Meu amigo
João Evangelista Rodrigues é um grande poeta mas também proseia
e fala oralmente como poucos.Tem interesse em causas sociais, há
grupos de crian
ças
brincantes que dizem seus textos, fotografia
de forma peculiar.Belo homem, de branca barba e de olhos azuis
tão impressionantes que andaram furando pessoas ,bem na alma.
Agora, está me enviando o convite para conhecer seu blog.Jornalista
que se preze hoje em dia, como formador de opiniões, há que ter
blog.E o João, que guimarãesroseamente gosta de neologismos, de
inventar terminologias(mesmo tendo escrito os versos de água e
madeira, simples e diretos de MUTAÇÃO DOS BARCOS,livro seu que
sempre recomendo, cheio de versos e fotografias, diário de bordo
para reler ,sempre),manda-me o nome do seu:
http://vialaxia.blogspot.com
Busquem e naveguem , nessa Vialaxia(há um segundo atrás ,o
Google ,site de busca,me puxava a orelha de internauta:"Você
quis dizer "Via Láctea"...Quis não, seu Google:é coisa de um
certo João...)-que eu já vou de ir para lá, já e já.
Mas antes, leiam esse texto de sua lavra, a crônica abaixo:
Sangue no asfalto
João Evangelista Rodrigues(*)
Isso todos sabemos. O mundo contemporâneo está sendo marcado
cada vez mais pela velocidade e pela violência. O que não se
pode aceitar é que a violência se torne rotineira e passe a
habitar nosso cotidiano sem nos causar espanto ou protesto.
Desde a mais sutil, subliminarmente praticada pela mídia, até a
mais ostensiva mostrada por esta mesma mídia, nos casos da
guerra, do terrorismo, corrupção, da prostituição infantil, do
trabalho escravo e do seqüestro, para se citar apenas algumas
das inumeráveis formas de violência que tecem e assaltam o
cotidiano do povo brasileiro.
A violência do trânsito assume, neste contexto, proporções
alarmantes, embora os fatos surgiram que tanto as autoridades
quanto a população já se acostumou com os trágicos números
exibidos pelas estatísticas. A pressa, individualismo e o medo
tem tornado as pessoas cada vez mais indiferentes e omissas.
Falta educação, informação e consciência social, sem o que não
se pode falar em cidadania e solidariedade. Isto sem falar na
falta de moradia, de empregos e de justiça, uma vez que a
impunidade, de alto a baixo, na escala social, parece ser o tom
dominante.
Mas a porca torce o rabo e o problema muda de enfoque quando a
violência bate na nossa cara. De frente. Quando a mancha de
sangue do asfalto marca para sempre nossos olhos, molha nosso
espírito e tinge de vermelho a vergonha nacional.
Foi exatamente isto o que aconteceu, ontem, em plena manhã de
sol de uma quinta-feira, quando um caminhão, desses que circulam
carregados com as riquezas do país, bateu de frente com um
motociclista que vinha na contra-mão da vida e da esperança.
O acidente em si não causou estardalhaços na imprensa,
preocupada, quase sempre, em conseguir audiência, veiculando
grandes espetáculos, os grandes escândalos. Este, do qual estou
tentando falar aqui, é de pequena monta, coisa insignificante.
Não mereceria sequer uma nota. Permaneceria no anonimato se
cronista não estivesse passado no local poucos minutos depois do
fato acontecer. Foi por mera coincidência que estas linhas
puderam ser escritas. Infelizmente.
O motorista, um senhor de aproximadamente 50 anos de idade,
estava assustado. Falava de seu emprego, de sua família e de seu
medo do mal humor e severidade de seu patrão.
As marcas de sangue no asfalto sem acostamento testemunhavam sua
inocência. O capim amassado mostrava que o motorista do caminhão
ainda tentou se desviar do veículo que vinha em sua direção em
alta velocidade. Isto se pode deduzir pela forma como os pedaços
da moto, o espelho, as rodas, da mesma forma que os tênis, o
capacete e outros pertences do morto se espalharam de maneira
caótica pela estrada escura e sinistra.
O corpo era frágil. Rosto miúdo. Semblante jovem e sem raiva.
Podia-se ver o resto de vida se esvaindo em seus lábios
vermelhos, da cor de carmim, da mesma cor do sangue no asfalto,
sob o sol quente das 11 horas.
Duas mulheres, uma negra e uma branca, esta última com um
menino, de aproximadamente um ano, nos braços, assistiram a
tudo. O menino chorava. Elas estavam esperando uma carona e
viram quando o motoqueiro passou por elas, cruzou a faixa
amarela, entrou na contra-mão. Seu corpo espatifou-se como a
ferragem da motocicleta.
Íamos na direção de Campo Belo, num trecho entre as cidades de
Formiga e Candeias, e paramos para socorrer as vítimas. Enquanto
avisávamos a polícia rodoviária, comunicávamos à imprensa,
odiamos observar o comportamento das pessoas que por ali
circulavam. Muitos motoristas passaram direto, indiferentes ao
que estava acontecendo. Só Deus poderá saber porque tanta
pressa. Passavam em alta velocidade quase atropelando quem
estava na pista, como se fugissem de alguma coisa. De si mesmo,
talvez. De seus destinos de brasileiros afobados diante de tanta
grosseria e barbárie.
Os que paravam por solidariedade ou por mera curiosidade,
arriscavam palpites. Aventuravam juízos irresponsáveis e
nervosos sobre o fato.
- Ele era muito jovem.
- Os meninos de hoje não tem juízo na cabeça.
- Acho que conheço ele, se for o rapaz que estou pensando,
brigou com a namorada ontem e queria se matar. Ele era muito
doido.
- Se quisesse acabar com a vida, pelo menos fizesse de modo a
não colocar o motorista do caminhão em dificuldades.
-Pelo jeito do acidente parece que o moço aí queria mesmo era
morrer.
- A vida é assim mesmo, não vale nada, acaba a qualquer
instante.De qualquer maneira.
Outros aproveitavam a ocasião e desabafavam: tudo isto é culpa
do governo, das autoridades que não estão nem aí para a
população, para a vida das pessoas.
Houve quem reclamasse do estado de conservação das estradas, do
custo de vida, da programação das TVs e coisas assim.
As duas mulheres pegaram carona com um caminhoneiro e seguiram
seu destino. Iam para Arcos, segundo disseram, escondidas de
seus maridos, visitar um parente seu. Um irmão, se bem me
lembro. Deixaram nome e telefone, caso precisassem testemunhar
para "ajudar o motorista, coitado", se verdadeiros , quem poderá
saber
A Polícia Rodoviária demorou chegar. Até o momento em que
permanecemos no local do acidente, a imprensa não havia dado os
ares da graça. O número de curiosos aumentava e, como é natural
nestas situações, as especulações e piadas de mau gosto. O
motorista do caminhão andava de um lado para outro sem saber ao
certo o que fazer.
O corpo permanecia coberto de jornal, enquanto a polícia fazia o
seu trabalho de rotina. Deixamos o local do acidente, calados, o
motorista do táxi e uma colega de trabalho e eu. Não havia o que
dizer ante tanta brutalidade.
Mais uma vez o beijo da morte marca com sangue o asfalto.
*Jornalista ,poeta,escritor.Coordenador do Curso de Jornalismo
da PUC/Minas,em Arcos
Contatos:
jevare@arcosnet.com.br
jevare@uai.com.br