Entrevista

Gustavo Dourado (Amargedom): "O Poeta do Apocalipse", entrevista à jornalista e pesquisadora francesa Emmanuelle Delabosse

Entrevista a Emmanuelle Delabosse para Tese de Doutorado

Tema: Gustavo Dourado (Amargedom): "O Poeta do Apocalipse"

Université Antilles Guyane (Martinique)

Sobre o cordel em geral:

Emmanuelle Delabosse – Você pensa que é muito importante nos estudos sobre a literatura de cordel sistematicamente lembrar que ela tem uma origem européia e ibérica? Não acha que hoje em dia representa a identidade sertaneja?

GD - Temos que ter ciência, clareza e consciência de nossas origens ibéricas e afro-ameríndias e sempre afirmar e reforçar a nossa identidade rural e sertaneja...

O cordel mesmo tendo suas raízes tradicionais na Europa medieval, vem de muito longe, das tradições mais antigas dos nossos ancestrais e antepassados lusitanos, hispâncicos, latinos, tupis, guaranis, afros, hebreus, fenícios, egípcios, sumérios, mesopotâmicos, caldeus, babilônicos, persas, árabes, gregos, romanos, arianos, bárbaros, vikings, celtas, gálios, normandos, asiáticos, indus, chineses, enfim é uma síntese poético-cultural que recebeu influência de todas as grandes tradições poéticas da antigüidade. Aqui no Brasil ganhou uma identidade sertaneja (via Leandro Gomes de Barros, poetas e repentistas), mais a sabedoria popular dos grandes cordelistas e poetas cantadores , enriquecida pela cultura indígena e a cultura africana. No Sertão, o cordel se transformou em voz dos oprimidos, em grito dos excluídos, dos sem-tudo e dos sem-nada... Com o avanço do cordel veio o baião, o forró, o xote, o xaxado, o aboio, o maracatu, a ciranda e várias ramificações da cultura popular brasileira, nordestina por excelência...Luiz Gonzaga, Zé Ramalho, Raul Seixas, Glauber Rocha são (é) a síntese de todas essas linguagens.

Emmanuelle Delabosse – os folhetos lembram pelos temas e pela forma tradicional os folhetos ibéricos mas em que as populações índias e escravos negros contribuiram para o desenvolvimento da poesia oral?

GD - O aboio dos vaqueiros, as cantigas dos índios e o canto dos negros deram vivacidade e enriqueceram a oralidade do cordel e do repente. Os contos e cantos populares dinamizaram o verbo cordeliano e ampiaram o seu alcance nas fazendas, nas ocas e nos terreiros. As culturas africanas e indígenas tem forte presença oral e fizeram simbiose com a cultura ibérica. Daí surgiram novos ritmos e cantos que incorporaram as tradições milenares de várias culturas ancestrais. Não podemos esquecer da influência dos cavaleiros medievais e da literatura cavalheiresca, sobretudo da obra-prima de Cervantes: Dom Quixote. A oralidade da poesia negra e indígena está na alma e no sangue dos poetas cordelistas, repentistas, improvisadores e por essência de todos os sertanejos do Brasil, sobretudo do Norte-Nordeste....

Emmanuelle Delabosse – O que você pensa do termo "cordel" (que vem etimologicamente de cordel, ficelle, corda em ocitan) de fato para designar a literatura popular nordestina? O fenômeno dos folhetos pendurados sob ficela existe no Nordeste ? desde quando ? Nunca vi isso?

GD - Cordel vem de cordium, corda, cordial, coração. É a literatura do coração, da alma, do espírito...Os cordões, as cordas eram usadas no início, nas feiras, nas barracas e empórios comerciais, principalmente em Portugal. No Nordeste, usava-se muito as esteiras e tecidos mais grossos e resistentes para expor os folhetos. As cordas e cordões eram usados esporadicamente. O poeta cordelista usava muitos artifícios para fugir da rígida, arbitrária e preconceituosa polícia e da fiscalização do Estado, como pode ser visto no filme-documentário " O homem que virou suco", de João Batista de Andrade, onde o poeta é muito bem representado pelo magistral ator José Dumont. Temos os filmes geniais de Glauber Rocha, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, autênticos romances de cordel do fantástico cineasta da Bahia e nome de destaque do cinema latino-americano e universal...

