
Na minha terra
No meio da confusão do dia, enquanto atendo o telefone, dou aulas, resolvo problemas, executo tarefas, obedeço a sinais, engulo a comida, bebo água, subo escadas, enquanto sinto saudades, vontades loucas de fazer apenas o que me dê cabeça, tive uma idéia, uma feliz idéia e um desejo fundo de ter uma terra só pra mim. No meio das atribulações, penso em delicadezas, esta minha alma querendo uma coisa qualquer, um toque no cabelo, no rosto, um bom abraço de quinze segundos... Minha alma, alma, quer uma flor ( rosa vesga?) nascendo devagar por entre as páginas dos livros que nunca lerei, estantes que não sei, versos que nunca fiz.
Penso numa terra qualquer, lugar que rescendesse a musgo, alecrim, poejo, camomila, delicadezas demais. Planto, na minha imaginária terra, um salgueiro chorão que, balançando ao vento, me faria, na certa, ter boas recordações. Planto sementes redondinhas, desconhecidas, lisas, flores-surpresa.
E no meio dos jardins, semearia seixos, isso mesmo, faria um caminho recoberto de pedras lisas, também redondas, quem sabe nele brotassem flores amarelas?
E sei que nesta terra todos os caminhos seriam curtos para se chegar ao lugar onde se escolhesse: pequenos paraísos. Bastava um desejo do coração e, como na história, era só fechar os olhos, era só querer muito e tão fundo...
Para minha terra eu levaria pardais e suas inquietas asas, abelhas castanhas e seus vôos inquietos, meus ipês e paineiras, laranjeiras em flor. Levaria jasmins-do-cabo com suas folhas grossas, sumarentas e tão brilhantes, cor de esmeralda, com seu cheiro despudorado e sua brancura de lua. Para a minha terra, levaria as árvores mais altas, os arbustos de folhas recortadas ou redondas, o atrevimento da margaridinha amarela e sem graça, pequenina, nascida nos cantos das calçadas.
Haveria silêncio na minha terra e as pessoas jamais teriam pressa. Caso quisessem, poderiam andar descalças, nas pontas dos pés. Na minha terra, a palavra beiral viria carregada de mil pássaros que, ao entardecer, quebrariam o silêncio com sua música de bicos e asas.
Da minha terra, no entanto e com certeza, eu escreveria outra crônica e desejaria os telefones tocando, o barulho do microondas, as buzinas dos carros... desejaria o corre-corre e a surpresa, o trabalho e o cansaço, as viagens, o sobe e desce de escadas, quinze segundos de abraços.
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Meu nome é Esther PS Rosado e sou professora de literatura em curso pré-vestibular.
Defino-me como uma cabocla do Vale do Paraíba de Lobato que se atreve a escrever quando sobra tempo; todas as criaturas e suas ações me interessam, bem como a folha, o pássaro, a libélula, o teatro, a pedra, o caminho, a flor e o fruto.
Choro com freqüência, saibam todos.
E acredito na multiplicação de pães e peixes...
Edito a revista Nave da Palavra há três anos; como vêem, acredito também em literatura.
Amo a vida, minha família, meus amigos e meus alunos.
Gosto de Bach, Haendel, Beethoven e Mozart.
Quando chove e ouço música, acredito nos anjos.
http://www.navedapalavra.com.br