
TESES
Vânia Moreira Diniz
DEPOIMENTO
Ele Venceu as Drogas
Márcia era minha amiga desde muito pequena. Estávamos sempre juntas e uma freqüentava com assiduidade a casa da outra. Nossas famílias eram amigas também por nossa causa.Seu irmão Eduardo estava sempre entre nós. Quase da mesma idade ele integrava embora fosse menino, o grupo feminino que nós compúnhamos.
Era um garoto doce de enormes olhos azuis e cabelos negros com quem todos simpatizavam. Gostava de ficar em meio às meninas e nós não éramos indiferentes à companhia daquele rapazinho tão bonito e gentil. Nunca deixava de trazer quando vinha à minha casa chocolates da Kopenhaguen que, aliás, eu adorava. Só havia nesse grupo que formávamos naquela época três meninos e ele era o meu preferido. Estávamos naquela fase de rivalidade entre os sexos, idade complexa.
Os pais deles eram pessoas adoráveis e a vida da família era estável e agradável. Márcia e Eduardo tinham mais um irmão e nunca os vi brigando, algo, aliás, que me deixava admirada porque na minha casa composta de oito filhos, (dois já morreram prematuramente) embora fôssemos unidos as discussões vez por outra imperavam, deixando minha mãe muito irritada.
Eduardo era um menino de muito espírito. Com freqüência estávamos dando boas gargalhadas. Moravam em Copacabana na Rua Hilário Gouveia, bem perto da minha na Barata Ribeiro. E nos reuníamos quase diariamente revezando as casas. O garoto gostava muito dos meus irmãos, mas sua preferência tendia mais para mim. Meu pai às vezes brincava comigo falando daquele “fiel escudeiro”, mas realmente éramos muito amigos. Tínhamos agradáveis tardes de fim de semana, todos juntos cada um contando a sua história, mas na verdade o mais espirituoso, era, sem dúvida o meu companheiro Eduardo.
O garoto estava sempre de muito bom humor e contagiava a todos com o modo aberto e franco de seu temperamento. Jamais poderei esquecer dos alegres dias em que batíamos aquele papo descontraído e cheio de encanto. Os menores acontecimentos da vida das pessoas jamais retornam e por isso cada minuto deveria ser valorizado por todos nós. Entretanto não sabemos apreciar devidamente essas ocasiões.
Comecei a notar que meu amigo de infância aos poucos se modificava e muitas vezes receei que tivesse involuntariamente lhe ofendido. Quando conversei com ele preocupada, me assegurou que isso jamais aconteceria. Mas ele estava triste. Sentia na placidez de seus olhos azuis uma preocupação que nunca vira.
A casa de Márcia era como se fosse a minha própria. Todos me queriam bem e me tratavam como se eu realmente fosse da família. Por isso eu pude perceber em nossas reuniões costumeiras uma agressividade em Eduardo que me assustou. Ele falara com a irmã de um modo que em oportunidade nenhuma eu vira. E também percebi que atualmente quase não comia. Sempre tivera um apetite devorador e todos nós gostávamos de brincar com ele perguntando para onde ia tanta comida. Ele sorria naquele seu jeito manso e continuava a comer displicentemente.
Naquele dia, Márcia chegou em minha casa chorando e eu fiquei preocupada porque ela era uma menina que parecia não acumular problemas. Sem grilos, como costumávamos dizer.
- Que aconteceu? perguntei muito assustada.
- Ele não está normal. Eduardo, não está bem.
- Por que diz isso? Está doente?
- Não. Não é doente, mas não é ele mais. Converse com ele, Vânia, por favor.
Fiquei realmente muito preocupada com que Márcia me dissera e quando falei com meu amigo ele me assegurou que nada estava acontecendo e que a irmã possuía muita imaginação. Conversamos bastante e senti no garoto um nervosismo estranho e os olhos muito vermelhos. Parecia agitado como se não conseguisse parar ou estivesse angustiado. Não quis insistir.
