Protegida por Um SONHO
Fabiana Barros...

  Os SONHOS têm o poder de proteger o homem de si mesmo, da intemperança do espírito e das tempestades que afugentam e roubam as cores da fantasia, como uma melodia com apenas uma nota musical. A canção que toca no rádio e encanta e enternece o coração do sonhador que a escuta...A vida mostra as trilhas, numa tentativa de salvar da dor a imatura semente que está tentando crescer, vencer a força do vento, mensageiro do destino, um menino conhecedor das letras e rimas de uma poesia chamada VIDA.

  Maria Adelaide era assim...Como qualquer homem imagina...O ideal de beleza e encanto, formosa, cheia de curvas e sonhos que a diferenciavam das mulheres da vila pesqueira onde morava. Lugar calmo e tranqüilo, onde o comum tornava-se esquisito se passasse das seis. Tudo era permitido, mas até os ponteiros do relógio marcarem, exatamente, cinco para seis, depois disto, a vila começava a funcionar cheia de preconceitos e mistérios. E Maria Adelaide era a única a não se importar com o andamento das coisas. Ela ia vivendo, sorvendo os segundos nos copos de água que a rotina ia ofertando para matar a sede de novidades que a cidade não oferecia. A alegria dela, ela ia pescar nas conversas que tinha com os visitantes, ou mesmo com os feirantes que vendiam, além de frutas, fantasias.

   Todos os habitantes de Paraíso diziam que Maria Adelaide era protegida por um SONHO,  um DESEJO maior de se tornar GRANDE, da noite para o dia, por isso ela ficava horas olhando e conversando com as estrelas quando anoitecia. A menina tinha um encanto no olhar... E os mais românticos traduziam o comportamento de Adelaide como pura poesia descalça, livre de conceitos e limites. E ela, toda vez que era indagada onde queria chegar, dizia, sorridente:

- Abaixo do céu e além do mar. Quero chegar onde às estrelas assobiam para o vento, além da brisa que dança sobre os meus cabelos ao anoitecer. Quero viver sem trapos sobre o corpo para que minha alma esteja sempre nua, desprovida de ressentimentos, de preconceitos e vírgulas. Quero ser dona do tempo, só porque ele é livre como o vento que, hoje, assopra o meu destino para além da linha do horizonte...Enquanto o homem tiver medo do próprio reflexo que invade seu espelho, ele não saberá para que veio...E eu sei o que QUERO da vida, curar as feridas com SORRISOS bons...Quero ter o direito de brincar com a sorte e flertar com os desafios que tentarem me intimidar a continuar procurando...Procurando...Buscando um AMOR, o calor dos braços de um amante terno e feliz, a FELICIDADE sem cifras, sem tabus e códigos.Quero ser capaz de decifrar a mim mesma e ao mundo sem dizer muitas palavras.Falar sobre o silêncio apenas com um olhar, amar de trás para frente cultivando sementes ao entardecer e entreter a vida com AMOR, com o mais terno e puro AMOR...

  Quando Maria Adelaide andava nas ruas da pacata cidade a beira mar, os homens e, também, as mulheres paravam de respirar. Alguns respiravam fundo, outros ofegantes pareciam distantes num lugar cheio de fantasias. O vestido esvoaçante e branco que sempre usava, despertava a curiosidade e libido dos habitantes. Maria Adelaide era a VIDA acontecendo e tecendo, costurando, SONHOS e virtudes.

  O mais sábio homem da vila um dia disse, quando ela estava desfilando diante dos olhares curiosos dos vizinhos:

- Um ninho é feito diante da própria sorte que ludibria até mesmo os mais sábios profetas. O AMOR é como um SONHO diante do espocar das ondas do mar. Quem ama sente os dedos, a ponta da alma juntar-se ao coração, a qualquer hora, em qualquer instante. A vida pede movimento, atitude e discernimento. Tudo passa, mas o AMOR e o SONHO ficam para proteger o homem de si mesmo.

  Desprovida de prevenções, de cercas que cercam e impedem a alma de crescer de dentro para fora, Maria Adelaide ia embora quando dissertava suas histórias e devaneios. Ela sentava num banco, gasto pelo tempo, da única praça do vilarejo, mas não pela ambição, apenas pela aspiração dos novos navegantes que tentavam navegar pelas águas lúdicas de Maria Adelaide. Ela contava e recontava suas histórias, falava, pausadamente, como se a mente estivesse costurando os destinos dos ouvintes atentos. Quase todos de boca aberta e, alma pouco dispersa, sorriam de emoção.

  O tempo passou, afinal de contas ele não sabe mesmo ficar calado. È como um compasso ritmado que denuncia a troca de estações. Vai embora o verão e cobre-se o mundo de outros mistérios e temperaturas. Costuras de um tempo bom, de horas que se foram, mas que sempre deixam rastros de memórias, de lembranças coloridas que dão um sentido MAIOR a vida.

  A chuva voltou a lavar a calçada e todos os moradores da cidade se esconderam em suas casas de janelas amplas e vazias, enquanto Maria Adelaide banhava o corpo no chafariz da praça, a chuva invadia sua intimidade sem pudor. E ela deixava que cada detalhe do seu lindo corpo de mulher moça fosse delineado, lavado pela água fria.

  Maria Adelaide SONHA e quer continuar sonhando com uma vida, onde tudo seja maior e o que não for, diante dos seus olhos poéticos, passará a ser, porque viver, antes de tudo, é acreditar que um dia você poderá ser o que bem entender...E Maria Adelaide foi.

  Um SONHO transforma qualquer homem num viajante colorido e desprovido de uma âncora pesada chamada medo de tentar, de arriscar voar ou navegar por lugares, montanhas e mares desconhecidos e distantes...Proteja seu SONHO, para que ELE, amanhã, possa proteger você do pessimismo dos que se acomodam, com o passar do tempo, a serem apenas testemunhas do vento que leva, para bem longe, quem se arrisca a SONHAR...

Fabiana Barros


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