Contos e Crônicas
Romero Nepomuceno
Minha Vida de Cachorro
|
Fui roubado. Que lastima! Isso causa uma sensação de impotência, uma insegurança tão grande! Você perde o controle sobre tudo e parece que o mundo vai desabar. As coisas só voltam aos eixos quando você percebe que não é o primeiro nem será o último e, inevitavelmente, descobre o país em que vive. Aí então, você até se conforma um pouco e passa a fazer parte de uma estatística, iniciando (é obvio!), a contabilidade do prejuízo. Como todo bom brasileiro, somente após o roubo, ou seja, após o fato consumado, tomei minhas providências e descobri que poderia resolver o problema de várias maneiras. Poderia instalar um alarme em minha casa; fazer um seguro residencial; contratar um vigia; instalar uma guarita em acordo com a vizinhança ou, quem sabe, comprar um cachorro. Bem, das hipóteses relacionadas eu me ajustaria a qualquer uma delas, exceto: “comprar um cachorro”. Na verdade eu não tenho medo desses animais, o que sinto é um pavor horrendo. O sentimento inquietante que aflora diante do perigo eminente provocado por esses quadrúpedes é, para mim, algo realmente incontrolável. Sendo assim, resolvi o problema dentro das minhas possibilidades, pelo lado mais simples e com minha visão de executivo: contratei um “seguro residencial”. Até porque, a vendedora do outro lado da linha tinha uma voz muito macia e me convenceu logo a comprar o seguro. Ah! Sinto-me agora protegido por mim mesmo, já que o Estado não exerce a sua supremacia. Que alívio! Que sensação agradável! A segurança voltou a reinar em meu lar. Tudo voltou ao normal.
Vã ilusão.
Esqueci que vivo com outras pessoas e a decisão não seria minha
isoladamente. E a minha mulher, em uma reunião familiar, veio logo
dizendo, ainda meio traumatizada com o ocorrido: -
Acho melhor comprarmos um cachorro.
Franzindo a testa com um olhar de incompreensão e procurando, de
qualquer forma, justificar minha decisão, já contendo uma certa ira no
tom de minha voz, argumentei impensadamente: -
Cachorro aqui em casa basta um: Eu.
Meu filho mais novo, muito irônico, olhando para sua mãe, disse: -
Mãe, papai não tem pedigree! Que poder possui a fala! Como é ferina, quando dita no fervor da verdade! Decepcionado, concluí, irremediavelmente, que nem para cachorro eu serviria e era melhor me acostumar com a idéia, pois se dependesse de mim eu não saberia ladrar. Um cachorro poderia oferecer maior segurança que eu, principalmente se possuísse um pedigree. Depois de longa argumentação e contra-argumentação, para meu desespero, ficou acertado que não teríamos apenas um cachorro, e sim dois. Um pequeno para fazer barulho e um outro, maior, que seria efetivamente o cão de guarda. Ora! Se eu já tinha concordado com um, por que não concordar com dois? Até porque eu já era voto vencido. Assim demos início à procura pelos cães. Verificamos todos os jornais, revistas, internet, lojas de produtos veterinários, canis e tudo mais que pudesse oferecer algum tipo de informação. Num sábado à tarde, aparece meu filho com uma cocker-spaniel. Era horrorosa! Mais parecia um rato em forma de cachorro. Pensei comigo mesmo: esse eu consigo dominar. Com o passar do tempo comecei a observar um pequeno detalhe: a cadela não latia. Então lembrei que ela tinha incumbência de fazer barulho para espantar os ladrões ou chamar o cão de guarda. Como poderia, se ela era muda!? Meu filho, prontamente resolveu o problema, sugerindo que ensinasse à cadela a linguagem dos surdos-mudos. E fiquei a imaginar a cena: Cadela na posição de vigia, cheirando e andando de lado para outro... Ladrão chegando... Ela correndo pela lateral da casa, grunhindo (já que não sabia latir)... Sentada em frente à janela, levantando as patinhas e fazendo sinal para alguém, anunciado a chegada do ladrão. Francamente! Eu tenho uma voraz vigia! Bem...
Mas as coisas foram acalmando e com a chegada do cão de guarda (diga-se
de passagem, um dogue alemão), a cadela aprendeu a latir e hoje estamos
todos muito bem protegidos e felizes também, graças a Deus. Só o medo
de cachorro que ainda permanece, no mais, está tudo muito bem, obrigado! Um pouco da minha biografia
Romero Nepomuceno Romero Nepomuceno, escritor e fundador do Centro de Estudos Teatrais - CET, em Patos de Minas - MG, onde escreveu e auxiliou na montagem dos textos "Cidade do Absurdo", "Assassinato da Sala Burguesa", "Nicolson", além de outros. Depois de longo período afastado da vida literária, vem retomando esta atividade escrevendo contos e crônicas. |