A vida entre nós já não era a mesma porque Eduardo implicava seguidamente com a irmã, ao contrário do que normalmente acontecia e começava a perturbar aquela camaradagem que era a característica especial de nosso grupo. Márcia chorava seguidas vezes com a grosseria do irmão e um dia a contragosto resolvi intervir:
- Para Eduardo, agora chega. Por que faz isso? Você sempre foi tão legal, amigo e maravilhoso.
Ele olhou para mim e devo confessar que senti um ligeiro receio na mágoa que parecia existir em seus olhos. Não, não podia ser o nosso companheiro, o meu amigo tão encantador, o garoto doce e gentil que crescera ali conosco. Não podia.
Eduardo não me respondeu, apenas sem pedir licença saiu da enorme sala em que nos reuníamos na minha casa e despediu-se de meus pais. Ficamos todos alarmados com a diferença de atitude de alguém que conhecíamos tão profundamente. E tristes. Muito tristes.
2ª PARTE
Dr Júlio, procurou meu pai para conversar sobre o filho. Achava que poderiam trocar idéias chegando a alguma conclusão. O jovem mudara demais e progressivamente.As pessoas o achavam esquisito e ele aos poucos se afastou completamente de nós. Muitas vezes, quando o encontrava, ele tinha sempre um gesto de carinho, todavia eu senti que em certas ocasiões ficava arredio. Parecia não ter um comportamento uniforme.
Começou a fazer um tratamento psiquiátrico e em certa ocasião Márcia debulhada em lágrimas foi à minha casa e nem esperou entrar para dizer:
- Ele toma drogas. Drogas, repetiu quase gritando.
Não pude acreditar. Não, ele. Não. Tinha que Haver algum engano.
- Para, Márcia, não fale isso. Ele só está muito nervoso.
- Acredite, drogas. Foi constatado. Procuraram meu pai.
Foi a minha vez de chorar. Em pé, semi-abraçada com a minha amiga, olhando-a como se estivesse vendo um fantasma eu repetia compulsivamente como se isso pudesse resolver tudo.
- Não é isso. Não é. Drogas, não. Como ele arranjou isso?
- Parece que foi na porta do colégio. Carrocinha de pipocas
Eu olhava estupefata, sem conseguir mais falar.
Meu pai veio nos encontrar nesse estado e levou-nos para dentro. Contou-nos que o pai de Eduardo já sabia. Estavam fazendo um tratamento e brevemente ele seria internado para uma forçada desintoxicação.
Foi muito difícil para todos nós aceitar que o garoto estava passando por um problema tão avassalador. Nós estávamos tão distantes desses problemas com uma vida protegida e cuidada que nem imaginávamos que as drogas já estavam consumindo os adolescentes e jovens como nós. E ficava remorseada ao ver que não fizemos um gesto de carinho ao meu amigo num momento tão complicado para ele. Nem passava pela nossa cabeça essa possibilidade.
Foi um período muito amargo saber que Eduardo estava internado, passando por situação tão aflitiva. Na verdade, naquela época nós nem sabíamos direito o que poderia acontecer. Quando ele saiu da clínica estava muito esquisito e continuamente seu olhar impressionava pelo vazio da expressão.
Meu pai conversou longamente comigo explicando que conseqüências poderiam advir de todo esse processo de desintoxicação e também da falta da droga no organismo viciado. Eu ouvia alarmada com medo do futuro do meu amigo.
Isso atravessou longos anos, eu já tinha uma vida adulta e estava conscientizada que Eduardo continuava a ter os mesmos problemas da adolescência. Não conseguia se livrar disso. Era internado, saía, voltava e continuava dependente. Seus pais sofriam desesperadamente, seguidamente tentando acompanhar o trajeto do filho, sem conseguir livrá-lo desse mal terrível. O sofrimento é indescritível. Ver alguém querido pouco a pouco depauperado pela ação de uma química odiosa, que além de enfraquecer o físico, elimina a personalidade. Dependência é um nome terrível, mas a ação que ela exerce é mais funesta do que tudo.
