

Luxo, lixo; guri, gari. E daí?
"Meu nome? Onde moro? Se tenho mãe ou pai? Ora, o importante é que eu existo. Ou vocês querem que, para existir, a gente tenha que recitar nome, endereço, nome de pai e mãe? Isso é coisa de documento, não de pessoa. Olhem para mim: existo, sou mulato, estou crescendo e os adultos costumam dizer que sou o futuro do Brasil.
Existo, e pronto! Ocupo lugar no espaço e quem disse isso foi um cientista, um sábio que viveu há muitos anos; acho até que antes de Jesus. E incomodo. Ando descalço, roupas velhas. Eu gosto de andar lá no centro, na Avenida Goiás, na Rua 7, na Rua 4. Gosto de ver aquelas madamas bacanas se encolhendo pra não esbarrar em mim, medo de sujar a roupa fina. Gosto de correr pelos canteiros da Goiás, eu e meus colegas — os engraxates, os apanhadores de papel, os pivetes. É bom, sabe? É bom a gente ter uns amigos assim. Eu tenho muitos e gosto deles. Eles também gostam de mim. Do nosso jeito: a gente gosta de se enrolar. Se o juizado pega um, os outros se mandam. É que se a gente quiser bancar o valente vai também. Nossa amizade é assim, ninguém exige nada de ninguém; cada um se vira como pode. Acaba sendo melhor, porque a gente é mais livre. Não tem desses negócios de fazer visitinhas, marcar compromissos. Hoje eu fico com os engraxates, amanhã com os entregadores de feira, depois com os catadores de papel. Outras vezes a gente faz uma cara de triste e vai batalhar freguês de lanchonete. No Café Central, onde o povo come em pé e com pressa, é batata: é só fazer uma cara de fome e faturar os caras. Outro dia um freguês lá mandou eu escolher e eu pedi um sanduíche daqueles bacanas, com carne, ovo e alface. Vai ser bom, siô! Tem uns caras legais, ainda. Uns caras que cooperam, né?
Mas o bom mesmo é lavar carro. Eu ainda sou meio pequeno, os caras não confiam muito. Aí eu encostei num negão que faz ponto na viela do Popular. Fiquei na de ajudante dele. Faturamos bem. Os caras deixam o carro aberto pra gente lavar por dentro, aí a gente liga o rádio, senta no carrão e fica pensando até que é o Fittipaldi.
Futuro do Brasil, eu! Ouvi no rádio, a professora lá do grupo também falou assim uma vez. Sabe que eu tenho saudade do grupo? Fiz só até o segundo ano, mas tive de sair porque a diretora falou que num tinha carteira pra todo mundo. Também, precisava trabalhar, eu já tava crescendo, tinha oito anos. Precisava ajudar, né? Aí eu comecei a pegar carona no ônibus das seis e meia. Porque no das sete horas o cobrador era mau. Um dia eu fui passar debaixo da roleta e ele meteu o pé na minha cara. Machuquei o nariz, mas menti pros amigos que foi briga. Foi até bom, porque eu inventei uma história de valentia e fiquei respeitado.
Quando dava fome, no começo era duro. Até que aprendi uns macetes. Fiz amizade com a cozinheira do restaurante do Armando, ela passava comida pra mim pela janela, escondido. Aí um menino que tinha brigado comigo contou pros caras lá e eu perdi a boca. A gente fica na rua até tarde, mas de noite tem que esconder do juizado. Tem dia que a gente tá tão cansado de bater perna que nem vai pra casa. Fica por aí, dorme nas vielas, debaixo das marquises. Tem uma garagem ali na Paranaíba que o guarda-noite me topa. De vez em quando eu durmo lá. Ele deixa eu dormir dentro de algum carro. Eu fico com dó de sujar os carros e durmo no chão. Me cabe bem, porque eu já tenho onze anos mas sou meio pequeno. E é tão quentinho.
Eu devia ter ficado lá no Centro hoje. Tá um frio danado, não sei o que vim fazer no Bairro Feliz.
