Cristina Arraes Moreira

Sou mulher

 A noite já ia alta e eu sentada, vazia, a procura da algo que me completasse. Inerente ao ser humano, existe esta busca, por algo, que por vezes nem se sabe ao certo o que é. Tem-se apenas a certeza de uma viagem, aonde caminhos vão se sucedendo, numa série interminável de fatos que se sucedem e que marcam a vida de cada um.

E eu só, perdida em meus pensamentos, deixando que estes me levassem para longe, onde pudesse soltar minha alma, em completa harmonia com tudo a minha volta. Liberdade inatingível, que me transporta ao mais íntimo de minha individualidade.

E é ali, num canto escondido, só meu, que posso descobrir minha alma feminina que me apresenta um lugar no mundo, que nada nem ninguém possa ocupar.

São estes pensamentos que vêm povoar este oito de março de 2005. Faz-me pensar... Pensar e buscar. Esta sensação da infinita vontade de caminhar.

Já estão longe meus dias de menina, quando entre sonhos e ilusões, fui construindo um futuro. Passeei pelas ruas de meu bairro, onde cada canto me falava da vida. Penso na praia tão linda, com aquele horizonte que serviu de moldura para projetos e fantasias.

E os anos foram passando, mas minha alma feminina era cada vez mais forte. Compreendia que homens e mulheres não podem ser iguais. Vislumbrava meu lugar, dentro deste gigantesco espaço que me cercava.. Sonhava com o dia de grandes realizações.

Mas o que acontecia às vezes me desanimava. Era uma sucessão de fatos corriqueiros que absolutamente não condiziam com o tamanho de meus devaneios. Mas caminhava. Nem sempre era muito fácil.

A passagem do mundo juvenil para o adulto me deixou bem assustada. Vi-me de repente jogada dentro de meus sonhos. E não pareciam tão doces assim, mas muito reais. E apesar de não serem como imaginei, apesar do medo de continuar, sentia-me forte e feliz.  Eram passos meus, firmes ou vacilantes, mas era minha vida que despertava com todo seu vigor.

Hoje vejo tudo de uma outra forma. São olhos mais maduros, caminhos menos coloridos, mas cada vez mais verdadeiros. A mulher em que me transformei, os filhos a minha volta, os amigos que conquistei, a profissão que escolhi, a busca que ainda hoje se faz presente, mais forte e mais serena.

É o mundo feminino que está dentro de mim, é alma feminina sempre a explorar, é o coração que não se cansa de procurar. Vou em frente. Algumas pessoas se foram, outra chegam e marcam minha alma.

Finalmente, a descoberta de Deus, que não sei bem se tem alma feminina ou masculina. Este amor tão entregue, tão único, não pode ser definido.

Sei apenas que sigo, como quando tinha apenas poucos anos de vida e uma imensa vontade de viver. O mundo me convida a dele participar, e, dia após dia, é um novo amanhecer, cheio de surpresas, nada pronto, tudo a acabar.

Minha alma feminina, a cada manhã, se refaz, e procura, e canta e se enche de orgulho da imensa ventura de ser mulher.

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