Emmanuelle Delabosse – Faz parte de uma associaçao de cordelistas como a "Academia do Crato" por exemplo ou prefere ser independente?

GD - Sou mais independente, entretanto nada tenho contra as escolas e academias representativas. São centros culturais importantes para divulgar a poesia de cordel.. Tenho simpatia pela Academia do Crato e pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Essas entidades têm um importante papel na preservação e divulgaçao de nossa literatura popular. No Orkut, faço parte da Comunidade da Academia do Crato e já fui publicado na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, com o Cordel para Pixinguinha. www.gustavodourado.com.br/cordel/Cordel%20para%20PIXINGUINHA.htm Sou membro do Sindicato dos Escritores e da União Brasileira dos Escritores, entre outras entidades culturais que podem ser verificadas em: www.gustavodourado.com.br/biografia.htm

Emmanuelle Delabosse – A instruçao dos poetas e a chegada dos poetas eruditos na produção do cordel é um sinal do desaparecimento progressivo da literatura popular (destinada unicamente ao povo) ou um sinal de uma evolução (como você explica o interesse cada vez mais forte dos estudantes e pesquisadores para o mundo literário do cordel?)

GD - O cordel está na alma do povo. Tem forte presença oral e está arraigado nos costumes e na cultura do nordestino, mais ainda, dos sertanejos. Não houve muita evolução na estrutura formal do cordel. Ele se adaptou aos novos ritos e às novas tecnologias. A Internet reforçou e revitalizou o cordel pois permitiu uma nova forma de divulgação e de distribuição, de maneira mais independente e autônoma. Agora, o folheto é cibernético, informático, eletrônico.. Surgiu uma nova modalidade: o cibercordelismo...O cordelista multimídia, ritmado com o computador, a internet e a informática...Webcordel....Cybercordel...Com a Internet o interesse e o acesso ao cordel foram bastante ampliados. Temos vários cordelistas que cada vez mais escrevem pela Internet, e eu sou um deles.. É uma revôolução na forma de divulgar a poesia. E os estudantes e pesquisadores de várias univesidades cada vez mais se interessam pelo assunto. Um dos pioneiros foi o saudoso professor da Sorbonne/Poitiers, Raymond Cantel...

Emmanuelle Delabosse – O que tem que fazer os poetas cordelistas para continuar a manter a tradição do cordel?

GD - Precisam ler os antigos cordelistas e incentivar os novos. É preciso ficar atento às novas linguagens, sem esquecer de preservar a tradição dos folhetos, dos abcs, dos romances, dos arrecifes. A Internet é um importante ponto de apoio. É um dos grandes aliados do cordelista de hoje. Ele pode escrever em sextilhas, septilhas, como antigamente, só que em alta velocidade, sob os acordes e ritmos da interatividade da Web.

Sobre O Apocalipse:

Emmanuelle Delabosse – Como se introduziu o tema do Apocalipse na poesia nordestina em verso? Como migrou o tema da Europa para o Nordeste?

GD - O nordestino além da poética que ferve no sangue tem a mística à flor da pele. O Apocalipse sertanejo vem desde os bandeirantes, os garimpeiros, da epopéia de Zumbi dos Palmares, de Conselheiro e do mito do Sebastianismo, reforçado pelas crendices e lendas e pela leitura elementar da Bíblia e dos catecismos, dos almanaques e do Perpétuo Lunário ou Lunário Perpétuo. Deve-se a Leandro Gomes de Barros a inclusão de temas sociais, políticos e religiosos no cordel. O Apocalipse sempre esteve presente na Literatura de Cordel e sempre foi tema recorrente nas discussões do sertanejo, que tem visão própria sobre o tema. Monstros, dragões, pragas, sinais, profecias, fim do mundo, animais misteriosos, máquinas fantásticas, hecatombes, seca e misérias são presenças marcantes na infância de qualquer sertanejo. Aí soma-se a forte superstição e as crenças místicas provindas de mitos como Besta-Fera, Anti-Cristo, Falso Profeta; sem esquecer do arquétipo Jesus Cristo, Maria, apóstolos, discípulos, profetas, santos, beatos e milagreiros, Antônio Conselheiro, Antônio Silvino, Lampião, Maria Bonita, Corisco, Padre Cícero e Frei Damião. O Terceiro Mundo, a América Latina e o Nordeste vivem o seu Apocalipse a cada dia: a fome, a miséria, a seca, o analfabetismo e os problemas do subdesenvolvimento e do colonialismo interno/externo. Vivemos em estado permanente de Apocalipse. A realidade se desvela e se revela na poética da fantasia do homem do sertão...