Feliz é o bairro, com essa gente toda em casa, quentinho. Televisão colorida. Pô, aquele fedaputa daquele menino podia ter ficado calado na hora que me viu na janela. Tive que correr, com medo do pai dele. Bem na hora que tava passando Duas Vidas. Quando eu crescer quero ser doutor. Que nem o Doutor Vítor. Ficar rico. Ter carro, casa bacana. Mas pra ser doutor eu preciso estudar e pra estudar tenho que mudar de vida. Precisava deixar de ser pobre.
Oba, uma caixona de papelão!.. Vou deitar aí dentro. Vai ficar quentinho. É só o pessoal da limpeza não me catar pensando que sou lixo".
Os caminhões da limpeza urbana coletam à noite. E carregam tudo o que encontram nas calçadas, apressadamente. Todas as ruas pavimentadas são rotas dos coletores. As ruas sem asfalto que se virem com o lixo.. É que lixo e luxo andam, quase sempre, de mãos dadas. E foi assim que o gari coletou o guri. Mas só o descobriram na hora de despejar o caminhão. Foi no dia em que aconteceu uma frente fria que alegrou as madamas, que aproveitaram para sacudir a naftalina das roupas que só se usam nos dias de muito frio. O frio pegou muita gente de surpresa, é lógico.
E o garoto, perambulando pelas ruas, morreu de frio. Dormindo numa caixa de papelão que foi catada pelos homens que exercem hoje o que talvez seria o futuro do guri. E o Repórter trouxe uma foto do garoto. Nu, o sexo devidamente censurado. E a legenda: "Menino encontrado no lixo foi sepultado". É que os jornais deram ampla cobertura, colaborando com a polícia no sentido de se descobrir alguém que identificasse o corpo. O pequeno cadáver ficou na geladeira alguns dias, sem que ninguém o reconhecesse; ou, pelo menos, tentasse reconhecê-lo. Ele foi sepultado no Cemitério Parque, numa cova sem nome. Apenas a cruz e número. E o menino que não tinha endereço em vida ganhou um na morte. Mas continua sem nome. Sem pai. Sem mãe. Sem amigos.
— Será que é ele?
— É sim. Ele gostava de passear no Bairro Feliz.
Tentei alcançar os garotos, perguntar mais. Eles reconheceram, identificaram o amiguinho na foto do jornal. Mas fugiram, apressadamente. Pensei devagar, vendo os dois jornaleiros correndo de mim. O maior seria da idade do morto. A cidade está cheia de meninos assim, vítimas de um crime do qual não se descobrem autores. Um crime de réu desconhecido. Desconhecido o réu, localizada a vítima, vítima desconhecida, também. Uma comichão azucrinou meu peito. Um ligeiro sentimento de revolta. Talvez frustração. A gente é capaz de reconhecer o pecado, mas não encontra a penitência capaz de redimi-lo.
O frio. Geadas comprometendo a lavoura, madamas cheirando a naftalina, os senhores de poder bebericando uísque de contrabando a pretexto do frio. E o guri que o gari apanhou no lixo de luxo só queria se aquecer.
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Luiz de Aquino Alves Neto
Dados biográficos
Luiz de Aquino Alves Neto nasceu na cidade de Caldas Novas, estado de Goiás, em 15 de setembro de 1945. Graduado em Geografia, é jornalista, contista, cronista e poeta, tendo nove livros publicados sendo seis de poesia - Sinais da madrugada, De mãos dadas com a lua, Canto de amar, Menina dos olhos, Isso de nós e Razões da semente – um livro de contos – O Cerco - um sobre a história do Banco do Estado de Goiás – BEG, nossa gente, nossa história e seu livro mais recente que reúne entrevistas realizadas com figuras marcantes da história de Goiás: Deu no jornal, lançado em novembro de 2000.
Desde 1996, seus trabalhos vêm sendo divulgados na Internet e encontram-se "linkados" na Home Page do autor: http://luizdeaquino.na-web.net.
Bibliografia
Livros publicados:
Aquino, Luiz de. O Cerco e outros casos; contos. Goiânia: Líder, 1978. 76p.
