
Não poderia deixar de fazer uma homenagem especial à minha querida amiga Ana Luisa Peluso. Pelo seu ideal, generosidade e espírito de luta, pela sinceridade e os sofrimentos que já enfrentou, pela dedicação a uma meta tão sonhada e pela garra com que batalha pelas pequenas e grandes causas a favor do ser humano meu preito de carinho, ternura e vibração.
O nome vibração foi escolhido a partir do entusiasmo e calor humano que vibram os acordes do coração de Ana, tornando-a esse ser maravilhoso e especial. Portanto com vocês a TITULAR da Coluna VIBRAÇÃO .
Vânia Moreira Diniz
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Chá
das cinco Ela
percebe que surge apenas com a verdade de que não é nada.
Todos nós somos o nada. Somos apenas teias de sentimentos
falhos e desconhecemos os fios para nos sabermos em curto.
Ela também é alguém com medo das pás e espingardas carregadas
pelos militantes do obstáculo. Seus tentáculos estão imóveis e ela
é pura dor. Nada pode fazer pelos seus ou por si mesma, então
apenas habita o corpo acalentado pela morte, e sem garantia de
utilidade converte-se em feto por instantes, enquanto se deita
sobre a cama que sobrou, sem travesseiro. Sua, a nobre nua ovelha; alguém
que foge do abatedouro diário. Finge ser canário e canta, pensa
que vê deus enquanto reza baixinho pelos corredores da casa para
não atrapalhar; por isso o centeio apodrece e o pão não sai. A mãe
chama para o chá; tem outro pão. Sempre tem outro pão sobre as mesas
que ela visita. Todos querem mostrar que sabem fazer pão, mesmo
quando não sabem. Senta-se. Sua xícara cheia de chá a
observa. A mãe se acomoda. E esse o momento: entorna a xícara de chá
propositalmente sobre a toalha branca usada todos os dias às cinco; a mãe
resmunga bons modos. Ela finge não ouvir. O que era tão importante
mesmo, há alguns minutos, no quarto? Não saberia mais dizer. Havia se
esquecido. O que mais perdera com a vida e seu passar desajeitado,
incansável, inextiguível? O que mais perdera com a vida, senão
toda ela? A própria vida se encarregava de destruir suas possibilidades e
tudo o que sobrava eram orações solitárias em corredores
longos demais para existirem à noite. _Aceita
bolachas?_ a mãe pergunta, sem sorrisos. Agradece a
oferta enfeitada de recusas. A vida bastava. Bolachas não eram bem
vindas. Ainda aguardava o pão, que por sua vez aguardava a
soltura das mãos do padeiro. E o centeio apodrecia a olhos vistos, todos
os dias, dentro de sua alma nua de ovelha nobre sobre a cama sem
travesseiros. Seus dias eram o inferno das possibilidades; eram cinco
horas da tarde e o chá acabava de ser servido. Saberia mentir
amanhã? |
Ana Luísa Peluso é casada, tem 36 anos, um filho de 10 e muitas idéias.
Ilustradora, formada em comunicação e programação visual com especialização posterior, em design de web.
Escritora por vocação há mais de 20 anos, e astróloga por curiosidade.