Cristina Arraes Moreira

Pelo Que Viver

“As pessoas podem ter muito com que viver, mas com uma freqüência maior, nada têm pelo que viver.” – Soren Kierkegaard

Palavras são vivas. Ilusão de quem pensar que profere algum pensamento e este morre no instante em que nasceu. Há de ter alguém, que o ouvindo, reflete sobre tal raciocínio, mudando, em algumas coisas, conceitos que acreditava arraigados.

O fato de escrever reforça ainda mais o poder das palavras. A lógica, o raciocínio, os sonhos, o devaneio, as mágoas, alegrias, experiências enfim, tudo isto se atrai, formando uma força e uma teoria característica daquele ser humano.

Por isso, o escritor tem que ser conscencioso, mas tem também que seguir o ritmo de seu coração, aliado ao dom do raciocínio. Isto nem sempre é fácil. Mas em certos momentos, é até fácil demais.

Deixando-se levar, sem se impor uma censura prévia, a inspiração como guia, a emoção como caminho... Desta forma, o ser humano consegue se libertar dos grilhões de idéias pré concebidas e pode ser capaz de colocar a alma à disposição da palavra.

Acontece, não tão raramente, antes de escrever, colocar-me em silêncio, entrando em contato com minhas mais profundas sensações. A pressa, que o mundo me impõe, atrapalha muitas vezes. Mas é uma disciplina que venho desenvolvendo. Importante se reconhecer a responsabilidade do que se transmite.

Mas entro em contato também com experiências da vida moderna, que me deixam num lugar estranho, alheio ao sentido que me toma o coração e todo meu viver. Vem então aquele vazio, um sentimento de impotência que se une a um enorme tédio. É o vácuo da própria humanidade, para onde nos deixamos guiar, quando nada nos satisfaz.

Neste ponto, num caminho que, então, não tenho mais volta, deixo fluir meu pensamento, como ondas; meus olhos atentos a tudo que possa ler sobre a existência humana. Como comunicar da forma mais fiel, o que assimilo nestes encontros comigo mesma? E o que atrapalha a total realização dos meus mais íntimos desejos, aqueles voltados para meu mundo interior, mas cujo elo com o exterior jamais deverá ser interrompido.

Foi assim que encontrei a frase “As pessoas podem ter muito com que viver, mas com uma freqüência maior, nada têm pelo que viver” de Soren Kierkegaard. Esta afirmativa acalmou a ansiedade em que me envolvo, quando tenho um pensamento que nem sei de onde começou, e para onde me levará. É como se tivesse entregue a ele. É uma das minhas constantes reflexões, causa de minha vida, causa da natureza e de todos que estão à minha volta.

Soren Kierkegaard foi um filósofo que viveu no século XIX, cujo pensamento era existencialista e escreveu muitos textos, ensaios, novelas, sermões. No entanto sua obra não foi sistematizada como era de se merecer. Defendia um cristianismo baseado na fé e conversão.

Fui em busca de algumas de suas frases, que me deram a sensação de que sua teorias encontravam sentido no mundo em que vivemos, percebido por meu espírito reflexivo.

Para mim, como são atuais estas palavras e como me apresentam explicações das horas incompreensíveis de tédio que me visitam.

Atualmente, procura-se obter, por aquisição de bens materiais, a alegria que todos desejam. Mas é uma sensação efêmera e que vai incutindo no ser humano, a vontade de mais e mais e mais... Para se viver, presume-se, é necessário muito, muito mais do que nossos antepassados. E a variedade também multiplica este consumo desenfreado e que, à nossa vista, é indispensável. Até certo ponto, no entanto, as vertiginosas mudanças a que estamos expostos, nos trazem carências de coisas, que em outras épocas, nem se imaginava. Mas sejamos justos com nós mesmos e principalmente com a essência de nosso ser.

Com isto, deixamos de procurar o sentido de tudo, por que e para que se vive. Esta pergunta leva o ser humano para um caminho de busca que não será satisfeita nos anúncios da mídia, nem em elegantes lojas de shopping.  Também esta não é uma angústia própria de uma classe. Todos vivem neste ritmo frenético, adquirindo objetos em função de uma satisfação pessoal.

Não que se condenem os pequenos prazeres do mundo. Esta atitude de aquisição é um deles. Mas não é somente isto. Quanta alegria traz ao ser humano, a simples observação do por do sol! Em minha cidade, as pessoas se reúnem na Praia de Ipanema para aplaudir o por do sol carioca. Este é um dos mais belos espetáculos de que já participei. Transforma o coração, faz-me vibrar de alegria, apreciar uma beleza que jamais será igual e é, esta sim, uma sensação duradoura.

O silêncio e a introspecção também têm seu valor e leva o homem a se conhecer, a pensar, a encontrar a razão do próprio viver. Esta razão, ninguém conhece integralmente, mas pesquisá-la, entrar em contato com ela, descobrindo-a, pouco a pouco, fornecerá menos com que vivermos e mais pelo que vivermos.

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