
Poemas
Daniela Resch
Urbanos
Sentimentos
São Paulo , 23 de abril
de 2001
Subo e desça a rua Augusta ,
sábado à tarde , como se tanto fizesse
dobrar a à esquina ou à direita ,
seguir em frente ou voltar atrás .
Pelos óculos escuros
e o rosto um tanto amassado
quem olhasse perceberia que
dormi mal ou demais ,
bebi na noite anterior ,
acabei de chorar ...
ou qualquer coisa assim .
Mãos nos bolsos , unhas roídas
ansiedade .. saudades
olhos .. para baixo ,
sem medo de tropeçar nos solavancos ..
frequentes das calçadas ...
As solas de borracha
amoldam-se com certa suavidade
ás irregularidades do cimento ..
cotidiano fresco .
Com as pulipas um tanto dilatadas
procuro tesouros perdidos ,
... cimento fresco ...
bilhetes secretos ,
alguma jóia ou objeto
que , mais que valor , guarde
uma história imaginária ou real , de amor .
Talvez ... horizontes
entre o emaranhado de edifícios
refletidos nas lentes negras dos óculos
que escondem o brilho ou a intenção , te ver .
A ausência total de maquiagem ,
que , nem pensei em disfarçar .
Vou caminhando devagar , olhando as coisas ,
não as pessoas .. além de você ,
que carrego em meu olhar .
Meu jeito firme , segurando
a alça da bolsa .. sonhos e buscas
com dinheiro escasso , talão de cheques sem saldo
agenda de poucos compromissos , tickets de metrô
algum livro , de poesia , uma foto de criança
cartão de crédito , vencido , e entradas para
teatro ou show , já usadas ... caminhando lado a lado
aos meus desejos , recordações e lembranças ...
passos incertos e corretos
pegadas no cimento fresco de meu coração .
Continuo , com passo decidido
olhando para a frente ,
além do horizonte ,
meus desejos mais secretos ,
nitidez no passo
atrevida falta de artifícios no rosto ,
me sinto livre , deixo apenas pegadas
marcas no caminho , broto
a sensação de liberdade e solidão .
Sorrio para você
surpreso ... sem entender
Recebo um riso seu .
Sábado , de repente , alguma razão .
Não sei o que falar
um cigarro , talvez , café no Ritz , quem sabe ?
Mãos nos bolsos , apenas distraída .. atraída
convite algum , pergunta .. nenhuma .
Sorrisos , encontros inocentes .. sentimentos
terrivelmente urgentes .. n’ alma .
Pela vida , no caminho ,
sempre à espera ... de você
Desejo mais profundo , te conhecer ..
qualquer esbarrão , cheiro ou expressão .
No mundo , quantas pessoas ,
menos você , esquinas incertas.
Algum minuto ou para sempre
tanto faz , alguma razão ou pressão .
estar ao seu lado .... realização
respirando seu ar , palpitação .
Sem jeito , abano a mão
abrindo os dedos , continuo a descer ,
rua Augusta
Sorrio pela terceira vez .
Passos vagos
Cem metros além de você .
cimento fresco , novas marcas .
Sábados de tardes desertas ,
Augusta , certa .
Vou desaparecendo ( nós )
cada qual em seu livre caminho .
Eu e você , os dois ou nenhum de nós .
Cimento novo , projeto de vida .
Olhando no futuro minuto
para trás , procurando , quem sabe
algum vestígio , um resto qualquer
um do outro .. pela velha rua deserta .
Pegadas de cimento
já endurecido pela solidão .
Sábado à tarde ... perdas , sensações
momentos especias , não ou sim
costumam deixar rastros , já assumidos
sumidos em esquinas de ladeiras súbitas
calçadas maltratadas pelo amor ... .
Acima de nós ... nuvens de concreto
densas , esconderijos de você ... meu anjo
Céu de chumbo , próximo segundo
chuva ... rajada ...
lavando ... rasgando .
Me acordando
pensamentos .. ou quem sabe
apenas sonhos
te ver passar , novamente .
ou pela primeira vez.
Eu galgando você , entre marcas ,
cicatrizes de amores
eterna saudades .
Eu perdida
Pegadas vestígios
de alguma solidão ,cheiro
ou até alguma expressão ...você
tatuado em meu caminho ..
Minha busca interna , eterna .