Norma, Amiga Especial
Vânia Moreira Diniz

Não sei precisar exatamente quando a vi pela primeira vez. Mas seguramente aos cinco anos já a conhecia com grande intimidade. Era uma figura encantadora, morena de cabelos escuros e longos e olhos impressionantemente negros. O que a distinguia era a meiguice que parecia estar sempre presente na expressão do olhar.. Elegi-a mesmo sem saber conscientemente a minha segunda mãe.

Era noiva de um psicólogo amigo de meu pai e ambos freqüentavam minha casa com assiduidade. Gostava de ficar horas conversando com ela enquanto lia as historinhas infantis que me trazia de presente. Como aprendera a ler muito cedo gostava de usufruir desse hábito agradável em muitas oportunidades. E ela me corrigia os erros que eu cometia pelo aprendizado recente. Ficávamos horas enquanto a jovem interpretava à luz infantil as lendas que enfeitiçavam a cabeça de qualquer criança.

Muitas vezes me falava de assuntos que eu não costumava conversar com ninguém e aprendi muito cedo a inclinação que certas pessoas tinham para a doação delas mesmas, para a generosidade e o esquecimento de suas próprias necessidades. Assim eu encarava minha amiga Norma, porque embora fosse uma pessoa normal com defeitos e qualidades era soberanamente compreensiva em relação ao seu semelhante.

Muito cedo se formara em Assistência Social e parece que escolhera a profissão que se encaixava com seu espírito superior e temperamento acolhedor e terno.Estava sempre se desdobrando para resolver e ajudar alguém com seu jeito bem humorado e prestativo.

Na verdade foi minha primeira professora e sua filosofia abarcante que praticava no dia a dia me ajudaram muito a conhecer a vida, seus percalços, alegrias e sentir prazer nas pequenas coisas que ela oferece. Em algumas ocasiões quando me via triste perguntava-me a razão e concluía com um sorriso deveras encantador:

- Não há motivo. Talvez seja isso. Precisamos sempre ter alguma coisa na cabeça senão começamos a colocar o que não devemos.

Mas sabia ser impressionantemente companheira e aliada nos momentos de tristeza ou quando sentia uma dor acercar-se. O mais comovedor em minha amiga Norma é que ela tinha uma percepção de tudo que se passava e um dia enquanto conversávamos  ela falou:

- Devemos ser mais humanas conosco mesmo. Se você não está bem hoje lhe dê esse direito. Compreenda-se.Aceite-se. E procure com tranqüilidade melhorar o espírito. Sem pressa. Nós temos direito às nossas horas de recolhimento.

Olhava-a encantada por aquele raciocínio tão lógico, mas que não tinha ainda me ocorrido.  Sempre a admirei de uma forma completa porque era especial.

Nada para ela era difícil ou exagerado e tinha sempre uma palavra que me conduzia à reflexão. Sua vida foi plena e bela. Interior e exteriormente mostrava o quanto se sentia feliz e realizada.

Presenciei durante sua vida injustiças e sofrimentos de que fora vítima e apesar dos momentos iniciais de sentimento e dor levantava-se angustiada e já querendo cumprimentar a vida de uma maneira expressiva.

Eu a amei muito. Quando morreu, vítima de um câncer no cérebro, achei que a sua memória jamais deixaria de estar comigo. Hoje sei que é a sua própria energia que me envolve em todos os momentos aquecendo-me de uma luz protetora e diáfana. Orientando-me, querendo fazer-me absorver tudo que conversamos e que ela praticou maravilhosamente. Energia que não se dilui nem se apaga. Energia cujo calor transmite vigor e alento indestrutível.

À querida Norma, minha primeira professora, amiga especial a minha homenagem e o meu carinho...


Preito de Saudade
A uma professora muito especial
Vânia Moreira Diniz

          A notícia me pegou completamente desprevenida. Como poderia imaginar? Como poderia sequer, mesmo nos momentos mais pessimistas, pensar que ainda tão cedo a minha professora-mãe, amiga e aliada em todos os acontecimentos de minha infância e adolescência, estivesse prestes a fazer a viagem definitiva?

