
Quando
eu era muito pequena não compreendia nenhuma diferença entre as pessoas. Como
pertencia a uma classe privilegiada e tudo
era realizado com facilidade à minha volta tinha a ilusão de que
todos podiam
satisfazer suas necessidades básicas e que “Ter uma casa “ era tão natural
como nascer.
Crescendo
um pouco comecei a me aperceber o meio privilegiado a que pertencia., porém
jamais tinha imaginado a separação que poderia haver entre seres humanos .
Aprendera teoricamente que éramos todos iguais, porém notara sempre, desde
muito cedo que no colégio que estudava havia uma ala separada, freqüentada por
meninas que vestiam um humilde uniforme, o contraste do que era o nosso e que
costumavam ajudar nos trabalhos domésticos, embora houvesse uma parte do dia
que dedicavam aos estudos.
Essas meninas passavam casualmente por nós, alunas, quando
estavam fazendo qualquer tarefa, sem, entretanto nos dirigir a palavra ou
iniciar qualquer conversa.
Ocorreu
que eu simpatizei com uma daquelas meninas, o que foi recíproco. Senti uma
estranha amizade por aquela criança, da minha idade, mas tão acanhada, cujos
olhos castanhos profundos era marcados pelo estrabismo que não diminuía a
meiguice da expressão. Olhamo-nos como duas boas amigas e sempre que podíamos
conversávamos, o que era raro, sem que ninguém nos visse. Isso, porém trazia
muito medo à minha secreta amiga que temia que as freiras ou professoras nos
vissem juntas. E muitas vezes perguntávamos reciprocamente o que isso poderia
haver de mal.
Algumas vezes ela me dizia que era pobre e eu rica e eu lhe perguntava o
que isso poderia interferir em alguma coisa.
Tinha
uma poderosa atração por aquela ala que ficava na parte de cima do colégio e
que sabia ser o pequeno orfanato que as freiras mantinham.
Um
dia aproximei-me dela na mesma hora que uma professora ia passando e
Soninha advertiu-me da possibilidade de sermos punidas de alguma maneira.
- Cuidado. Preciso ir, ela me disse ,entre triste e revoltada.
- Não fique assim, por favor. Elas não podem fazer nada. Afinal, o que
tem de mais conversarmos?
- Você sabe que somos diferentes e que isso não será bom para nós duas.
Só que me parece, eu serei a maior prejudicada.
Aquelas palavras me confrangeram e me afastei magoada, sem, entretanto
tirar da cabeça a idéia de visitar a ala proibida. Pensativamente afastei-me e
por um longo período fiquei sentada no pátio do colégio, onde minhas colegas
brincavam na hora do recreio, até que uma freira veio saber o motivo do meu
afastamento. Nada disse. Tentava digerir as diferenças que ocorriam e que agora
já me preocupavam, pois não conseguia esquecer algo que não podia
compreender.
Um mês depois procurei me encontrar com a pequena órfã para lhe dar um
livro que havia trazido e quando a encontrei vi no seu sorriso a felicidade pelo
fato de não a ter esquecido mesmo depois de sua admoestação. Uma freira veio
em minha direção e chamou-me, perguntando o motivo pelo qual eu ainda não
havia me juntado às minhas colegas. Receosa de que minha amiga fosse advertida
encaminhei-me em direção ao corredor que me levaria às salas, não sem antes
ser interrogada pelo fato de estar conversando com Soninha. Disse-lhe que achava
isso um absurdo e que me fizesse compreender o mal existente . Ela respondeu-me com evasivas, dizendo que um dia
eu compreenderia o valor de aprender a seguir regras preestabelecidas. Não
concordei com minha mestra, mas como pretendia realizar o desejo secreto de
conhecer o outro lado do enorme colégio
, calei-me para não chamar atenção.
Muitas vezes, durante aquele período de minha vida, senti o contraste
nas coisas que aprendia e na prática
do dia a dia. Não tinha mais do que dez anos
e experimentava um estranho amargor
ao verificar o que
considerava , na época uma injustiça e mais ainda pela sensação de impotência
que muitos anos depois viria a sentir em vários acontecimentos tristes
e que naquela fase não sabia definir nas minhas reflexões o termo
apropriado.
Foi num dia que me parecia igual aos outros que resolvi realizar o sonho
de muitos meses. Nunca irei esquecer a sensação de leveza e expectativa que me
dominou nos momentos que antecederam a minha exploração pela área
desconhecida e, no entanto quanto mais se aproximava o momento da minha
indisciplina e um medo latente aflorava, mais eu me sentia empolgada.
Estava acostumada a andar pelo colégio e gostava disso, porém naquele
dia não sei como havia conseguido uma desculpa para sair da aula momentos antes
do seu término.
Costumava correr por aqueles caminhos conhecidos, mas sempre com a presença
de um adulto a alguma distância. Assim foi com uma sensação de liberdade que
cheguei ao local de várias dependências que se posicionavam na parte mais alta da enorme escada.
Com o coraçãozinho batendo fortemente, as faces em fogo e os olhos
atentos e exploradores deparei-me em
primeiro lugar com uma sala de estar decorada com gosto e sobriedade e em
seguida uma pequena biblioteca que me fascinou
enormemente e que jamais esquecerei. Lembrava da enorme biblioteca do colégio,
onde gostava de ficar e aquele simpático e acolhedor ambiente me conquistou
imediatamente, exatamente pelo contraste impressionante e pela elegância
natural que transparecia.
Quando ia encaminhar-me para outro lugar do singular pavilhão deparei-me
com Soninha a olhar-me de maneira insólita no corredor largo e curto.
Nesse momento arrependi-me realmente daquele passeio idealizado. Ela me
fitava com medo.
E
senti que me julgava uma traidora pelo modo como a arriscava.
Não queria acreditar naquele olhar e, no entanto a despeito de tudo eu
fazia isso por amizade e carinho. Queria demonstrar que éramos iguais, que
todos eram iguais. Ela não compreendera? Lentamente voltei-me aguçada pelo
barulho que ouvira e vejo minha mestra aproximando-se
lentamente no portal do tranqüilo
corredor , agora tão assediado.
A sensação de que tinha perdido uma causa e uma amiga pressionava meus
ouvidos e notei que as lágrimas envolviam meus olhos com um
inexplicável atordoamento.
Não sentia nem um pouco de medo de qualquer punição, apenas não tolerava
parecer inconseqüente à pequena
órfã indefesa.
Mas
ela aproximou-se de mim e com um
raro sorriso imensamente doce tocou em meu braço.
- Não chore, não, por favor. Não importa o que aconteça. Sei agora que
- Somos todos iguais e que a única coisa que nos separa é a
falta de amor de algumas pessoas. Mas só algumas...
Olhei-a abraçando-a enquanto minha mestra se curvava e segurava nossas
cabeças juntas , trazendo-as de
encontro a seu peito sem coragem de falar.
Muitas vezes iria me lembrar disso com indizível carinho e mais tarde,
muito mais tarde, quando fui visitar meu colégio, deparo com uma jovem irmã,
que não estudara tanto quanto as freiras titulares, mas que cuidava da
portaria.
Olhando-a, revi debaixo da touca religiosa, os olhos estrábicos, porém imensamente ternos e incrivelmente bonitos da pequena órfã.
Depoimento
real omito, porém, nomes verdadeiros para preservar-lhes a privacidade.