3ª PARTE
Dona Elza, mãe de Eduardo quase morria cada vez que o filho chegava em casa. Ela jamais sabia onde ele se encontrava e não podia segurá-lo. Afinal já era um jovem adulto. E vi com enorme dor seus pais chorarem várias vezes sem conseguir resolver nada.
Muitas vezes o meu companheiro de infância nos falava nas raras horas de sobriedade:
- Não quero mais estar dependente. Vou conseguir, Deus vai me ajudar.
Eu o abraçava confortando-o pedindo ao Senhor que realmente lhe desse forças para isso. Sua vida se tornara um inferno para todos. E Claro todos sabem, Copacabana não era um lugar de segurança para um jovem que queria livrar-se da droga. E sabíamos que ele vivia nesses lugares onde proliferava o vício, facilitando a sua aquisição. Começou a roubar a própria mãe para adquirir dinheiro, pois o pai procurava restringir o que lhe dava na esperança que ele diminuísse suas investidas.
Foi tudo muito difícil. Os tratamentos continuavam, de novo era internado, emagrecia e seu rosto tão bonito ficava marcado em conseqüência daquela vida desesperada.
Quando o olhava percebia o quanto essa vida lhe havia desgastado. Era pouco mais que uma criança, mas o vício estava acabando com ele. Tornara-se muito agressivo em certas ocasiões e chegava a querer agredir fisicamente pessoas da própria família. Só percebia o que tinha feito quando não estava dominado pelas drogas. Mas aí parecia que sentia mal estar, dores, ansiedade e recomeçava no mesmo ciclo trágico.
Seus pais não sabiam mais o que fazer. Tinha passado por todos e os melhores psiquiatras do Rio de Janeiro e eles não tinham paz de sabê-lo andando pelas ruas com uma turma nada recomendável e que sabedores da situação financeira dos pais induziam-no a comprar cada vez mais drogas.
Não tinha amigos do nosso meio e várias vezes tentara realmente abster-se. Entretanto embora com ajuda psiquiátrica e familiar não superava o desejo indomável. As crises de abstinência apavoravam-no e eu ao lado de Márcia assistia ao drama marcante de toda uma família sofredora e desesperada.
Eu já era casada, mas seguidamente meu marido e eu estávamos lá procurando confortar meus tios como eu chamava os pais de meus amigos.
Não suportava ver meu tio chorar. Ele o fazia de maneira convulsiva e tinha muito medo que passasse mal.
Numa noite em que todos estávamos conversando na sala, ouvimos Eduardo chegando. E olhando para todos nós anunciou:
- Vou parar. Chega. Papai, por favor, pela última vez arranje outro psiquiatra. Alguém que me obrigue a não querer droga nenhuma. Estou apaixonado por uma menina. Ela não admite a minha vida. Preciso mostrar que estou bem, que vou ficar bem.
Era incrível, mas nas várias vezes que surgia uma esperança, Dr Júlio ainda conseguia mantê-la Tinha forças. Durante anos a fio suportara sucessivos sofrimentos, mas não desistira da luta.
4ª PARTE
Eduardo iniciou o combate mais duro para ficar livre daquela vida amargurante e decidiu que daquela vez ultrapassaria qualquer coisa. Qualquer coisa seria melhor do que o caminho que estava lhe levando para o precipício. Foi difícil. Ele nem fora internado, mas seus pais enfrentavam a derradeira batalha. Se dessa vez não desse certo não saberiam mais o que fazer.
Começou o tratamento e suas crises de abstinência foram tão dolorosas que meus tios proibiram que qualquer pessoa o visse a não ser eles mesmos. Nem os irmãos mantinham contacto, tão grande era o caos em que se encontrava.Só nesse momento compreendi o quanto sua força de vontade era indomável.