______.Sinais da Madrugada; poemas. Goiânia: Centauro, 1983. 51p
______.De mãos dadas com a lua; poemas. Goiânia: Edição do autor, 1984.
______.Canto de amar; poemas. Goiânia: Edição do autor, 1986. 105p
______.Menina dos olhos; poemas. Goiânia: Edição do autor, 1987. 104p.
______.Isso de nós; poemas. Goiânia: Edições Consorciadas/UBE/Goiás, 1990. 93p
______.BEG- Nossa gente, nossa história. Goiânia: BEG, 1994. 183p.
______.Razões da semente; poemas. Goiânia: Editora Pireneus, 1996. 127p
______.Deu no jornal. Goiânia: Gráfica Terra, 2000. 173p
Contribuições em:
1 – ANTOLOGIAS e PUBLICAÇÕES DE TERCEIROS
ALBUQUERQUE, Carlos. Caldas Novas: além das águas quentes. 1996.
ALVES, Laurenice Noleto. O moço da camisa azul. Goiânia: Kelps, 1999. 191p. (prefácio)
AMÉRICO, Fátima. Adivinha o que estou vendo!. 1997.
ANDRÉ, Cláudio. As pinguelas do ser. 1995. (texto para orelhas)
BACCA, Ademir (org). Poeta, mostra tua cara. Bento Gonçalves (RS): Editora Alcance Ltda. e Toazza Artes Gráficas Ltda., 1991. v 3 (antologia)
BASTOS, Almáquio. Ciclo do nada. 1996. (apresentação de contracapa)
BRAGA, Jorge. Especial de charges. 1981 (prefácio).
CÁRITA, Ana. Cartas em filetes de canto. 1997.
CHITARRA, Dalva. Deus e o diabo nas terras de Apolo. 1991.
COELHO VAZ, Rastro Literário. Goiânia: 1991.
ELIAS, Ana Cristina. Caldas Novas ontem e hoje. 1994.
FAUSTINO, Uhracy & MÍCCOLIS, Leila (org). Saciedade dos poetas vivos. Rio de Janeiro:Blocos, 1999. Vol. XIII. 110p. (antologia)
GALLI, Ubirajara. Tatuagens em fuga. Goiânia: Kelps, 1998. 82p.
JORGE, Miguel. Amor: poldro que se doma; fogo de outra chama. 1996.
MARTINS, Mário Ribeiro. Estudos literários de autores goianos. Anápolis: FICA(Federação das Instituições Culturais de Anápolis, 1995. 1052p. p.338 ( antologia)
__________. Escritores de Goiás. Rio de Janeiro: Master, 1996. 816p. p.433 (antologia)
NASCENTE, Gabriel (coord). Colheita, a voz dos inéditos (poemas). Goiânia: 1979 (antologia)
________. Goiás, meio século de poesia. Goiânia: 1997. 282p. p.159-161 (antologia)
PERES, Neusa. Lado Alado. 1996 (apresentação de contracapa).
SANT’ANA, Núbia M.M. Sorrindo entre lágrimas. 1997.
SCHMALTZ, Yêda. Amigos seletos. Goiânia: Edições Consorciadas, UBE - Gráfica Kelps, 1990. (antologia)
SETTI, Arnaldo. Versos na Janela. 1998. (prefácio)
SÓTER, Luís. Entre a terra e o concreto. 1980.
_________.Poemas Soterrados. 1983 (prefácio).
TELLES, José Mendonça. Chão Goiano. Goiânia: 1999. ( prefácio)
VIEIRA, Delermando. À luz das velas de sebo. 1987. (epigrama)
WERNER, Lia Sanford. Livro do Sentimento Único. 1996.
2 - SUPLEMENTOS LITERÁRIOS dos jornais: (desde 1973)
O Popular - Cinco de Março - Folha de Goiaz - Diário da Manhã
3 – EDIÇÕES LITERÁRIAS ALTERNATIVAS COMO:
A CIGARRA
JORNAL DA TATURANA
FALA POETA (Santo André-SP)
REVISTA GARATUJA (Bento Gonçalves – RS)
CHUVA DE POESIA (revista da União Brasileira de Escritores – Seção Goiás) - 1985, 1986,1992
VOZ VIOLADA (revista de poesia, editada por Ariston Araújo e Flávio Bambu) - 1979.
REVISTA DA ACADEMIA GOIANA DE LETRAS (várias edições)
REVISTA MEYA PONTE (da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música, várias edições)
BADIÃO (gibi criado e editado por Jorge Braga e Phaulo Gonçalves, 1982) - (colaborador).
