
Causos
Mineiros
Eurico de Andrade
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Conversa de Banheiro Zaqueu
pegou malinha e marmita com frango e farofa e se mandou para Belzonte. Carona em
caminhão boiadeiro. Chegando à capital, procura a rodoviária para deixar a
malinha, - pois que a matula já acabara -, a fim de sair pela cidade à procura
de emprego. Sente umas coisas na barriga e calcula é efeito da matula. Resolve
dar uma aliviada antes de se aventurar pelas ruas daquela cidade desprovida de
matinho. O revertério aumenta até que ele acha um banheiro, onde entra afobado
e suando frio, quase sem tempo de descer a calça. Assim que começa o serviço,
ouve alguém perguntar: -
E aí, tudo bem? Zaqueu
arregala o olho, olha para cima, olha pra baixo, olha de lado e, logicamente, não
vê ninguém. Tava sozinho na “casinha”, com certeza. Mesmo assim, com medo
do ridículo, mas para não parecer deseducado, responde inseguro um “tudo
bem, uai...”. -
O que você tá fazendo agora? O
Zaqueu foi ficando sem jeito com a situação. Pensou e picisa perguntá? Calças
arriadas, sentado no trono e tendo que responder a perguntas sabe-se lá de
quem. Cruzcredo! Será que achara um conhecido por ali? Justo naquela hora, com
o barro escorrendo feito água?... Mesmo assim, como era homem educado, responde
“óia, tô aqui cagano agora e...”. O outro, apressadinho, nem espera pela
resposta completa e casca outra pergunta: -
Ah é, é?... E a família, vai bem? O
revertério na barriga do Zaqueu tava dos mais complicados. A pergunta veio logo
na hora em que ele se encolhia com a cólica enquanto, sem precisar força, o
barro, farto, descia a jato, respingando água no traseiro. Fiofó ardia de
quentura. Respondeu na marra “vai!”, junto com um gemido prolongado e
choroso enquanto soletrava os versos de uma trovinha escrita a lápis, na porta
do banheiro, bem à altura dos seus olhos cheios d’água: Sentado aqui neste
trono, / Me dá uma tristeza profunda / Vendo a coisa bater na água / E a água
bater-me na canela. E
Zaqueu pensava “quem será esse home?... Será que é meu conhecido?... Será
que tá me veno?...”. Mas logo veio a resposta às suas dúvidas. O indivíduo
parece que tinha um alto-falante na boca. E disse bem alto: -
Olha, aqui ao meu lado tem um cara cagando que me responde a cada pergunta que
te faço. Vou desligar, tá bom? Um abraço! Zaqueu
ainda não conhecia o tal do telefone celular, do qual pode se falar com o
mundo, até quando se senta no trono. |