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Era noite, céu e estrelas. Esperança de paz pairava naqueles lares.
Novos sonhos retocavam os antigos e, por vezes, quem sabe, até os
substituíam. E eram necessários para que continuássemos. Desejos de
mudanças infindas ensaiavam sinapses que poderiam se tornar permanentes
em mentes inquietas por novos passos. O ar soprava frio nas faces dos que
amavam. Era dia 24 de dezembro, véspera de natal, e a lua nascia linda
como um humilde sim.
O cheirinho desta época me encanta. Transforma-me em alguém que gostaria
de ser sempre. Estamos a cada dia manifestando aparências que vêm não
sei de onde, nem sei por quê ou para quê. Sei que raramente nos
apresentamos nos cenários da vida sem a proteção de alguma máscara. E
é passada a hora de descobrirmos quem realmente somos. É passado o
momento de buscarmos, sem trégua, um caminho menos sujo. Somos mesmo
simples reações complexas ao ambiente? Podemos interferir e modificar?
Sei, a cada amanhecer, que precisamos.
A comida era saboreada aos poucos, entre brincadeiras, palavras alegres e
observações instigantes. A troca de presentes é tradicional e
acreditamos estar presenteando o menino Jesus que mora no coração de
cada ser humano. Por vezes, meu lado artificial tentava complicar o
momento, o qual consegui inibir quase totalmente. Ainda assim surgiram
alguns pensamentos: por que era embaraçosa a nossa dificuldade de separar
as atitudes mecânicas do comportamento plenamente vivido que todos
manifestamos? Um fato exclui o outro ou um é o outro?
Desconsiderei.
Mais alguns aborrecimentos, apesar do que inspirava o universo,
impuseram-se em meio às trocas de presentes, abraços, elogios e desejos.
Confesso que por mais decidido que estava por relevar acontecimentos
inexpressivos que só a mente perdida e complicada do homem pode torná-los
desagradáveis, fui vítima da pessoa que realmente sou. Voltei a querer
complicar quando alguém quis transformar em apocalipse uma simples
tentativa que todos nós temos de acertar, com o humano direito de errar.
Para combater briguei, esbravejei e aborreci por um quarto de hora, talvez
mais...
E a lua estava magnífica mesmo. Era bela como era. E o universo mais uma
vez, incansavelmente, dava mais uma chance para nos modificarmos, para nos
decidirmos por mudanças verdadeiras, baseadas no amor. Oh Deus, é tão
difícil percebê-la.
...E mais uma vez, em meio a sorrisos, abraços, orações, gritos, música
e trocas rápidas de elogios, a harmonia aconteceu. Que maravilha
conviver. É mágico saber que muitos tentam encontrar seus caminhos. É
sensacional sentir um pouquinho da energia humana de cada um que nos
permite deslumbrar.
Algo em meu ser sorri na época de natal e alegro-me ao descobrir que
muitos compartilham comigo este sentimento.E assim foi a maior parte
daquela noite.
Eis que no instante certo ele apareceu. Penso até que poucos o
percebemos. Confesso que até já estava lá. Seu sorriso era a paz e sua
atitude era de amor. Ele tinha pouco mais de oitenta anos, algo menos que
três anos, não sei ao certo, talvez sessenta e um. Estava sozinho entre
todos nós e olhando para o infinito deixou uma lágrima rolar pelo rosto
sereno de contemplação.
E a lucidez dilacerou minha imperfeição como que uma lança
penetrando em meu coração. E ali pude vislumbrar a cruz que carregava e
que era sua. E pensei na minha. Como respeitei aquele homem que chorava
como uma criança. Remeteu-me aos motivos mesquinhos que uso para
aborrecer-me. Quis chorar e agradeci por mais aquela oportunidade que Ele
me deu de melhorar.
E envoltos por uma noite de harmonia disfarçavam-se, em mim, egoísmo,
individualismo, mesquinhez, orgulho, soberba, insensibilidade e
insensatez. E naquele momento clamei com verdadeira intensidade pela cruz
que nos fará humanos. E entrei em profundo silêncio. Agradeci por cada
segundo de minha vida, pela saúde das pessoas que amo. Agradeci pela
minha saúde. Pedi perdão pelas minhas faltas e omissões. Pedi perdão
pelos meus erros e descrenças. Engoli tudo de superior que algo em mim é
ávido por evidenciar e pus-me a rezar. Que cruz é a verdadeira? |
Um
pouco da minha história
Paralelepípedos que brigavam com a areia por um lugar no calçamento da rua Adolfo Silveira, no bairro São Gerardo, Fortaleza no infinito Ceará, é talvez a imagem que guardo da infância primeira de uma criança que ia para a rua brincar e correr sobre pedras com irmãos, adoro ter irmãos, e amigos. De 12 de agosto de 1976 até eu conseguir aprender a dizer o nome da rua e onde ficava não sei especificar quanto tempo transcorreu. Sei que hoje sei. Vividas infância e adolescência, estas têm seus detalhes e enredo que ora coincidem, ora jamais se repetirão na vida de qualquer outro ser, deparo-me com o que sou hoje. E no tal hoje, adoro uma boa leitura, uma conversa descontraída e sushi com amigos amigos. Estou acadêmico de medicina do quinto ano na Universidade Federal do Ceará e rezo a cada quase todo dia para vivê-lo simplesmente sem preocupar-me com o futuro. Cinema e música são os momentos em que me aproximo da dança do universo. Praia é o meu cantinho aconchegante, principalmente aninhado no colo da mulher que amo, nosso beijo nasceu um para o outro. A palavra me fascina e escrevo quando estas palavras já não suportam mais somente pulsar em minhas artérias. Escrevo meio que desajeitado, mas a mensagem acredito conseguir transmitir. Tenho aprendido com cada passo, cada queda, cada sorriso e cada lágrima... Amo a vida e a ela tenho dedicado toda a minha vida. Busco a cada instante a chance de fazê-la verdadeira. Talvez nem exista verdade e sim a minha frágil verdade. Busco, em meio a quedas, arranhões, cicatrizes mas descobertas e conquistas, a humanidade. Receio que os cem anos que me restam sejam insuficientes. Entrego de alma e coração esse receio a Deus.