ROMÃOZINHO (gibi de Jorge Braga, 1987/88) - (colaborador).
4 – VERBETE EM ENCICLOPÉDIAS E DICIONÁRIOS:
ENCICLOPÉDIA de literatura brasileira. Rio de Janeiro: MEC/FAE/OLAC, 1990. v.1. p
TELES, José Mendonça. Dicionário do escritor goiano. Goiânia: Kelps, 2000. p. 15
DOIS MOMENTOS NA POESIA DE LUIZ DE AQUINO
O leitor do primeiro livro de Luiz de Aquino, Sinais da Madrugada (1983), que não acompanhou a evolução da obra do poeta, certamente se surpreenderá com Razões da Semente (1996), seu último livro. Treze anos depois, e quatro trabalhos publicados no entremeio, houve grandes transformações na relação do poeta com o mundo, com a poesia e consigo mesmo. A ponto de se poder pensar que os dois livros saíram de duas sensibilidades diversas.
Sinais da Madrugada é a expressão de um tempo em que o autor versejava de improviso, nas mesas dos bares. Seus poemas, frutos do ânimo exaltado pelos vapores etílicos, trazem a marca de candentes paixões:
Bebo
e tenho a certeza
de fazer desta noite
um instrumento a mais
no esforço pra te conquistar.
Mas chega um instante
em que abro meu peito
à insensatez
e brotam rudezas
do espírito".
Os versos são espontâneos e revelam a autoconfiança de um ego fortalecido pelos arroubos da juventude. Daí o clima extático, suscitado também pela embriaguez, confessada já na primeira palavra do poema.
O arrebatamento estimula a abertura das "portas que dão pra dentro" para liberação da interioridade. E o poeta deixa aflorar o turbilhão de sentimentos que lhe vai na alma:
Aqui,
a noite e o lago
sugerem paz
enquanto meus gritos
calam no peito
a dor da eternidade
à espera do instante.
Dominado pelas forças que vêm de dentro, às vezes o ego se mostra fendido na indecisão, na conduta ambígua. Disso resulta um poema de humor escrachado, onde um Hamlet apaixonado não consegue se decidir entre a exaltação e o repúdio da amada, e acaba, ironicamente, fazendo ao mesmo tempo as duas coisas:
Não
sei se te faço um poema
ou se te mando à merda.
É que te gosto esquisito
e sofro horror
por não me olhares
como queria.
Enquanto isso,
curto madrugadas perdidas
fodido da vida,
pensando em ti
em cada pedaço de mim.
Quer
saber? Não te faço o poema.
Vai à merda!
O título do livro sinaliza uma preferência do poeta pela errância noturna, os momentos em que dá vazão às pulsões afetivas, aos fantasmas íntimos. Os versos soam muitas vezes como uivos de um lobo perdido na escuridão da carne:
Na
ânsia das noites
encontro orgasmos
inesperados
enquanto a lembrança
de teu cheiro
excita-me sempre
e mais.
O que predomina é a catarse de uma alma possuída pela impulsividade. O poema é sempre um jorro que brota das trevas interiores. Destarte, o poeta expõe seu parentesco com o mito criado pelo romantismo, o "insensato" preconizado pelo alemão Novalis (1772-1801).
Mas ninguém se iluda. O ego do poema não coincide com o ego do poeta, ainda que se enraize neste. Essa questão, embora paradoxal, dispensa maiores considerações, em vista da luz que Fernando Pessoa lançou sobre ela, ao taxar o poeta de fingidor irremediável, que transforma em dor fingida o sofrimento verdadeiro que lhe acomete a alma.
Trevas e luz – Em Razões da Semente, o leitor encontra menos trevas e um pouco mais de luz. Aqui a palavra "noite(s)" aparece apenas 16 vezes, contra 30 vezes em Sinais da Madrugada. Em contrapartida, a palavra "luz(es)", antes empregada somente duas vezes, agora é explorada nada menos que nove vezes.
Da mesma forma, não deve ter sido casual o uso do termo "razões" no título do novo livro. O poeta, amadurecido, busca conscientemente o primado da razão. Mostrando-se reflexivo já no primeiro poema, vai buscar nos genitores, com fino senso de humor, a explicação para sua maneira de ser. Celebra a figura paterna ("Meu pai tem mãos / de amaciar violão") e a materna ("Minha mãe tem mãos-carinho") antes de falar de si: "Tenho mãos de escrever poemas / de amor e coisas afins".
