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JandiraJandira não me chamava atenção. Na verdade, nem havia reparado nela por muito tempo. Chegava aquele colégio, às vezes de carro, às vezes caminhando. Levava e buscava meus filhos, tarefa que nunca delegara a ninguém. Era bom ouvir suas novidades, tudo que aprenderam, suas queixas, seus olhares de procura. Não prestava atenção às outras pessoas. Estava sempre muito apressada entre minhas tarefas de mãe e meu trabalho. Isso me deixava pouco tempo para tudo o mais que fosse. Foram anos de correria, angustia de o dia acabar, sem ter cumprido metade do que me propus a fazer. Naquele dia havia me aborrecido e estava mal comigo mesma. Passei por Jandira e estava ela a cantar, recebendo as crianças alegremente, numa alegria que me incomodava. Aquela música chegava aos meus ouvidos e pensava como uma pessoa poderia, tão cedo, estar neste nível de satisfação. Deixei as crianças, passei novamente um rápido olhar e lá estava Jandira, abraçando, beijando cada aluno que chegava. E cantava... Entrei em meu carro em direção a meu cotidiano. Mas por uma razão qualquer, Jandira não saía de meus pensamentos.E agora ocupava reflexões mais íntimas. Perguntava-me a razão de tal preocupação. Talvez admirasse aquela pequena mulher, que agora, já me transmitia uma força que gostaria de possuir. Por uma razão que desconheço, talvez algo que carecia de solução urgente, meus pensamentos foram desviados e não pensei mais nisso. À hora do almoço, como sempre, retornei ao colégio e lá estava ela, distribuindo sorrisos, que contagiavam todos. Por mais que não soubesse por que, sorri também. E aquilo me fez um bem enorme, transformou aquele momento. Olhei para meus filhos, lindos, saudáveis, carinhosos e cheios de vida e pensei em como fui abençoada por Deus. Deus... Dei-me conta de que não havia rezado naquele dia. Saíra apressada, sem nem mesmo me alimentar. Tinha uma reunião marcada logo no início da manhã, teria que deixá-los mais cedo um pouco. Então, balbuciei um “Pai Nosso”, louvando por minha vida, por pensar, por existir, por aquele sol que me enchia de alegria. Meus olhos pousaram, de longe, em Jandira. Lá estava ela, pequena, franzina, fazendo sua tarefa, de forma feliz e sem imaginar que transmitia uma onda de amor por aqueles que passavam, conversavam com ela, ou apenas trocavam olhares. Não pude sair imediatamente. Fiquei observando... Vestia um uniforme que deixava entrever, uma blusa já desgastada. Olhei para o céu, e vi o Cristo Redentor, de braços abertos sobre a cidade. Calmamente fiz uma oração por Jandira. As crianças, em total algazarra, no banco traseiro, me perguntavam por que não partia. E riam, implicando umas com a outras. E eu, mal os ouvia. Rezei por esta mulher que, sem saber, espalhava amor por onde passava. Não que eu achasse que ela necessitava mais do que eu, muito pelo contrário. Pedi a Deus que as agruras da vida, os obstáculos, não tirassem dela aquele vigor, aquela capacidade de tocar o coração das pessoas sem ao menos falar. No dia seguinte, fiz questão de entrar no colégio. E lá estava ela, na mesma disposição que já era conhecida. Aproximei-me, perguntei o seu nome. Ela me sorriu, dentes maltratados, mas seus olhos acompanharam aquele sorriso. Disse-me que se chamava Jandira. Consegui então conversar um pouco com ela. Perguntei-lhe como conseguia estar assim bem, sem deixar que o cansaço do dia a dia a desanimasse. Respondeu-me que simplesmente retribuía o grande presente da vida. Morava bem longe e tinha que acordar, bem cedo, para ali chegar. Filhos para cuidar, tarefas domésticas e um marido que mal lhe dava atenção completavam seu dia a dia. Daquele dia em diante passei a conversar com ela um pouco, antes de me dirigir ao meu trabalho. E durante vários momentos de minha jornada, lembrava de seu sorriso, de sua fibra e isto me fazia feliz. Amava minha vida, minha família, mas ela me ensinou a prestar atenção aos tesouros que tenho. Ela me ajudou a reconhecer o grande milagre de simplesmente viver. Aprendi também com ela, a sonhar, fazer planos e não deixar que pequenos aborrecimentos impeçam que desfrute tudo o mais a minha volta. Jandira continuava seu trabalho. Recebia as crianças à porta do colégio. Espalhava alegria. Não sabia que distribuía muito mais que sorrisos. Em sua ingenuidade, sem nem mesmo o saber, passou a ser uma pessoa indispensável em meu dia. Jandira, para mim, era exemplo de coragem, determinação. Seu maior trunfo? Um sorriso franco e aberto. Tinha as decisões nas mãos e a confiança no coração. |