Textos em Prosa

Daniel Fiuza Pequeno

A Casa da Tia Odete
20/02/2001

Tia Odete morava na cidade de Caucáia, uma pequena cidade encostada em Fortaleza. Hoje deve pertencer a grande Fortaleza, mas naquele tempo era considerada longe. A estrada era ruim , de terra batida e os transportes lentos.  Era uma casa enorme, a frente pintada de amarelo canário, as portas e janelas de marrom escuro, e as paredes internas de branco.

Tinha quatro quartos, três salas, uma cozinha, um banheiro, uma varanda que era voltada para dentro, alem de dois corredores largos e longos, isolando a casa totalmente dos muros que a cercavam. A calçada era de cimento queimado, quando batia o sol brilhava, mas ficava muito escorregadia quando molhada, o piso dos quartos eram assoalhos, estavam sempre encerados, o chão refletia tudo, os outros cômodos eram de lajotas brancas, decoradas de azul turquesa, parecia coisa de português, exceto a cozinha que também era de cimento queimado, no banheiro a metade das paredes eram revestidas de azulejos brancos com detalhes em azul, muito bonitos. A casa, não tinha garagem, nem jardim, era apenas uma parede alta que não  dava para ver o telhado, duas janelonas, e uma porta alta divida em duas folhas, no alto da casa,  tinha quatro bocas de jacarés  em formas de calhas, quando chovia  viravam  cascatas, a gente tomava banho de chuva ali. Todos os móveis da casa eram de madeira pura, de uma cor marrom, quase preta, tão pesados que para mexe-los, era preciso muita força. Umas das salas, ficava sempre arrumada, nunca era usada, os quartos, dois tinham janelas para a rua, e os outros dois para o corredor lateral esquerdo da casa.  Todos os quartos tinha uma cama, em cada cama um crucifixo pendurado, dois criados-mudos, com uma moringa e um copo em cima, um guarda-roupa, uma cômoda com espelho, exceto o quarto da tia odete,  que a cama era de casal, e tinha um móvel a mais, que parecia uma pequena capela, cheia de santos e castiçais, e dois vasinhos compridos para colocar flores. Ás camas e ás mesas eram cobertos com lençóis e toalhas branquinhas, de linho, bordadas, impecáveis. Na entrada da casa, no começo do corredor, tinha uma chapeleira e uma mesa pequena com a imagem de uma santa, acho que era santa  Terezinha, duas cadeiras normais e uma de dois lugares, todas de assentos de palhinhas. Na sala principal, tinha um quadro de Jesus Cristo com um coração em  chamas, eu achava lindo, e sempre me apegava com ele nas horas de maior aflição.

Mais ao lado , dois quadros com as fotos dos meus avós, separados, um de cada lado. A sala de jantar era grande, alias todos os cômodos eram muito grandes, e o teto muito alto, não tinha forro, dava para ver o fundo do telhado e os caibros de sustentação, nessa sala tinha uma mesa, doze cadeiras com assentos e encostos de couro, um armário com portas de vidro trabalhado, onde minha tia guardava pratos e talheres, um pote de barro com água sempre  fresquinha. na cozinha tinha um fogão de barro, que usava lenha, e outro de ferro que usava carvão vegetal, uma geladeira a gaz. Uma mesa lateral encostada na parede,  que mais parecia uma bancada. Em cima do fogão a lenha,  sempre tinha carne, toucinho, lingüiça, ás vezes ate peixe, tudo salgado, que iam defumando com a fumaça, como ficavam gostosas aquelas carnes ! Mais ao lado na parede, uma bateria de panelas e utensílios  domésticos, alem de alguns tamboretes, bancos rudes de madeira bruta) e um outro armário bem maior, onde eles  guardavam panelas e outros objetos.

Anexo a cozinha ainda tinha um quartinho, tipo paiol, que servia para acondicionar os alimentos não perecíveis.  O banheiro da casa era o local que eu menos gostava, tinha um medo terrível de ir lá,  era escuro, tenebroso, cheio de  aranhas no teto,  um tanque  fundo, devia conter uns dois mil litros, cheio d'água gelada, e um caneco para o banho , eu achava que poderia cair dentro e me afogar,  o banho era de cuia mesmo, não tinha chuveiro, nem água encanada, a porta era pesada e alta, com um ferrolho de ferro, eu nunca me atrevia a fecha- la , tinha medo de não ter força suficiente para abri-la. Naquele tempo não tinha ainda a luz elétrica da chesf,  a pouca luz que  tinha vinha de um gerador a diesel, que acendia ás sete horas, e a meia noite apagava, por isso todos tinham  geladeiras a gaz. Ás casas tinham lampiões a querosene, aqueles que tem uma manga metálica que vai ficando incandescente aos pouco, mas depois ficavam super claros , eles eram acesos assim que apagavam ás luzes. A varanda da casa era para lado de dentro, cheia de armadores de redes nas paredes,  a gente sempre dormia lá depois do almoço, era a área onde eu brincava, e todos se reuniam para conversar. O jardim da casa ficava no fundo, não sei se era um jardim propriamente dito, mas tinha varias espécies de roseiras, umas plantas que davam flores, e palmas,  alem de pequenas árvores que davam flores amarelas e vermelhas, era um lindeza. Tia Odete cuidava daquilo com muita dedicação e amor, eu  adorava ver os colibris que vinham visitar suas flores e roubar seu néctar. A casa tinha um quintal gigantesco, eu diria que parecia uma chácara, cheia de árvores, a maioria  frutíferas, tinha dois pés de siriguela, dois de caju, um de tamarindo, um de cajá, outro de cajarana, e varios pés de gravióla e ata , alem  das bananeiras que ficavam no fundo  do quintal. A divisa dele,  era feita com cerca de arame, juntava  com outros quintais, dando  a impressão para uma criança de dez anos, de um ar de floresta. Ainda tinha no fundo do quintal o chiqueiro onde ela criava porcos, e um galinheiro com  galinhas, patos e perus .

Na casa residia :  minha tia Odete  meu tio Alves, minha prima Maria, uma tia solteirona chamada antônia, e Raimunda  a empregada da casa. Alem  dos três gatos, zandí, passifal e esfarelado, ( tinha esse nome por ter sofrido um acidente quando era pequeno, quebrou a espinha, sobreviveu, mas andava se arrastando ). A  casa da tia Odete era para mim naquela época, o melhor lugar do mundo, onde minhas fantasias de criança criavam asas, e meus  pensamentos  voavam, o lugar certo para uma criança, um verdadeiro paraíso.

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