Pensei que talvez o meu querido amigo de infância tivesse sofrido inutilmente e lamentei que não houvesse usado toda esse alento logo no início. Teria evitado esse sofrimento longo que o consumira. Mas às vezes é preciso se chegar a um limite quase extremo para se ter a noção do que podemos e do que somos capazes. O psiquiatra estava utilizando um tratamento segundo meus tios o mais moderno da época (eu não saberia explicar exatamente o que era). Só sei que as conseqüências eram sofridas, mas definitivas, desde que claro as pessoas quisessem realmente sair do estado catastrófico em que se encontravam. E foi assim com Eduardo. Ele sofria muito. As crises de abstinência eram quase incontroláveis. Mas necessárias.
Nós que ficávamos do lado de fora, mas víamos os rostos sofredores de meus tios imaginávamos o que ele estava passando. Vez por outra se levantava, andava silenciosamente pela casa e ao fim de dois meses embora o tratamento fosse continuar ainda por um período de dois anos, a fase de choque havia passado e ele podia se considerar melhor.
Anteriormente não havia confiado que Eduardo conseguisse a emancipação das drogas. Achava que ele realmente não pudesse ultrapassar as barreiras do vício tremendo. Pensava em angústia no tormento que atravessava cada minuto de sua vida. Previa dias piores e sofria na antecipação do que seria o resto do caminho do meu companheiro de infância dependente e frágil. Todos nós sofríamos intensamente, porém sempre ficava pensando o que seria esse martírio especialmente para meus tios. E como sempre a impotência nos prendia as mãos tornando-nos inertes. Na afeição preocupada subestimara, entretanto a força e galhardia de Eduardo. A revelação viria finalmente.
Quando minha tia me disse que ele estava curado, quando ele mesmo me falou persuasivamente eu mal pude acreditar.
Numa tarde de verão quando me viu abraçou-me com força dizendo entusiasmado:
- Vânia, estou liberto, fiquei bom. Dessa vez nada me fará voltar. Consegui a libertação, querida.
Olhei-o com amor pedindo a Deus que realmente lhe tivesse concedido essa graça. Ele merecia, eu sabia quanto, depois daquele tormento todo.
Segurei suas mãos entre as minhas dizendo:
- Sim, eu sei, tenho fé nisso. Tudo agora é persistir
- Eu vou me casar. Vou levar uma vida normal. Pode se orgulhar de mim.
Sorri encantada com a vida que agora parecia delinear-se generosa com meu amigo. Finalmente.
CONCLUSÃO
Eduardo e Vera casaram-se numa noite de sábado e o sorriso que ele ostentava era o mais sedutor que eu jamais vira. Aos poucos com a recuperação a beleza antiga sugira plena e o rosto arrasado estava radiante e belo. É certo que ficaram seqüelas, mas pelo que ele passara, nada significavam.Com o tempo tudo voltaria ao normal.
Nunca mais vi Eduardo ao menos beber um copo de cerveja. Acostumara-se a se abster tanto, que Vera, a encantadora Vera, sua mulher dizia brincando.
-Só espero, Vânia que ele não se abstenha de mais nada, porque senão sairei perdendo. Todos ríamos, felizes de vê-los tão bem.
Ele venceu as drogas. De verdade. Isso já faz quase vinte anos e jamais voltou a falar sobre qualquer desses fatos dolorosos, a não ser para comentar como fora feliz e como tivera imensa fé em Deus.
Sim! Em Deus e nele mesmo. Ele venceu as drogas.
Jamais agradecerei a Deus o suficiente o que significou para nós todos essa certeza: Bela, forte, poderosa e magnífica.
Vânia
Moreira Diniz
OBS: Os fatos são absolutamente reais e os nomes dos personagens, excetuando o da autora, foram substituídos para preservar suas identidades.