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Dia Internacional da
mulher
Vânia Moreira Diniz
Apesar
de querer batalhar cada vez mais pelos direitos que nossa classe sonha de forma
profunda
e verdadeira, acho que acima de tudo isso, como digo sempre, está o fascínio
da mulher.
Quando nasci, fui recebida segundo eu soube com o carinho que se deve a uma mulher. Meu pai sonhava em ter uma filha do sexo feminino e torcia para a satisfação desse desejo. Isso foi o que me lembrei ao acordar hoje, recordando palavras do meu próprio pai, há muitos anos atrás. E fui crescendo com aquele senso, que a mulher era algo especial. Na minha família o era, mas aos poucos percebi o quanto a minha categoria poderia ser desrespeitada, quando via, lá fora, acontecimentos e fatos que me perturbavam.
Fui crescendo ao sabor dos contrastes. Na minha casa, embora tivesse conflitos com meu pai, ele jamais foi capaz de levantar a mão para mim, embora o fizesse com meus inúmeros irmãos. E vi muitas vezes meu avô falar, que o mundo só ganharia em progresso e estabilidade, quando uma mulher liderasse o universo.
Minha cabeça dava voltas ao perceber, quanto as mulheres ainda, apesar das evoluções e lutas que se processavam, sofriam com uma subserviência, velada, mas verdadeira, e que existia até nas atitudes menos objetivas, num mundo que parecia não querer acatar esse desenvolvimento. Nem mesmo as leis favoreciam a nossa classe, tão atrasada estavam e a sociedade, de certa forma, aprovava esse caminho.À medida, entretanto que eu crescia começava a sentir um movimento mais e mais vigoroso nesse progresso consciente, que a mulher empreendia. Éramos na verdade uma das categorias excluídas pela falta de verdadeiro horizonte, pelas limitações que eram impostas e preconceitos que machucavam.
Experimentava esse sentimento quando olhava o mundo exterior, que eu queria abraçar cedo e com veemência.E meus pais, embora evoluídos por uma educação que não conferia á mulher certos liames, mesmo assim queriam segurar aquele halo de liberdade intensa que eu almejava. Não queria só compreensão, respeito, admiração, cultura e participação dentro do meu meio compreensivamente positivo. Almejava ir ao encontro de meus ideais, sonhos, talvez utópicos, mas que existiam em mim.Fortes e incontroláveis!
Com o passar do tempo fui encontrando razões para crer na supremacia ou pelo menos na igualdade, que íamos adquirindo paulatinamente. Ainda garota, pude perceber, que era justamente o lado econômico e a luta pela sobrevivência, que ensejariam reais oportunidades à mulher. Desde que nós soubéssemos recebê-las! Desde que com essa liberdade adquirida, conseguíssemos administrá-la e saber o que fazer dela.
Hoje tenho convicção, que é mais uma questão de tempo. A nossa classe já tomou conta de todo um mundo, e lidera em várias posições, as quais jamais os homens pensariam ceder-lhe. É claro que ainda existe preconceito, dúvidas, discriminações, inseguranças, maltratos, brutalidades e principalmente a fragilidade da mulher menos favorecida pela fortuna e pelos conhecimentos, e que ainda não está preparada para isso.
No dia Internacional da mulher, 08 de março, quero poder sentir cada vez mais que transformamos em realidade, os motivos pelos quais empreendemos batalhas, cujo estandarte era sempre conseguir tornar-nos fortes o suficiente. Lutando por um país justo e menos sofredor, e por uma população que consiga também usufruir esses momentos de vitória.
Sinto à minha volta, os fluidos de positividade e vigor que me acompanharam na infância, e nessa oportunidade, comemoro os dias que sobrevieram sempre com uma luz a indicar o caminho certo.
Apesar de querer batalhar cada vez mais pelos direitos que nossa classe sonha, de forma profunda e verdadeira, acho que acima de tudo isso, como digo sempre, está o fascínio da mulher. Um fascínio que ela não pode deixar morrer.Esse fascínio que faz parte de nossa individualidade, da alma e corpo em perfeita harmonia.A maior e mais deslumbrante qualidade que deveria rondar qualquer mulher.Sem isso, não adiantará vitórias e conquistas porque estaremos abortando a mais vicejante potencialidade que possuímos. Só conservando-a teremos a força e a esperança nos combates empreendedores, que tornarão essa data mais esfuziante em sua justa comemoração.
Que dia é Esse?
Vânia Moreira Diniz
Lentamente aproximei-me e a vi em pé na minha sala com o rosto machucado, olhos inchados e vermelhos formando uma mancha roxa nas pálpebras. Ela não me olhou e vendo o quanto estava constrangida puxei-a pela mão e pedi que se sentasse.
Nazaré não se mexeu. Parecia que estava petrificada e algumas lágrimas molhavam seu rosto embora bonito, devastado pelos maltratos.Era alguém que eu visitava na periferia da cidade, levando alimentos e remédios e viera me procurar no desespero.
Havia sido violentada pelo marido, porque simplesmente lhe negara satisfazer-lhe o instinto animal depois de ter apanhado com violência quase costumeira.Contemplando-a, um sentimento de dor e desespero apoderou-se de mim e levei-a então, para o Instituto Médico legal para fazer exame de corpo de delito. E quem sabe se convencer a separar-se daquele animal em forma de homem que consumia seus dias.
Depois de uma manhã atribulada enquanto a levava para almoçar, consegui finalmente que ela dissesse algumas palavras.
- Por que acontece tudo isso? Meus filhos estão na casa da minha irmã
- Onde ela mora?
- Mais longe do que eu. Pelo menos tem uma casinha própria.
- A escola é perto?
- Por sorte sim.Um grupo escolar.
- Nazaré, que pretende fazer agora? Tem alguma idéia? Creio que já percebeu que terá que tomar alguma decisão!
Meu coração estava muito apertado e se confrangeu mais ainda ao ver as lágrimas que voltavam a cair pelo seu rosto machucado. Eu tentava não chorar para não aumentar a sua agonia e foi aí que me comovi mais ainda quando ela me disse:
- Vim lhe procurar porque tem nos ajudado muito, e porque eu não tinha outro jeito. Mas estou morrendo de vergonha! Como vou criar meus filhos sem a ajuda dele, só fazendo faxinas, e nem todo dia?
- Claro que deve me procurar todas as vezes que precisar.Quanto a criar seus filhos, mesmo de longe, ele terá que ajudar e me parece que você sustenta mais a situação do que ele, não? Ele vende suas coisas, bebe, e é violento. Como pensa continuar assim?
Acho que uma das maiores dores do mundo é ver alguém sofrer, olhar para um rosto, cujos traços revelam que são belos e que foram consumidos pelo sofrimento prematuro, como era o caso de Nazaré.
Enquanto a levava em casa e passava por um supermercado para comprar comida, já que sua irmã era muito pobre, ela me disse:
- Vou pensar uns dias no que fazer. E enquanto ouvia alguém perto conversar sobre o Dia Internacional da Mulher, ela ficou concentrada no que diziam, até que me fixando pela primeira vez perguntou com uma inocência digna de comover o mais frio interlocutor:
- Não entendi. Que dia é esse? Existe dia da mulher? Que dia é esse?
Dessa vez foi difícil controlar as lágrimas enquanto eu evitava falar para que minha garganta pudesse engolir os soluços.