Emmanuelle Delabosse – Apocalipse é fonte de inspiraçao para você . Usa bribas de evangelho aprendidos de memória ou estudou o texto de maneira exegética?

GD - As duas coisas. Aprendi muito sobre o Apocalipse no próprio livro de São João e ouvindo relatos populares do sertânicos, da Família Dourado: dos irmãos-rezadores João Azevedo e Tolentino Azevedo( meu padrinho), ambos curandeiros e místicos católicos sertanejos. Filhos do filósofo-pregador popular católico Francisco "Chiquinho" de Azevedo. Tive a influência de João Cardoso, Amália Dourado e de Antônio Teixeira que me incentivaram a pesquisar e ler catecismos, a Bíblia, principalmente o livro do Apocalipse. Não posso esquecer a influência familiar de minha mãe Edelzuíta de Castro Dourado, fiel à fé católica e ao misticismo sertanejo e ao ecletismo do meu pai Ulissses Marques Dourado, que me ensinou a ler a Biblia e o cordel desde a minha primeira infância (aos três anos). Meu pai Ulisses foi do catolicismo ao protestantismo. Ele começou no catolicismo e depois atuou com os presbiterianos de Recife dos Cardosos-Ibititá, Lapão e Irecê, depois freqüentou a Igreja Batista e comungou com a doutrina dos adventistas. Em Brasília contatou os Testemunhas de Jeová, Pentecostais e Assembléia de Deus. Por meio do parente Orivaldo Dourado desde pequeno eu ouvia as polêmicas filosóficas dele com os crentes e católicos ao defender a doutrina de Allan Kardec e os princípios do Espiritismo. Falva-se até de discos voadores, os objetos voadores não identificados... Ouvia isso desde menino... O misticismo é muito forte no interior da Bahia, por ali há de quase tudo. Desde menino tomei contato com as doutrinas esotéricas via Despertar dos Mágicos e de alguns livros ocultistas. Por meio do primo Lauro Adolfo conheci alguns mistérios do conhecimento esotérico. Há muitas crendices e lendas sobre livros mágicos e malditos como O Livro de São Cipriano (capa preta) e a Cruz de Caravaca. Há muitas lendas sobre corpo fechado, rezas fortes e mandingas. Ouvia as histórias sobre Manuel Quirino, Militão Coelho, Horácio de Matos e as rezas dos cangaceiros, bandidos e jagunços. Em tudo isso há doses apocalípticas, o mito do fim dos tempos, do Armagedom e de uma Nova Era, da Nova Jerusalém. Novos céus e novas terras, o Quinto Império, a volta de Dom Sebastião, a Pedra do Reino, cidades perdidas, sonhos, mitos, lendas, magias do Sertão, mangangás...mandingas, umbanda, quimbanda, candomblé, de tudo um pouco... Tudo isso num paralelo da carnificina republicana perpetrada em Canudos.

Emmanuelle Delabosse – Você é realmente fiel ao texto de Joao? A sua visao do Apocalipse não é estritamente popular?

