
LIÇÃO DE VIDA
Regina
era extremamente bonita quando a conheci.
Criança
ainda, muita criança, fiquei fascinada por sua figura elegante, o rosto
expressivo e os enormes olhos verdes que sempre foram o traço característico
de sua envolvente pessoa.
Além
disso, profundamente humana e sensível, tinha comigo um carinho especial e eu
estava sempre em contacto com ela, pois era secretária de meu pai.
Gostava
de me presentear com pequenos e encantadores mimos, mas era sua presença muito
cativante e extremamente gentil que me conquistavam.
As
histórias que me contava, o companheirismo em passeios, até datilografando
(nesse tempo não existia o PC) meus trabalhos de colégio faziam dela uma
grande aliada.
Tinha
um filho, Luiz, bem mais velho que eu e que possuía como a mãe olhos verdes e
grandes.
Meus
pais tinham grande carinho por ela e era considerada na família amiga de
verdade.
Muitas
vezes ia com meu pai ao escritório e batíamos longos e gostosos papos.
Sempre,
a via acompanhada de um profissional muito amigo de meu pai. E sempre pensei que
ele fosse seu marido.
Gostava
dele também. Era alto, forte e de extrema boa aparência e isso fazia de ambos
um casal perfeito.
Mas
sempre notara que eles evitavam qualquer festa e dificilmente estavam presentes
à noite em qualquer lugar. E quando ela ia o Dr. Carlos não a acompanhava.
Muitas
vezes os via na rua, fazendo compras, mas especialmente Regina era muito
discreta.
Um
dia ouvi comentários que minha amiga era viúva e fiquei espantada. Além de
ela ser extraordinariamente jovem achava que era casada com o homem que sempre a
acompanhava.
Embora
garota muitos fatos me faziam crer que eles eram um casal exótico pelo modo de
se conduzirem, ficando sempre na retaguarda, quer nas conversas, quer no
posicionamento estranho frente às outras pessoas. Não me detinha para pensar,
mesmo porque era criada num ambiente que não se questionava a vida das pessoas.
Com
o passar do tempo verifiquei que a jovem secretária estava estranha e
profundamente deprimida. Perguntei-lhe espontaneamente se algo havia acontecido
deixando-a tão triste:
-
Na verdade tudo está bem, não se preocupe. Não pense nisso.
Olhei-a,
desconfiada, achando que não falara a verdade, porém não insisti.
Continuei
a viver minha vida normalmente entre passeios, obrigações escolares, amigas e
brincadeiras.
Entretanto
era tão evidente a amargura de Regina que comecei a observar mais detidamente,
sem que ninguém percebesse.
Meu
pai ocupava um cargo importante e seus colegas sempre se reuniam cada semana, na
casa de um com as respectivas esposas. Eu não participava dessa atividade e nem
mesmo sabia o nome de todos. Mas comecei a notar que Regina que sempre estivera
presente pelo menos na minha casa não comparecia mais a nada. Sentia pela
pessoa maravilhosa que ela era. Muitos anos depois continuaria a gostar dessa
mulher extraordinária, cuja vida difícil era entrecortada de problemas.
Conclusão
Regina
tinha ficado viúva muito jovem. Aos 24 anos com um filho para criar e sem condições
de sobreviver fizera uma prova ou concurso, não sei precisar e se classificara.
Durante
anos atendera a meu pai que era advogado da empresa. E lá conhecera um outro
advogado, Dr. Carlos que era casado, porém não vivia com a mulher doente e
continuamente internada em hospital para tratamento. Dava toda a assistência a
ela, porém tacitamente não viviam juntos há muitos anos, antes mesmo dela
adoecer. Moravam na mesma casa por causa dos filhos. (Há alguns anos atrás
parece que havia essa espécie de acordo doloroso).
Regina
logo se tornou nossa amiga e meus pais a tratavam com enorme carinho.
Eles
sabiam da vida em comum dela com o Dr. Carlos, porém isso não era uma coisa
que eles tivessem que se envolver. Todos a respeitavam na empresa até que
entrou alguém que resolveu como chamaríamos hoje, praticar o assédio sexual
e ela foi enérgica quando
pediu que ele se afastasse da sua vida.
Revoltado
começou a fazer uma campanha contra a jovem até que praticamente todos ficaram
a seu favor. Sem meu pai saber combinaram que jamais a convidariam para nenhum
evento e alardearam isso de modo
bem claro.
Mandavam
para sua casa bilhetes anônimos e maldosamente telefonavam, falando com seu
filho.
Até
hoje me pergunto como a cabeça humana é capaz de arquitetar maldades tão
frias. E lamento que haja realmente pessoas desse tipo.
Quando
meus pais sentiram algo estranho chamaram Regina e pediram que ela relatasse o
que estava acontecendo. Embora envergonhada a moça contou-lhes tudo. E eles
ficaram realmente chocados.
Resolveram
então bater de frente, porém com estilo.
Planejaram
um jantar para Regina em que ela era homenageada e convidaram todas as pessoas
da empresa e família. O que não podiam deixar é que ela continuasse sendo vítima
daquela espécie de plano de alguém que fora simplesmente desdenhado em seus
intuitos. Que não aprendera a perder e não tinha elegância para isso.
Minha família deixou claro que estariam sendo desconsiderados se alguém faltasse. Ninguém faltou.
Na
verdade tempos depois compreendendo e sabendo do que acontecera admirei ainda
mais essa mulher cuja lealdade fora provada.
Foi
uma lição de vida e meus pais fizeram questão de contar-me com detalhes
enaltecendo o lado generoso do ser humano e ensinando que ódio, rancor e
maldade nada constroem.
Ficou
ao lado do Dr. Carlos até o fim, cuidando dele quando foi vítima do mal de
parckson.
Muitos
anos depois ela ajudou numa situação difícil a mulher dessa pessoa que
transformou durante algum tempo sua vida, sem nada exigir ou cobrar.
É
a minha homenagem a Regina que muito amo (ainda está entre nós) e encheu minha
infância e adolescência de muita ternura e que me parece sempre altiva e
maravilhosa.
Vânia Moreira Diniz