
Causos Mineiros
Eurico de Andrade
Futebol no Interior
Lá
no interior, também futebol desperta grande paixão. Cada timinho, com camisa
bonita ou feia, vistosa ou descorada, ou sem camisa mesmo, luta bravamente, até
no tapa, se preciso for, para defender seu torrão.
Assim
é que, no sábado de tarde, começaram a chegar a Tabuí os representantes do
Lusitano Futebol Clube, um timinho danado de valente, lá do bairro do Cerrado,
ali mesmo do Bambuí. Chamava-se Lusitano porque o Zezim Mecânico, o dono da
bola e, conseqüentemente, do time, achava esse nome muito chique e bonito, mas
nem sabia o significado da palavra. A turma foi chegando e se ajeitando como
podia para tomar banho ou botar perfume por cima da suvaqueira, já que Tabuí
preparara festa com baile para receber os atletas da cidade vizinha. A
marmanjada caiu na dança, aproveitando os escurinhos do Ranchão do Bia e, atrás
dos esteios e das samambaias choronas, só queria saber de música lenta, assim
pra juntar a parceira nos panos, bem agarradinho, fungando no cangote e deixando
mão-boba passear. Meninas de Tabuí mais assanhadinhas, principalmente em
presença de forasteiros - que, em tese, poderiam, um dia, levá-las a correr
mundo - não deixavam por menos, com os devidos cuidados, já que precisavam
conservar-se incólumes para arranjar marido. Sem deixar de aproveitar o
bem-bom, seguiam os conselhos das mais experientes que ensinavam ó mão-na-mão
pode, mão-naquilo também pode, mas, aquilo-naquilo, nunca, jamé. Só casando.
Ao
fim do baile, com todo mundo de ressaca e cuspindo azedo por causa da qualidade
da pinga adocicada vendida pelo Bia, conservada em barril que um dia guardara
soda, - é pincumel, gente! Da boa! - houve atletas que conseguiram dormir um
pouquinho, ali mesmo no Ranchão, alguns até grudunhados no cangote dalguma
mocinha. Mas nem deu oito horas, tava a marmanjada de pé, com o Zé Tramela, o
ponta direita, nervoso demais da conta com o gosto de cabo de guarda-chuva na
boca e xingando todo mundo iscondero minha iscodidente, cambada de fedaputa!
Os
visitantes andavam pra cá e pra lá, pelas quatro ou cinco ruas da cidade,
sondando o ambiente, reconhecendo terreno e jogando piscadelas, ainda
remelentas, pras meninas. Um frejo quisó.
Mas,
vamos ao que interessa. Houve o jogo. Com muita canelada e muita insubordinação.
Terminou tudo num pífio empate de um a um, com um frango homérico do goleiro
visitante, embora o seu time, o Lusitano Futebol Clube já estivesse com a
partida ganha. Foi uma glória para o sofrido povo de Tabuí o gol marcado pelo
intrépido beque Zizifrido que lavou a honra do time, prestes a ser ultrajada.
Zi, como era conhecido, virou herói. Quando perguntado pelo locutor da Rádio
Tocatudo qual o milagre de um chutinho daqueles virar gol, não teve dúvida em
responder:
-
E eu sei? Só sei que chutei a bola e ela foi fono, foi fono, foi fono...
e, niquieuvi, ela tava lá, dendo gol, sô!...
O goleiro Zafarel, meio
zarolho depois do gol, foi de uma sinceridade piedosa:
-
Ó, sô! Vi quais nada. Só sei que a bola veio vino, veio vino, veio
vino e cresceno... assim que mirei ela, quesse meu oio bão, já bem grandona,
pulei nela mas a merda já tinha passado...
Depois
do jogo, outra festança oferecida pelo povo bão da cidade, com churrasco de
vaca magrela e cerveja quente. Que fez efeito a ponto do Zezim Mecânico chutar
discurso doidimais da conta.
-
Gente! Cheguemo, joguemo, num perdemo e nem ganhemo... só impatemo!...
Gostô Nicodemo?
Os
visitantes, que gostaram foi nada do empate, começaram a se mandar, lá pelas
tantas da noite, em caminhão, feito pau-de-arara, na rural do Tancredo Chuvas
e, pro fusquinha do Zezim Mecânico, o chefão, só sobraram o próprio e o
infeliz Zafarel que ninguém, de pirraça, quis levar. Zezim, bêbado e puto da
vida com seu arqueiro, resolve, também ele, negar carona:
-
Ó, sô! Prestenção! Cê num é dêis? Num jogô prêis? Num frangô prêis,
trem? Agora fica cuêis!...
E
o goleiro Zafarel teve que curtir uma noite solitária e sem glória – e
agora, concovô, meu Deus? Poncovô? - num banco da praça de Tabuí. Convicto
do seu erro lamentava-se, enquanto buscava sono, esse povo é ingrato mesmo,
pensano que sou um compreto inúti. Sou é não. Sirvi ao menos de mau exempro
pros mais novo, uai!... Bispando o dia, teve que arrancar, no dedão do pé
grande, as três léguas até o Cemitério Municipal de Bambuí, onde era o
coveiro e dava expediente dia-sim, dia-não, havendo ou não defunto, num revertério
com o Nicolino, o colega coveiro. Houve luto de uma semana, no Cerrado, pelo
jogo perdido. Faltou pouco pro Zafarel perder o emprego naquela quadra, mas
goleiro do Lusitano ele nunca mais foi.