
Causos Mineiros
Eurico de Andrade
Azarado nem um pouquinho
Bentão arranjou namorada. Meio passada da idade mas que dava ainda para uma boa meia sola. Um dia resolve ir conhecer a família da bichinha. Arreia seu melhor cavalo, calça bota e espora, põe o 38 na cintura e se manda estrada a fora. Três léguas. Chega já com o sol baixo, a tempo de assistir ao futuro sogro tirar o leitinho da tarde das últimas vaquinhas magrelas.
Bentão conheceu o povo e, meio sem graça, fica por ali olhando uma coisa ou outra e até capiscando de trivela as belas pernas da cunhada. Sem assunto e sem o que fazer, resolve que tem que ir embora. É muito longe, pode chover, mãe vai ficar preocupada, tem compromisso amanhã cedo e outros babados de desculpa. O sogro e a sogra não concordam. Não querem perder um genro com tanta facilidade.
-
Não senhor! Sem jantá ocê num vai!...
Envergonhado
e a contragosto, mesmo com fome, aceita o convite. A sogra prepara, aliás, já
vinha preparando um senhor jantar. Põe à mesa, além da toalha de crochê mais
chique que tinha, umas louças das mais bonitas acompanhadas de muita faca,
muita colher e garfo de montão. Apetrechos com os quais Bentão não tinha
muita intimidade. Ao ir pra mesa ele nem sabia onde botar as mãos, de tão sem
jeito. Mas assim que o sogro começa com seus papos de vacas e bois e cavalos e
roça e pescarias e diabo a quatro, o Bentão fica mais animado e chega até a
dar um bom desfalque no comestível. Bom mesmo Bentão achou aqueles catocos
de suã. Nunca os tinha comido tão gostosos. Pena que tinham mais osso
que carne. E aquele miolinho!... Ah! Aquele miolinho!... Bentão não resistiu.
Num instante em que não tinha ninguém olhando, resolve enfiar o dedo mínimo
no buraco do osso para retirar o tutano, coisa de que ele gostava demais da
conta, desde menino. Só que o dedo engastaiou no buraco do osso. Antes que alguém
visse sua situação melindrosa, ele enfia a mão debaixo da mesa, esperando
melhor oportunidade e continua a corresponder ao prosório usando uma só mão
para comilança e bebelança.
Foi
aí que apareceu o leão, cachorro grandão e muito chegado num osso de suã. O
danado do bicho foi logo se enfiando debaixo da mesa antes que Bentão o visse e
tomasse algum providenciamento. Leão, sem nem pensar muito, abocanha aquele
osso disponível entre as pernas do visitante e se propõe a sair correndo. Só
que o dedo do Bentão tava ainda no meio do osso, bem preso, já meio inchado. O
baque foi tão grande que o moço foi sendo puxado na marra. E aí sua espora
garrou na toalha de crochê e ele foi arrastando tudo, derrubando pratos de louça
com todos os acompanhamentos. Sogro, sogra e filhas assistem embasbacados à saída
repentina do pretendente. Leão quase come junto com o osso um pedaço do dedo
do rapaz.
Você
pensa que terminou as desgraças do Bentão? Escuta só. Com vergonha e puto da
vida ante tamanha desfeita, resolve ir embora sem se despedir de ninguém. Mas
assim que vai montar no cavalo, com pressa e sem nenhum cuidado, o revólver se
prende em não sei o quê e escapa um tiro dos mais potentes. Cavalo se assusta
tanto que sai em desabalada correria deixando Bentão caído de quatro no meio
da fedentina de estrume e urina das vacas. Todo melecado. O homem não vê outra
solução. Saiu correndo atrás do cavalo, cuspindo fogo pelas ventas e nunca
mais pôs os pés por aquelas bandas.