos anos 80, nós, hebeólogos(estudiosos
de jovens),começamos a enfatizar que essa educação deveria ser
integral:não só passar por várias questões inter e transdisciplinares,
como também pela questão da afetividade.Em Minas Gerais, por exemplo, a
Secretaria de Educação, à época do Secretário Murilio Hingel, com
quem estudei na segunda série “ginasial”, assumiu o que o pessoal da
Saúde já vinha trabalhando, e criou o PEAS:Programa de Educação
Afetivo-Sexual.Considerando-se que a sexualidade não é apenas uma
genitalidade que levará à reprodução e sim um leque de energias,
atitudes e posturas fundamentais para a auto-realização do ser humano,
em EAS(Educação Afetivo Sexual), até mesmo os educadores precisam
passar por um treinamento que dilua seus fantasmas pessois e/ou
culturais,mitos e tabus em relação ao sexo global. Quando
faço oficinas ou dou treinamentos, busco desde a ampliação das relações
entre corpo docente e discente, na escolas, como também entre pais e
filhos.No Hospital Julia Kubitscheck, onde criei e coordenei, com um
hebeatra(médico de adolescente) o SAISCA(Serviço de Atenção Integral
à Criança e ao Adolescente), chamado pela população de “Casa da
Criança e do ADOLESCENTE”,todas as terças feiras reunia ,para
palestrar,esses jovens e quem mais viesse:avós, pais, tios,professores.Os
temas eram os mais variados(do “resgate à prudência “ à drogadicção,
das DST ao desenvolvimento sadio da sexualidade, entre muitos). Quando,
no ano passado, fui homenageada,no dia da Mulher(08/03), na ASSEMBLÉIA
Legislativa,quatro anos
depois de aposentada,por esse trabalho, tive o prazer de ouvir,do João
Martins,um rapaz que estivera conosco, todo o tempo em que existiu o
programa, em todas as atividades”Clevane, nenhum de nós que passou por
você, deu para nada ruim”.Isso, decodificado, foi minha maior
homenagem, além da placa de aço recebida, da ALMG e o “diploma” que
ele desenhou para mim, a lápis.Mostrou-me que meu desejo estava ali
realizado:toda uma geração de mais de vinte bairros periféricos ao HJK,
não contraíra DST/AIDS, não se viciara em drogas, ninguém engravidara
ninguém ,garotas não gestaram fora de hora...E tudo foi trabalhado a
partir da afetividade.Tinham horticultura,com um professor de Técnicas
agrícolas,o Prof.Lafaiete Anastácio de Paula, que já aposentado,chegou
a ir à Faculdade de Viçosa,para especializar-se, quando o chamei para o
projeto e comecei simultaneamente,o “Farmácia Verde”, onde resgatavam
os remédios caseiros e plantavam ervas medicinais...Tinham aulas de
“jazz”, ministradas por uma das próprias adolescentes, acompanhados
pelo psicólogo José Rubens, que também realizava teatro gestual,
expressão corporal-com eles realizei fantásticos laboratórios que eu
chamava “Ateliê de Corpo” e “Oficina de Sensibilidade”...Tinham
reforço escolar, biblioteca, recursos áudio-visuais, teatro, com o
Wellington, um jovem que trabalhava na lavanderia do
hospital...Participaram inclusive do encerramento do Congresso
Internacional do “Esperança sem Fronteiras”,sendo aplaudidos de pé... Adolescentes
tinham ali figuras masculinas e femininas substitutas ou coomplementares
às familiares:o Prof. Lafayete e os psicólogos,atuavam com papéis de avô,
tio e mesmo pai, associando-os ao papel profissional.As secretárias,psicólogas
, nutricionistas, assistentes sociais, aos papéis femininos carenciais em
suas vidas.Aprenderam a respeitar-se:a si mesmos e aos outros.Quebraram
velhas errôneas crenças:homem não chora,mulher não pode fazer isso ou
aquilo-discutidos à exaustão, os papéis de gênero, chegaram à conclusão
de que todos podem realizar e fazer tudo, desde que seja bom.Concluíram,
em suas listas de “sim” e “não”que apenas isso, é exclusivo ao gênero
masculino/feminino:urinar em pé;gestar;parir, pois até amamentar,
cientificamente, o homem pode, se estimular as mamas pela sucção do bebê
e usar hormônios como a Prolactina.Ficaram bem “sabidos” e quando o
Ministério da Saúde mandou representantes ao hospital para um seminário
de Sexualidade e Saúde Reprodutiva na Adolescência, , ficaram
impressionados:”mas como estes adolescentes ficam assim à vontade,par
aconversar sobre “tudo”? Nós
os empoderáramos.Déramos afeto.Falávamos com carinho, confiávamos
neles.Promovíamos um suave e saudável desenvolvimento da sexualidade
.Reporto-me a isso, por lembrar-me que, infelizmente, muitos adultos e
idosos, hoje, enfrentaram repressãoes e temoras quanto à sexualidade, ou
então o escancarar-se da permissividade.Limites são necessários,sim,
mas devem ser respeitados por amor às suas próprias fases, evoluções,personalidade
e felicidade.Essas pessoas que cristalizaram os desejos, limitaram as
possibilidades,sufocaram a esponteidade ou deram valor excessivo ao sexo
pelo sexo(em especial os que viveram nos anos 60/70), o oposto, ou ficaram
amordaçados quanto à própria sexualidade, ou priorizaram um non sense
defensivo ou ainda, tornaram-se frios, até à náusea sartreana, insensíveis
e desiludidos. Amor,
sexo e afetividade é uma poderosa combinação de energia,alegria de
viver,otimismo.Quem não conhece aqueles que vão bem sexual e
afetivamente?Sorriso fácil, poder criativo, brilho no olhar...Esses,
desobriram a fórmula mágica.Uma das chaves, a da porta principal, estou
lhes entregando:chama-se diálogo.Livre, espontâneo,genuíno.Assim,o
outro será apreendido, comsua realidade plena, por você e
vice-versa.Experimente com as crianças, os púberes e os adolescentes.É
um rico exercício... |