GD - Li muitas vezes o livro do Apocalipse. Mas creio na mistura, na simbiose, nas influências e confluências dos mitos, das palavras e das vertentes culturais e literárias. Tem o lado erudito, da exegese e tem o lado popular do romanceiro de cordel, dos causos, das lendas, crendices, superstições. As duas coisas se fundem e criam um universo mágico da caatinga e dos rochedos sertanejos. Ibititá, Ingá, Recife dos Cardosos, Meios, Boa Vista, Canarana, Lapão, Tanquinho, Umburana,Mulungu, Uibaí, Barra do Mendes, Barro Alto, Gentio do Ouro, Lagoa dos Patos, Central, Irecê, Gruta dos Brejões, Iraquara, Morro do Pai Inácio, cidades perdidas, lagoas mágicas, pedras encantadas, pedras de todos os tipos, pedras de arrecife, rochas, rochedos, águas subterrâneas, aqüíferos, locas, grutas, tocas, cavernas, lapões, cacimbas, tanques, árvores retorcidas, mulungus, xique-xiques, mandacarus, quiabentos, o caosmos do Sertão...Tudo isso gera uma visão cósmica de um mundo de vertente medieval em choque dialético com as reformas, as mudanças, advindas pelo rádio, a eletricidade, o automóvel, a tv, a mídia, o computador, a Internet e as novas tecnologias...O fim do mundo é uma ameaça constante. As Centúrias do Sertão são escritas em cordel e são proferidas no canto mágico dos repentistas,de Elomar, Xangai, Zé Ramalho, e nos aboios dos vaqueiros e nas rezas das beatas, no canto dos ciganos, no clamor dos sertanejos que esperam por dias melhores, prometidos pelos políticos e aventureiros nefastos. Os novos Nostradamus falam pelas teclas do computador e pelos caracteres da Web...

Emmanuelle Delabosse – Tem uma visao pesoal do Apocalipse?

GD - Sim...Tenho uma visão poética, cordeliana...É uma forma mista de ver o mundo em seus vários aspectos que vai do social, religioso, tecnológico, cósmico, universal ao mítico e místico de um sertanejo-trovador... O Apocalipse para mim é a revelação dos mistérios universais...

Emmanuelle Delabosse – O texto de Joao é texto dificil; o que pensa dos seus simbolos? que representa para você , os quatro cavaleiros por exemplo?

GD - É um livro simbólico carregado de mitos, lendas, adjetivos. Tem influência do Egito, da Mesopotâmia, Iraque, da Índia, da Palestina, de Israel. Ali vejo a Kaballah, o Tarot, a alquimia, o Graal, a Tábua das Esmeraldas, os cavaleiros, os templários, os Cátaros, os mistérios da alta magia, a essência das coisas ocultas, as miríades celestiais, Shambhalla, Agartha, um mundo profético, divino, místico, cabalístico, celestial, maravilhoso. Os quatro cavaleiros do Apocalipse têm vários significados estão ligados à fome/miséria/calamidades/pestilências,a guerra/revoluções, a morte/tranformação,...O cavalo branco e o seu cavaleiro pode ter duplo significado pode ser o Anti-Cristo e o próprio Messias, o filho de Deus. É preciso sabedoria e uma boa pesquisa/interpretação para compreender/decifrar os sete selos do Apocalipse...

Emmanuelle Delabosse – Se nos regruparmos em diacronia todos os poemas de cordel apocalíipticos nordestinos dos anos 40 a nossos dias podemos quase constatar que o tema do Apocalipse aparece muitas vezes em tempo de crise no Brasil ...Concorda com isso?

GD - Sim. Aparece sempre e aparecerá a cada dia, enquanto houver desequilíbrios, corrupção, desmandos, mazelas e injustiças sociais. Estamos em crise permanente. O nosso Apocalipse é cotidiário, contínuo e é salpicado pela fome, a miséria, o desemprego, o analfabetismo, a maracutaia, a falcatrua, a roubalheira, a violência,o medo, a insegurânsia, o descaso dos ricos com os mais pobres, a imoral concentração de renda, os desvalidos, os sem-quase-tudo que nada têm... Os despossuídos, vítimas dos poderosos, dos ricos, dos capitalistas, dos usurários e avarentos de uma elite tirana e cruel. Enquanto os excluídos não tiverem vez o Apocalipse será real e fatídico, assombroso...

