Magistralizando A Liberdade
Otacílio Alcântara

           Um passado de submissão e castração das suas vontades, que lhe tolheram os realces, fez com que a mulher perdesse séculos, ou milênios de anos da sua existência. Aos poucos ela conquistou espaços e começou se mostrar, ser e se fazer admirada e desejada. Mostrou-se encantadora, sábia, parcimônica, atrativa sem se qualificar como sedutora, mas sendo glamourosa, bela e graciosa.. Era tudo isto, muito mais por instinto e indução do que propriamente por maquinações intencionais. Sempre linda, enfeitada, perfumada e simplesmente envolvente pelo conjunto das suas formas e dos detalhes de sua feminilidade, e noviça, como que saindo de uma clausura em busca do seu tempo  e da sua liberdade.

          Nesta fase os mistérios eram a sua principal arma, senão para conquistar, que ela nem tinha consciência, mas para induzir como a criação precisava. Medos, constrangimentos e recatos, eram barreiras e essas dificuldades tornavam-na difícil de ser conseguida e acessada, pois, ela era um fruto proibido. Até as leis divinas foram contra ela e depois vieram as regras tribais, sociais, legais, familiares e as pessoais tão apregoadas desde o nascimento, que corroboravam para que ela fosse a rainha das atenções, o objeto dos desejos, a causa das disputas e a razão das intrigas. O cortejamento era um instrumento de grande valia para um desfecho favorável ao galante, ao príncipe "encantado" e  ao seu felizardo, muito embora as suas entranhas fogueassem de anseios pelo seu oposto. Foi esse um período de grandes canseiras, muitas lutas, grandes guerras e de muitos amores famosos, marcantes e lendários. Adão e  Eva, Cleópatra e Marco Antonio, Sansão e Dalila, Romeu e Julieta e muitos outros.

          Neste 8 de março de 2007 podemos, sem sombra de dúvidas, falar do outro lado da moeda. A mulher saiu da redoma onde fora colocada à força, deixou as prisões sociais, familiares, legais e comportamentais a que era submetida e entrou para o mundo das liberdades, das conquistas, do sucesso, do destempero e de recuperação do tempo perdido. Ela se mostrou, passou a fazer e se expor, compete com competência, é exigente, auto-suficiente, independente, mas é, também, por obra da natureza e da intensidade do seu ser, carente de carinhos, de paparicos, de amor, de enlevos, de elogios e de todo tipo de amabilidades que, mesmo parecendo ser brega, lhe é confortante e lisonjeiro.

          Tirou a burka, jogou fora um punhado de peças da roupa, encurtou, pintou e bordou as que ficaram em uso.  Assim ela se veste mostrando; se mostra escondendo; quer,  luta por isto, fingindo que não quer e buscando querer; se faz de objeto afirmando e protestando que não o é. Disputa espaços, compete com igualdade, é bonita por natureza e excelência, bela por competência, eficiência e esforço, mas se escraviza por si mesma ao brigar com a natureza que lhe impinge celulites que os homens nem vêem; magreza anoréxica que lhe tira o que pegar; ser sarada quando os músculos não lhe ficam bem; ser mandona quando a submissão sexual não deve ser evitada e um montão de outras coisas que lhe oprimem, deprimem, complica e lhe faz uma solitária, caçadora, insatisfeita e infeliz consigo, com os homens, com a vida e com a ordem natural que lhe cobra perfeição, sedução, propagação e perpetuação da espécie de quem ela é a adorável mãe.

          As opressões de ontem não justificam certos excessos de agora. Ela é o par do homem, a bainha da espada, a guardiã do sêmen, o útero da vida, a beleza do ser humano, a gestante da espécie, o tempero da razão, a graça da emoção, portanto, o equilíbrio da ordem e dos comportamentos. Por isto,desejo que o amor reine em harmonia com os atores  deste teatro que encena uma comédia de tantas tragédias, tantos horrores, muitos amores, infindas dores e felizes epílogos. Que a mulher, "bonita por natureza" e bela por sacrifícios e eficiência, neste 8 de março de 2007, receba, por méritos, os eloqüentes respeitos dos homens que, como eu,  lhe adoram, amam e veneram.

          Otacílio alcantara  


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