          Não a via há muitos anos. Mas isso, ao invés de fazer com que eu tivesse seus belos traços mais apagados em minha mente, os tinha cada vez mais nítidos. Sempre foi assim. Revia-a freqüentemente naqueles corredores do imenso colégio em que estudei, com o sorriso expansivo, o olhar bondoso, a figura esguia e lépida a nos surpreender com a perspicácia inata e a imagem a um tempo simples e imponente.

          Sei que a perdi, pelo menos neste mundo. Sei que a perdi. Só que não consigo compreender isso. E é tanto mais doloroso pela saudade acumulada por todo um longo período. Sinto como nos tempos de criança a sua presença reconfortante e o abraço cujo calor amenizava as feridas infantis e me fazia uma menina privilegiada. Mas o que mais me impressionava, era, sem dúvida, a generosidade que emanava abundantemente dessa freira encantadora que encheu minha infância e adolescência de uma estranha magia. Não que eu estivesse isenta de dores ou tristezas, mas existia uma pessoa inteligente, feliz e extremamente dedicada que parecia ter me adotado como filha. E essa mulher morreu?

          Não consigo controlar a dor e a imensa saudade que enchem meu coração e extrapolam em densas lágrimas de aflição. Ocorre-me que ela nunca me falou dela mesma a não ser evasivamente. E, no entanto sabia tudo a meu respeito e o sentimento de culpa domina-me completamente por ter sido tão egoísta durante aqueles mágicos anos de convivência.

          Recordo-a, alta, o hábito a cobrir-lhe todo o corpo e, no entanto magnificamente majestosa a sorrir com aqueles dentes muito brancos e bonitos e a impressionar alunas e pessoas que dela se aproximassem. Não estou exagerando. Ela realmente era digna da admiração e do carinho de todos.        Lembro-me, entre tantas vezes, de uma que me faz senti-la aqui nesse momento.

          Certa ocasião eu estava muito mal. A dor devia estar estampada em meu rosto. Tinha perdido alguém muito importante e me sentia impotente e triste.

          Ela como sempre se aproximou de mim lentamente, e abraçou-me com uma força reconfortante dizendo-me: _Não pense em nada agora. Procure se acalmar. Sei que é difícil, mas pelo menos tente. Tente  e se sentirá melhor.

          Nunca esquecerei aquele momento. Nunca esquecerei a tranqüilidade que se apoderou de mim  como se fosse o toque suave de um prestidigitador.

          Conheci-a desde muito pequena, quando entrei no Colégio Sacré Coeur de Marie. Era, então uma jovem freira. Recordo-me que senti imediatamente uma empatia profunda, que logo notei ser recíproca. Depois disso ela se tornaria a líder absoluta em meu caminho. Profundamente inteligente, extremamente culta, bondosa sem ser piegas, senhora absoluta de uma personalidade completamente marcante, educadora por opção com formação em ciências biológicas e pós-graduação em educação, pintava maravilhosamente bem, principalmente naturezas vivas. Mère Maria de Assis, como se chamava, era a preceptora ideal para qualquer criança ou adolescente que divisasse um amplo caminho.

          Dos quatro aos dezesseis anos convivi com essa extraordinária mulher e posso dizer que tudo o que aprendi só enriqueceu de uma maneira encantadora a minha vida. Seu exemplo, sua forma eficaz de corrigir ou repreender bem como o carinho imenso que efervescia de seu temperamento exótico, deram-me uma visão nítida e robusta da vida e dos seus percalços. À senhora, minha querida Mère Maria de Assis, amiga, mãe por opção, orientadora, professora incansável, que ia semeando com talento próprio a inteligência nascente de cada criança, meu preito de saudade, de amor e de uma inquebrantável gratidão.

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