|
|
|
Mundo MelhorEra muito pequena. Um dia de sol, como tantos outros. Mas não estava um calor sufocante. Sentada num dos degraus da escada, que ligava a varanda ao jardim, apreciava todo aquele quadro, com olhos infantis de busca, de inquietação, de admiração. Era setembro, mês que particularmente gosto, por seu ar de chegada de um período ameno, em que o céu assume um colorido especial. O sol, de manhã, vai se aproximando, aos poucos, acariciando as pessoas que já estão nas ruas, nas praças, nos jardins, dando vida e emoção à nossa cidade. Ele também vai acordando, suavemente, os que ainda permanecem na indolência, procurando tirar proveito do momento inebriante do renascer, tendo a imensa luz desta estrela que nos chama à vida, sempre, infalivelmente. Volto ao meu tempo de criança. Era setembro, período de transição, entre o inverno que se despedia e o verão que se iniciava, trazendo com ele, indubitavelmente, uma alegria que se renova a cada ano. Posei os olhos no portão de minha casa. Meu coração infantil podia imaginar tudo. Como era bom sonhar! Minha casa era bonita e aconchegante. Não o seria, sem o amor que emanava de palavras e atitudes de meus pais. Não o seria, sem os gritos animados de meus irmãos, a correria, a algazarra tão características daquelas manhãs familiares. E aquele portão... Verde, por onde meu coração entrevia um mundo pleno de possibilidades, a transição entre o aconchego e segurança do lar e o movimento rumo a construção de vidas, realizações, decepções, frustrações, oportunidades... Ou a falta delas. Era feliz, imensamente feliz. Observava de longe toda minha família. E senti nitidamente, talvez pela primeira vez, a certeza da existência de Deus. Não era um mundo colorido, da fadas, perfeito, inexistente. Tínhamos, evidentemente, nossos momentos de dor, de desentendimento, de discussões. Mas, o que mais me chamava atenção, naquele momento, era o amor. Transição... Portão verde... Cresci. Transição... Esta palavra sempre teve um grande significado em minha vida. Tudo pode ser mudado, projetos reformulados. Penso no mundo, hoje bem mais amplo do que em meus devaneios infantis, mais tangível. Meu pai sempre nos apresentou um leque de possibilidades, tão variado! Nada seria impensável, desde que estivesse apoiado na ética, nas boas intenções, no respeito ao próximo. Esta era a estrutura que me fora apresentada, desde os mais tenros anos. Hoje, em minhas atividades, inseridas na minha maturidade, vejo que meu mundo infantil é possível. Está longe... bem longe, mas não inatingível. Necessita-se uma reformulação de prioridades, uma visão mais ampla das necessidades humanas, um convívio maior com pessoas, que sofrem, que choram, mas que ainda assim, têm sonhos e esperanças. Vejo o mundo com grande potencial e nele estamos nós. Tomo consciência do valor das palavras, dos atos, do aconchego, da partilha. Queremos mudá-lo, num instante, como se tudo fosse uma questão de mágica, de um milagre pelo qual sempre esperamos. Isto sim, é impossível. Nada disso... Sei que muitos passam fome, sentem a dor do vazio, da carência, do abandono. E aí, me pergunto, se é possível a tal felicidade. Vejo-a no horizonte, distante de minhas mãos, agora distante de meu coração. E se a felicidade fosse justamente isto? Se pudesse, minha alma descansar, enquanto tanta dor se espalha em nosso habitat, seria algo ruim, indesejável, pobre. Amo esta angústia que toma conta de meus pensamentos. Indago-me o que fazer. O mundo será mudado na alma humana, no âmago de cada um. Sem isso, seria inviável tal transformação. É necessário modificar projetos, idealizações. Quando era pequena, recordo que se falava muito no ano 2000, novamente a transição, a entrada num novo século. E todos imaginavam máquinas, robôs desenvolvendo tarefas, facilitando trabalhos. Mas... e o homem? Onde estaria ele? Vivi uma juventude, em que se valorizava a tecnologia, os números, representando cifras, como fim. Os jovens escolhiam, em sua maioria, profissões nesta linha de pensamento. Era uma corrida ao “mundo moderno”. E hoje, que assistimos? A esperança se instalar, tímida, fraca ainda, mas como uma semente. E é esta semente que desejo valorizar. Assisto meus filhos, seu amigos, também com o pensamento voltado para uma humanidade mais justa, mais feliz, mais satisfeita. Preocupam-se com o futuro da humanidade e isto me dá esperança. Supreendo-me a escrever, escolhendo temas que passam bem distantes da matemática que abracei, no início de minha vida profissional. Mas tudo tem um encadeamento, e esta mesma matemática me ensinou a lógica de homens vivendo e partilhando dos mesmos meios, dos mesmos fins. Os números poderia ser utilizados para dividir e não acumular. Penso na inclusão de todos, sem exceção. Cada um é diferente, em suas especificidades. E como é bom isto! Penso na fome, no preconceito, na retaliação, em governos voltados para elites e fico triste... Quero e mereço ver companheiros de caminhada, solidários, participantes, refletindo em sua parte numa grande reconstrução. Gosto de escrever, parece que planto assim uma semente. Onde? Em um coração, que seja! Já é um passo, uma verdade a ser expandida, uma vontade de refazer. Um mundo melhor pode ser possível. Depende de todos, depende de nós, depende de cada uma, depende de uma mudança que começa em cada coração. |