
Textos em Prosa
Douglas Mondo
Guerra Santa
Pelas
terras abençoadas ao Médio Oriente, o Cristão lançará homens armados com
paus-de-fogo e matará milhares de bípedes pensantes.
Na
agitação das almas penadas, em sentido contrário à ilusão, caçoará do
restante da humanidade com seu gesto patife e nenhuma razão.
Demonstrará,
em sua tola busca pela solução da quadratura do círculo, como é possível
assar milhares de crianças em fogo lento, num verdadeiro genocídio de nossos
pequeninos irmãos.
O
quadrúpede, dono do exército de mil homens, abençoou seu povo com auto-de-fé
e brindou novos tempos com seu grito de guerra: “Morte a Saddam, esse porco
nojento!”
Blasfemou,
entre vacas e ovelhas, na estrebaria em seu rancho texano de solidão, o quão
seria imortal se matasse o iraquiano a quem chamou de filho de um cão.
Poucos
acreditaram em sua idiota versão!
Debaixo
das sandálias dos seguidores do Alcorão, há crianças e mulheres temerosas
pelos presentes incandescentes que lhes cairão à cabeça, por possuírem mar
negro despovoado de peixes, crustáceos e estrelas-de-verão.
Sob
seus pés há fortuna, gás e petróleo de montão. Razão da cobiça do
amaldiçoado Cristão.
É
a própria morte espalhando energia sob cascos de navios encalhados em mar de
prospecção. Somente isso interessa ao poderoso irmão.
As
Nações Unidas serviram à espionagem sobre as defesas dos seguidores do
Alcorão, na contra-informação de que Saddam não teria gás letal na
carnificina ao povo ocidental.
Informaram
a todos: “O Iraque não possui arma química de exterminação em massa.”
A
seita da inverdade pouco fez da inocente afirmação, ingleses e americanos
bombardearão Bagdá e a morte será apenas palco de show luminoso de televisão.
__”Boa
noite! Esse é o Jornal da Record! Boa Noite! Está começando o Jornal
Nacional! Boa Noite! Essas são as notícias que estarão nos principais
jornais de amanhã: Os Estados Unidos bombardeiam Bagdá!”
Sob
as luzes da ribalta, pés e mãos não mais farão parte de crianças
sorridentes que antes brincavam de amor, na batida fraterna do coração.
Corpos
em chamas arderão. Haverá um dedo solitário que apontará o peito de cada
um de nós e Big Brother falará em cadeia internacional: “Tio Sam precisa
de você!”
Alguns
ainda acreditarão! E a Rússia concordará!
Debruçados
sobre o mapa das nações, na divisão do lençol de petróleo, haverá três
senhores que a todos dominarão: americanos, ingleses e russos, nossos eternos
patrões.
E
finalmente o povo árabe se unirá. Na guerra santa, grande parte da
humanidade sucumbirá.
Num
lamento, entre morte e breve nascimento, uma lágrima cairá d’outro lado do
universo, onde a solidão teima em beijar a face do Santo-Imperador: Deus está
chorando.
Seus
filhos exterminaram crianças, sob vistas cegas de outros homens. A oração
cabe ao orador: “Somos feitos à imagem e semelhança de Deus Pai, nosso
mestre e criador!”
Talvez
não tenhamos sido bons alunos! Talvez nossas almas sejam demasiadamente
impuras para crermos em lições de amor! Talvez ele não tenha sido nosso
professor!