O retorno
Saí de casa disposto a deixar o álcool. Hoje vai ser a minha despedida. Peguei a garrafa de cachaça e fui à procura de um lugar distante e Solitário, onde não seria visto por ninguém. Deparei-me com um local às margens do rio. Lugar ideal, pois queria despedir-me para sempre, desta droga que matou todas minhas ilusões. Com tranqüilidade abri o embrulho feito de jornal amarelado e retirei uma garrafa que me levava ao delírio. Com um barbante que sempre carrego no carro amarrei bem firme no gargalo da garrafa.
Assentado debaixo de uma árvore, testemunha de minha decisão, bem às margens do rio, segurei a garrafa e atirei-a com muito desespero. Ela ficou flutuando próxima a correnteza. Olhando a garrafa que ficou fazendo voltas e parecia querer voltar, como um autêntico alcólatra, fui entendendo que ela não queria partir sem minha companhia.
Teria que decidir-me e o momento era aquele, mas como era difícil.
Muito difícil, era amiga e companheira no meu dia a dia.
Devo soltar o barbante? Ela parecia dizer-me: Não. Eu a ouvia claramente. Como isto era possível?
Não consigo entender como uma força estranha se apossou de mim e fez me resgatá-la lentamente. Resgatei meu maior inimigo que há quase vinte anos destruiu-me totalmente, levando o que eu tinha e quem eu tinha. Será isto possível? Sim, aconteceu.
Peguei-a. Olhando para ela conversamos. Por quê não comemorar com mais um trago? Com muita facilidade tirei a tampinha e logo traguei o primeiro gole, como era a despedida fui para o segundo.
Admirando a garrafa, rosqueei a tampa e disposto a atirá-la no rio novamente, pensei: se jogá-la no rio vai entrar água na garrafa e estragar a saborosa pinga, mas isto não pode acontecer. Resgatei-a novamente e tomei todos os tragos, até o último.
Já bêbado fui para casa levando apenas a carcaça de meu maior inimigo, nestas alturas, era o meu senhor, o meu rei ou seja, o “Destruidor”.
Em casa começou o transtorno de sempre, palavras do mais baixo calão, gritarias, choro, desespero e ... muita tristeza.
Acordei na manhã seguinte com muita ressaca, arrependimento e depressão.
Na verdade, não sabia o que fazer. Não acreditava em tudo que acontecera, será que estou louco? Meu Deus, o que fazer? Ele me ouviu e amparou-me.
Muito solitário, fui à procura de um amigo sóbrio, ao qual revelei tudo e minha vontade de deixar este vício e meus sofrimentos. Ele me falou do Poder Superior, que é o único remédio e fomos até a igreja, oramos com fervor.
Assim continuei por toda semana. Triste, infeliz, sem meu apoio ilusório.
Como já conhecia o “AA.”, já de outras andanças, agarrei-me ao Poder Superior.
Após duas semanas voltei ao mesmo local, não estava só, pois lá chegando olhei para o céu e clamei com o fervor de minh’alma ao Poder Superior, entreguei minha vontade e minha vida aos seus cuidados.
A outra garrafa que havia levado, atirei-a na correnteza, sem olhar para trás fui embora. Cheguei em casa feliz livre como os pássaros e voltei a freqüentar as reuniões do “AA”.
Hoje, já sóbrio, com minha identidade restituída voltei a viver, ser amigo de todos e novamente feliz.
Silvio
SRS. Em 23/06/2001