Con-passo
Sandra Falcone
 

Favoritos

 

Ciscar na internet tem se tornado, pelo menos para mim, um hábito muito gostoso. É impressionante o que se lê. Como coloco tudo que acho interessante nos “favoritos”,  o pobre está lotado,  se bem que nem tudo é de qualidade, ou melhor, é...mas não politicamente correto... e nem sempre o que é politicamente correto é correto, não é?

Nesta última segunda-feira,como sempre, fui ciscar e...achei de tudo! Em minutos de leitura desisti de querer entender os crimes hediondos desta ultima semana, nem as falcatruas comuns dos nossos representantes, nem o pouco caso a que  são submetidos os nossos cidadãos. Resolvi ficar no besteirol - afinal era segunda-feira! Se não me permitir, à segunda-feira, o direito de um sorriso, logo as dez horas da manhã, o que será das demais “feiras” da semana? pensei. Continuei a sorrir até que, de repente, a voz da consciência ( é sempre cruel, a voz da consciência) se meteu no meio dos meus sorrisos: nada de sorrir, caramba! Você tem é que chorar! Como tem a coragem de sorrir diante de tudo que lê, diariamente?

Tentei, juro! Mas a piada era ótima e do sorriso acabei gargalhando foi um instante. Daí , como rir é muito bom, pega, como diria minha tia-madrinha, de um sorriso parti pra outro, e outro e outro !

Foi tão boa a experiência que no final do expediente, com a boca cansada de sorrir, sorri descaradamente quando enfrentei o metrô lotado e um sujeito me atropelou para tomar o meu lugar no assento e não pediu desculpas; sorri docemente quando enfiei meu pé num buraco da calçada e quebrei salto do sapato… e dormi sorrindo com doçura - enquanto uma dor de dentes de matar qualquer cristão martelava minha alma.

Por tudo isso, estou determinada: vou sorrir muito nas segundas-feiras, por tudo e por nada, por todos os dias da semana, mas com o cuidado de me desviar dos sorrisos delicados, ternos. Esses sorrisos de alma logo numa segunda-feira são perigosos, já tenho experiência nisso.  Sorrisos provocados pela poesia principalmente   acabam nos aproximando da essência... e ficar próxima da essência é fogo! Como vou encarar, depois de ler um poema de Manuel de Barros , por exemplo, a imensa lista de nomes e crimes do mensalão, já sabendo que esses crimes , considerando a presteza da nossa justiça, se julgados, vão demandar anos e anos a fio, de apelações, recursos, etc. etc? Provavelmente inocentados por WO de vida, embora todo o esforço do Supremo Tribunal em incrimina-los?

Não, numa segunda-feira o melhor que tenho a fazer é correr atrás do besteirol. Ele me ajudará a pensar que tudo é uma questão de ótica. Monto na alienação, fico confortada e  não vou sentir nenhum remorso por sorrir, ainda que o sorriso seja triste e forçado!  Assim, no sábado, mesmo que abraçada pelos meus sorrisos cansados e provavelmente bicuda com tudo que precisei engolir durante a semana, como cidadã, vou  me ficar bem pertinho do Drumonnd nos meus favoritos e  sorrir de novo, mas desta vez com o sorriso que eu gosto de sorrir e que só a poesia é capaz de provocar e, se mesmo assim, ainda de tudo sobrar mais um pouco, tenho o Vinícius de Moraes para salvar o meu domingo!

 Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

(versos extraídos do poema Pátria Minha de Vinicius de Moraes)

Sandra Falcone
sandbutc@uol.com.br

   www.sandrafalcone.com.br


Des-palavra

Sandra Falcone

Pensei em fazer uma pequena biografia da minha pessoa, escondendo a idade, naturalmente ( risos) mas....,  reconsiderei.

Sandra Falcone, brasileira, divorciada, residente em São Paulo, advogada. Publiquei dois livros de poesia , acompanhados de cd : “Retraços de Mulher” e “Notícias de Mim”.

Tenho um site,: www.SandraFalcone.com.br,  e  uma mania muito antiga: escrever.

A fascinação pela palavra escrita nasceu comigo, mesmo quando não entendia o significado, ou melhor, não sabia ler.

Tinha fascinação!! Olhava aquelas coisas que  nem sabia que nomeavam de “letras” e ficava encantada -  sabia que devia haver algo mágico ali. 

Minha mãe me diz que  meus primeiros desenhos foram traços próximos de letras e quando ela perguntava pra mim o quê era aquilo que eu desenhava eu dizia:  nossa casa, meu brinquedo tal, minha bi-vó, ou seja, eu não relacionava nada com a forma , não tentava copiar ou desenhar um objeto ou  uma pessoa, queria “escrever”  a pessoa.

Tudo isso para dizer ( risos) o quanto sou vidrada na palavra escrita, muito mais do que nas  palavras “faladas” ou  “ouvidas”.

Tanto que, muitas vezes, quando alguém me diz: vc disse tal coisa, eu penso intimamente: sim, é verdade, eu disse, mas não escrevi, como se não fosse lá muito responsável . Mas se alguem me diz vc escreveu. Vixxi... que buraco!

Custou muita terapia pra mim o silêncio oral. Eu fui uma das pessoas mais mudas que conheci, no entanto, a mais tagarela, escrevendo;  a mais distraída ouvinte , escutando; a mais atenta ouvinte, lendo.

Então podem imaginar o que foi a invenção da Internet na minha vida -  quando se vive no mundo das palavras escritas.....

Entender que nem todo mundo tem o respeito que eu tenho pela palavra escrita, foi o diabo pra mim  Acreditava em tudo que era escrito, como se fosse a minha verdade. Era uma escrevinhadora e leitora de boa fé.

Com o tempo e a prática e,  principalmente, a contradição da palavra escrita por outra palavra escrita, ou seja, pela “des-palavra”  entendi um grande ditado popular : dize-me  com quem andas que eu te direi quem és.

Com a convivência escrita não há como se esconder um caráter -  sem querer , sem perceber, a alma se devassa,  conta, confessa.

É o que pretendo fazer com a minha coluna Con-Passo.

sandbutc@uol.com.br
   www.sandrafalcone.com.br

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