Ao concluir o poema, vangloria-se de seus talentos hereditários, enquanto explica as "coisas afins" a escrever poemas de amor: "As minhas [mãos] molham-se em molhos / sensuais. / Tenho mãos que amansam vãos". Pelo poder da sugestão a imagem do violão, que as mãos paternas amaciam, transforma-se no corpo feminino, que as mãos do poeta, transfiguradas pelo carinho materno, amansam.
O poeta, conforme fica evidente, passou a se preocupar com o lado formal do poema, apelando por vezes à rima:
Te
quero e desejo
por companheira;
te sonho e anseio,
é brincadeira!
Te sinto e sofro,
dor traiçoeira.
Com freqüência é a sonoridade que preside a escolha caprichosa das palavras, por apego à paronomásia:
Falar
das cores,
das dores, das flores.
Conclamar
luas, serenatas, ruas,
lágrimas tuas,
tuas pernas nuas.
O capricho chega ao extremo de um poema inteiro com aliteração em "d":
Descubro
Denise,
desmonto demônios.
Diz-me, ó Deusa,
dos dias, dos doces deslizes.
Senão, vou descer doze luas,
desenhar desvios e fazer-te Amada
pra te dizer feliz".
A monomania do amor sexual, de outrora, cedeu espaço à solidariedade:
Também
vigio
a vigília,
desfraldo bandeiras
e, bardo solitário,
levo comigo esse verde de fé,
esse ouro de irmão:
vou lutar pelos pequeninos.
O erotismo e o heroísmo, afinal de contas, são produtos da mesma energia.
Os olhos que só viam rabos-de-saia, agora vêem o que se passa em torno de si:
Água.
Vento. Raios.
Luzes resistem, envoltas
no alvigris da chuva.
A doze andares, sei do asfalto submerso,
flashes que iluminam a enxurrada.
E também a paisagem distante:
Reverdece
a Serra de Caldas.
Refloresce o cerrado
mal passado
mês inteiro,
fogueira calcinante
ante a sanha e a ganância¼
Livre da ansiedade da urgência, o poeta admite:
Tenho
tempo
para reviver vivências.
Talvez por ter encontrado sua alma gêmea:
Assim
te quero ver
e ter e saber sempre.
Inovam-se os dias
e crias um lar.
E amar há de ser teu verbo mais forte.
Sendo
só, que assim o queres,
serás mais rica e mais sorriso.
Feliz, que sonho fazer-te assim,
se assim tu me deixares que te faça.
Fera que se domesticou, o poeta se rende:
Quero
ser mero regato
afluente desses lagos, vertende desses olhos.
E confessa, derrotado:
Não consigo não te amar.
Mas, mesmo na coleira, o lobo não está definitivamente abatido:
Arde
o coração,
a voz se faz em vibrato,
eriçam-se os pelos
e os olhos brilham mais.
O corpo inteiro se agita
transmudado: é o desejo.
Embora reconheça a submissão:
Aí,
é lembrar de você,
porque não tenho
outro interesse,
outro endereço,
outro adereço."
Comparando-se esses dois momentos da poesia de Luiz de Aquino, percebe-se uma evolução formal que acompanha a evolução temática. A agressividade explícita deu lugar à calma aparente; o impulso cego, à reflexão; a espontaneidade, à contenção; a aspereza, ao polimento. Em resumo: o poeta passou a exercer controle sobre o que lhe vem da alma.
A nosso ver, o trabalho paciente e o respeito a regras são imprescindíveis. Para conduzir bem o seu barco, o poeta precisa atuar com a máxima consciência possível na elaboração do poema. Mas deve evitar a racionalidade excessiva, assim como as técnicas surradas ou gratuitas, para não naufragar no academismo.
O ideal seria dar liberdade ao fluxo do inconsciente, para submetê-lo às exigências do espírito crítico. Sendo a intuição tão valiosa quanto o trabalho persistente e vigilante na elaboração dos versos, conviria que a loucura e a lucidez se dessem as mãos no momento da criação. Embora difícil, vale a pena tentar o nobre pacto entre o império das trevas e o reino da luz.