Emmanuelle Delabosse – Acha que a literatura apocaliptica pode se tornar atualmente com os eventos internacionais e mediatizados mais uma literatura da ESCRITA que da ORALIDADE. Quero dizer que poetas mais eruditos tem tendências a escrever para ser "ouvidos" e se interessam cada vez mais por problemas exteriores ao Nordeste? A passagem da escrita à oralidade é uma boa coisa para a cultura popular? Acha que é bom para os pesquisadores?...

GD - Sim...A oralidade é permanente no cordel desde as origens. Veio bem antes do escrito e passou de pai para filho e descendentes por essa forma. Veio desde a Idade Antiga à Idade Média...Desenvolveu-se com os trovadores provençais, os albigens, depois se consolidou com a escrita, via imprensa, folheto impresso e agora retorna à oralidade com o rádio, a tv, a Internet e outras formas de comunicação. As duas formas estão interligadas e são fundamentais para o novo cordel.

Emmanuelle Delabosse – Para o tema do Apocalipse você adotou a sextilha (rima ABCBDB), existe no cordel tambem septilha, décima ou ABC, porquê o recurso da sextilha?

GD - Aprendi desde menino com a leitura de Leandro Gomes de Barros e Rodolfo Coelho Cavalcante a trabalhar com a sextilha e poucas vezes com a septilha e muito raramente com a décima...Hoje a forma mais constante é a sextilha com as suas formas variáveis. A sextilha está incorporada desde a prima infancia. É quase como um recurso oral.

Emmanuelle Delabosse – A forma versificada não limita a interpretaçao intelectual e sábia do texto de João?

GD - Não. Pelo contrário, até enriquece. Veja como são ricas as epopéias da antiguidade, a Odisséia, a Ilíada, Eneida e depois se acentua mais ainda com a Divina Comédia de Dante e os Lusíadas de Camões, Dom Quixote, de Cervantes... Muitas das grandes obras literárias foram escritas por poetas e com os recursos estilísticos da poesia. Até mesmo a Bíblia Sagrada, com Davi e Salomão, utilizou a poesia, o verso, os aforismos, em livros como Salmos, Provérbios, Cânticos, A poesia está presente nos Vedas, no I Ching, no Tao Te King, no Mahabaratha...Em quase tudo de bom que foi escrito pelo homem tem poesia...

Sobre A Guerra do Armagedom:

Emmanuelle Delabosse – Explique a historia da redaçao desse poema; foi cantado ou escrito e depois cantado?

GD - Muitos dos meus poemas nascem verbais advindos da forte oralidade do sertanejo. Pelo menos em parte. Advem pela influência da linguagem oral, dos repentistas e cantadores, dos causos e histórias. dos sermões bíblicos, das pregações....Pelo menos as inspirações quase sempre vêm de forma oral e depois o pensamento se cristaliza na escrita. Os meus poemas apocalípticos têm as duas características, de origem oral depois se consolidam na escrita com a lapidação e a carpintaria da linguagem poética...foi o caso do Cordel do Apocalipes e da Guerra do Armagedom, entre outros...

Emmanuelle Delabosse – Celso Magalhães em 1973, no livro "poesia popular em verso do Nordeste brasileiro afirma que que os trovadores populares limitam-se unicamente a repetir o que eles tem na memória. Isso se justifica agora nessa produção escrita?

GD - Hoje, não... Até 1973 creio que isso poderia ser verdade em parte, mas não absoluta. Talvez isso fosse mais característico dos repentistas, cantadores e emboladores, coquistas, mas sempre em parte. Hoje o nível de informação se multiplicou, os poetas estão mais informados, lêem mais, buscam, pesquisam...Tem o conhecimento mais acessível por meio da mídia, jornais, rádio, tv, cinema, Internet, livros, revistas, textos, enciclopédias, teses, propaganda, divulgação, publicidade, telejornais etc...

Emmanuelle Delabosse – Primeira estrofe: "preciso me apresentar/ sou poeta do destino: porquê essa necessidade de reconhecimento?

