

Os sapatos
Hoje eu sai para comprar um par de sapatos. Andei o dia inteiro enfrentando frio e neve e acabei voltando para casa de mãos vazias.
Parece que, aqui, ainda não descobriram que inverno não e sinônimo de funesto. Parece que as pessoas sentem um prazer mórbido em contrariar a natureza. Se ela apresenta-se branca a cor da estação tem que ser o preto. Procurar alguma coisa diferente e desafiar o consciente coletivo que, por si só, já e cinza. Não é que eu tenha alguma coisa contra o preto, muito pelo contrário! É a cor mais elegante que há, dependendo dos complementos. No dia a dia, um toque de cor é até necessário pois, caso contrário, é como estar-se eternamente de mal com a vida. Só que, ao que parece, essa opinião é só minha... Entre cinzas, marrons e varientes, o preto é o que prevalece... da cabeça aos pés!
Entrar numa sapataria é um autêntico desafio visual. O que se vê são faixas negras intermináveis, cobrindo as paredes do teto ao chão. A primeira impressão é que todos os sapatos são iguais. Depois que a visão se habitua a todo aquele negrume, começa-se aos poucos a discernir os modelos que são, justiça seja feita, os mais variados: botas, sapatos sociais, soirée, esportivos, sandálias, chinelos em todos os tamanhos e feitios... mas, invariavelmente pretos!
Completamente desesperada consegui encontrar uns míseros pares em azul-marinho e cor de vinho mas, infelizmente, de modelos totalmente ultrapassados... Provavelmente sobras de uma estação passada que haviam ficado esquecidas durante um bom tempo nos fundos da loja.
Revoltada falei com a vendedora:
- Senhorita, eu estou procurando um par de mocassins de corte delicado (os que vi, além de pretos, pareciam daqueles "Vulcabrás" antigos que eram as únicas "ferraduras" que duravam um ano inteiro nos pés de um colegial), em beige ou couro cru.
Ela me olhou muito espantada e só faltou se benzer ante tamanha aberração.
- Beige? No Inverno?
- Porque, é proibido?
Mais desconfiada ela me olhou, com aquele ar de quem pressente que está falando com um doente mental.
- Não senhora, mas é que ninguém usa beige no Inverno.
- Pelo que eu vejo, prá todos os efeitos, nem qualquer outra cor... Só preto. Você já reparou que aqui dentro parece um velório? A única nota destoante sou eu, com meu casaco vermelho e botas castor.
Aí ela me olhou meio sem jeito, sem saber se ria ou chorava diante de tamanho desrespeito as normas sociais e numa voz sumida me perguntou, sem me encarar:
- A senhora não é daqui, não é?
- Não, minha filha, sou brasileira - a exuberância personificada.
Ela deu um suspiro de alivio tão profundo que soou como um bocejo.
- Ah, então está explicado! A senhora é do país do Carnaval!
Confesso que a resposta dela pegou-me completamente desprevenida. Após um momento de hesitação cai numa gargalhada sonora.
- Você tem razão! Eu venho da terra das cores, da vida, da alegria, do eterno otimista que leva no olhar o sol e o mar! Para nós, viver é uma eterna festa em cores que nem os problemas e as constantes dificuldades do dia a dia conseguem desbotar. Para nós, minha querida, viver é uma arte de muitas nuances, um jogo de sombras e luz. Para nós, a vida é um prisma de cristal natural que leva milhares de anos para ser formado e deve, por isso mesmo, ser festejado em todas as cores do espectro solar!
Deixando-a boquiaberta, completamente perplexa, virei-me para a porta de saída, sentindo-a a olhar-me pelas costas como se eu fosse um animal de espécie rara ameaçado de extinção.
Saí da loja sem meus sapatos mas feliz e sorrindo entre os Don Casmurros da vida que nas ruas, vestidos de preto, desfilavam seus rostos sisudos e pálidos.
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Minha História
Iracema Reis
Nascida em Petrópolis, no Rio de Janeiro, residindo ha 13 anos em Toronto, no Canadá. No Brasil, fui Professora de Inglês e Tradutora durante 10 anos e aprendi outros idiomas para poder ler obras estrangeiras no seu original. Em 1985 eu e minha mãe fomos para o Porto, em Portugal. Lá, casei-me e abri meu próprio Instituto de Línguas que dirigi durante os 4 anos de nossa permanência naquele pais. Em 1989 viemos para o Canadá. Formei-me em Psicologia e durante 3 anos contribui para o jornal da Universidade. Atualmente trabalho com pessoas da terceira idade na comunidade de Thornhill, onde resido. Escrever sempre foi a minha maior paixão e o faço não só por prazer, mas também porque e a melhor forma de terapia que conheço!
Iracema
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É Triste...
(Poema dedicado a minha primeira amiga
brasileira, Vânia Moreira Diniz, depois de tantos
anos fora do Brasil, que me recebeu no seu coração com toda a espontaneidade,
carinho e ternura de que só uma alma pura e capaz.)
Iracema Reis
É
triste não ser compreendido mas, pior, é não compreender.
É triste abrir o coração e ser, inesperadamente, rejeitado,
Mas, pior, é ter que sofrer calado,
a dor de ter um coração mudo e incapaz de se enternecer.
É triste, por vezes, sentir o travo da impotência
E ver que o brado que nos escapa do peito,
não tem sobre os outros o esperado efeito:
de acordar e erguer do leito o acomodado,
de fazer reagir o indeciso e o conformado
Que se deleitam na própria incompetência.
Mas, pior mesmo, é não ter um brado a dar.
É sentir-se incapaz ante as circunstancias,
Irresoluto ante a vida que clama e chama,
Ou indiferente a esta eterna dor humana
Que nunca passa - só cresce e desengana.
Pior
do que não ser ouvido
É
não ter nada a dizer.
É
seguir na sombra dos caminhos
Pra não ter que aparecer.
É
viver como alma penada,
Sem rumo, sem direção.
É
viver por viver e por nada,
Na incerteza, na incoerência e na indecisão.
Eu sei que é triste …
Mas nunca se esqueça que o forte não desiste,
Que por pior que seja a luta ele resiste,
Fiel a si mesmo e a este ideal
Que parecendo aos outros insano
Para ele é verdadeiro e real.
Lembre-se sempre que o desanimo não constrói,
e que apesar das batalhas inglórias,
e da persistência que nascem as vitórias,
e da forca de caráter que se faz um herói.