GD - Não é necessidade de re-conhecimento e mais de conhe.cimento.. De se conhe.ser, fazer conhecer, reconhecer-se... A apresentação é um fato comum na literatura de cordel. Não é necessidade de reconhecimento. É mera estilística e retórica poética usada por muitos cordelistas e repentistas como Leandro Gomes de Barros, Otacílio Batista, Rodolfo Coelho Cavalcante, Manuel de Almeida Fiho, Patativa do Assaré....Uso como mera abstração fenomenológica...

Emmanuelle Delabosse – Muitos aspectos "canto a guerra no repente", léxico, expressões, e frases do evangelhos transmitidas da oralidade aparecem intactas como " Guerra do Armagedom", "fim dos tempos", "treme a terra" , "geme o povo", "amargura, desgraça e destruição", "praga, doença e moléstia", "nação contra nação", na "Grande rebelião", "grande dor, grande desolação", "falsos profetas", "Reino do Anti-Cristo", "Babilônia", "um dilúvio de matar/fogo água e meteoro", "os selos ja foram abertos", "Gogue e Magog" etc..E se encontram também nos poemas orais e escritos de outros colegas cordelistas.

GD - Isso é uma constante em minha poesia e não só no cordel.. Está no Cordel do Apocalipse, no Cordel do Armagedom, em Phalábora, Linguátomo, Tupinambarbárie e em muitos dos meus poemas experimentais...É a influência direta da Bíblia, do Apocalipse de São João, do Livro de Daniel, de Ezequiel, Isaías e de todos os profetas, até mesmo das Centúrias de Nostradamus e dos profetas sertanejos... Está presente em vários cordelistas e repentistas do Nordeste, pois é uma cultura que se assemelha em todos os estados e no nosso polígono apocalíptico das místicas caatingas assombradas pelos mistérios universais...

Emmanuelle Delabosse – Quando você interpreta e recria a visao de João "refaço a visão do Apocalipse" (estrofe n°4), tem o sentimento de acrescentar ou exagerar (pois o próprio da literatura popular é ser paródica, estrofe n° 24 "tem Maria que é Zé / e tem Zé que é Maria" ou de modificar o texto inicial . Transcrever um texto codificado como o Apocalipse em linguagem simples e popular traz necessiariamente para a paródia? A linguagem divina é compativel com a lingugem popular? É sincero na suas interpretações ou quer satisfazer o público popular?

GD - A paródia sempre está presente... É a linguagem do meu Sertão...Sou sincero e transparente em minha poesia, límpido como o cristal. Faz parte da minha natureza e da minha cultura testificar o real com a verdade... Aprendi com os meus pais. Vem de berço. Só que a realidade e a fantasia tem fronteiras que se tocam e se unem...Vivemos uma realidade fantástica, semelhante ao universo de Gabriel García Marquez, de Rosa, Pessoa, Carpentier... O nosso realismo fantástico é a cosmifantasia do Sertão...O sertão é apocalptico em sua origem...Com as suas lendas, parlendas, os massacres dos índios, Canudos, a escravidão dos negros, os quilombos, as rebeliões, os mitos dos ribeirinhos do Rio São Francisco, do Jacuípe, do Paraguaçú, Mirirós, do Rio Verde, do Rio Jacaré, a Vereda de Romão Gramacho, as histórias dos garimpeiros, os heróis populares, os amarelinhos, romãozinhos, bocajes, camões, macunaímas, João Grilos, Pedros Malazartes, Cancões de Fogos...Tudo isso foi bem personificado por Ariano Suassuna em seu Auto da Compadecida e está presente de forma mítica em Guimarães Rosa, Mário de Andrade e em Jorge Amado, Herberto Sales...Gregório de Matos, Castro Alves e Leandro Gomes de Barros foram precursores dessa linguagem com as suas sátiras às estruturas à época estabelecidas...

Emmanuelle Delabosse – A sua técnica poética é muito linda ; seus aspectos fônicos, e imagens fortes procuram o prazer emocional e estético: afinal escrever ou improvisar para o povo é trabalho de criação difícil?

GD - Sim. Não é fácil ser artista.Tem que ter além de muito talento, dom e criatividade, bastante esforço, lapidação e trabalho. O artista é luminar, luzeiro, farol, candeeeiro, antena da raça,como dizia Pound. Tem que estar sempre ligado em tudo. Precisa estar bem informado.. Não deve apenas se resumir à inspiração. Tem que ter muita transpiração. Suar a camisa...Lutar para esculpir as palavras, as idéias, se substanciar com o que há de melhor em todas as linguagens. O cordelista de hoje é um multimídia, um universalista. Ele tem que estar a par das novidades e das notícias. Ficar por dentro dos fatos e compreender a dialética da transformação e da revolução permanente do mundo... Sobre o futuro da literatura de cordel: O céu e a web são os limites...

Emmanuelle Delabosse – Qual é o futuro do cordel? O fim do mundo não é o fim da tradição, o fim da poesia oral, do microscomo cultural encantado do Sertão onde as palavras, da voz do repentista são inocentes e justas? Acho que mesmo os eruditos como você tem consciência disso e respeitam os antigos porque o cordel é um tesouro que alimenta a alma e o coraçao de todos.

GD - Sou erudito e popular. O cordel nasceu e cresceu erudito na Europa. Veja o caso dos reis-trovadores e dos trovadores provençais,dos albigens. É muito efêmera a fronteira do erudito e do popular. O que é erudito hoje pode vir a ser popular amanhã e vice-versa. O cordel tem um grande futuro pois é cultura popular e faz parte da tradição de nosso povo e dos povos do mundo. O que varia é só o nome de lugar para lugar... O que muda são os tempos, as eras, os modos. A cultura do povo se eterniza nos versos do poeta, cantador, repentista, cordelista, trovador... O cordel está em Glauber Rocha, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Cora Coralina, Jorge Amado, Dias Gomes, João Cabral de Melo Neto, Bandeira, Zé Lins, Drummond, José Américo, Rachel de Queirós, José Hernandez/Martim Fierro e nos nossos artistas e cantores: Luiz Gonzaga, Zé Ramalho, Raul Seixas, Vinícius, Cordel do Fogo Encantado, Quinteto Violado, Alceu Valença, Fagner, Geraldo Azevedo, Amelhinha, Diana Pequeno, Sá e Guarabira, Elba Ramalho, Ednardo, Dominguinhos, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Gil, Caetano, Chico, Milton, Villa-Lobos, Cartola, Pixinguinha, Zeca Baleiro, Lenine, Chico Cézar, Elomar, Xangai, Chico Science, Paulo Matricó, Clodo, Climério e Clésio e tantos outros... Está presente na arte, música, no cinema, no teatro e na nossa literatura...O cordel será um dos pilares da literatura brasileira do futuro e se converterá cada vez mais em um dos alicerces de nossa rica cultura...O cordel é apocalíptico por natureza, profético, uma autêntica revelação de nosso povo criativo...

Emmanuelle Delabosse – Os jovens alunos deveriam estudar o cordel nas salas de aulas?!...

GD - Seria muito importante para melhorar o nível cultural. Cordel e leitura dos Clássicos... Mais poesia e menos games e televisão... Poesia, sempre...

Emmanuelle Delabosse – Tem projetos neste sentido?

GD - Sim. Seria importante como incentivo à busca de uma identidade com a cultura popular e a cultura brasileira/universal. Já estive em algumas escolas e universidades de Brasília e de outros estados a proferir palestras e debates sobre a literatura de cordel e outros temas literários. O que fiz foi mais uma iniciativa pessoal. O sistema das escolas brasileiras é muito elitista e é mais voltado para a cultura oficial, televisiva, a indústria cultural e a cultura do imediatismo e do consumismo. É preciso de uma grande revolução no meio educacional e a adoção de novos métodos de ensino e de novas linguagens, com a democratização das modernas tecnologias . A inserção do cordel no universo escolar é imprescindível para fortalecer as nossas raízes culturais. Seria uma forma de contrapor ao dragão da maldade do neoliberalismo globalizante e do imperialismo colonizador imposto pelas potências econômicas. Basta!...

Mantenho na Internet o projeto Cordel na Internet que pode ser acessado em:
www.gustavodourado.com.br/cordel.htm

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