
Causos Mineiros
Eurico de Andrade
Novidade chega na Mutuca
Cê pensa
que Tabuí é um fim de mundo? É não. É que ocê não conhece a Ingrizia. Lá,
sim. É onde o vento encosta o cisco.
Tem pra mais de vinte anos que dezenove pessoas moravam na Ingrizia e, embora o
povinho de lá comece cedo a fazer
nhanha, - já que a outra única diversão é pescar -, a cada um que nasce,
dois ou três vão embora. A população de Ingrizia,hoje, resume-se a treze
pessoas: o Lazo, a Fiíca, os sete filhos e mais quatro gatos pingados que
não acharam pra onde ir.
Ingrizia fica lá pras cucuias, no entremeio da Serra do Urubu, prensada entre
esta e o Rio Sorongo. Do lado que podia
morar mais gente, sem tanto morro, é mata fechada, onde não andam
jumento e nem bode. O caminho para chegar na Ingrizia éuma tortuosa trilha, de
mais de quatro léguas, subindo e descendo morro, cortando brejos e
tafuiando pelas matas. O povo de lá é tão acostumado a viver só que,
quando chega gente de fora, fica assustado e se esconde. O visitante corre
o risco de chegar naquelas bandas, - isso se não errar a trilha -, e não achar
ninguém.
O Lazo, com sua turma, passava anos sem ir à cidade. Dos filhos, só os dois
mais velhos, Guinel e Laíde, conheciam
Tabuí. Semana Santa. Lá vão eles, com roupinha de ver Deus, em fila indiana,
trilha a fora, ainda de madrugada, para
participarem da procissão do Senhor Morto, organizada pelo padre Anacleto, pro
comecinho da noite. Parada só num córregoou noutro para beber água, molhar os
pés e lavar o suor do rosto. Com cuidado para espantar as piranhas e as arraias
epondo sentido para evitar o ataque da sucuri traiçoeira. Se algum filho
parava para catar araçá, gabiroba, coquinho, ovode passarinho ou algum galho
de peidorreira, depois tinha que correr atrás e, segundo ordem do pai, ficar no
final da fila.
- O úrtimo da fila é quem a
onça sorratera pegapremero, viu?
Por medo, ninguém queria ficar pra isca de onça e só paravam mesmo
quando a fome apertava demais da conta ou quando o decomer era pra lá de
apetitoso. Paravam também por outros três motivos: pras necessidades, -
todo mundo de uma vez -, cada um atrás de uma moita; para comer a matula de
frango com farinha de mandioca, na beira da Lagoa dos Valérios; ou para rezar,
ao pé de cada cruz, um mistério do terço. Chegavam na cidade de terço
garantido, uma vez que passavam por cruzes que assinalavam cinco mortes no
caminho, uma de morte morrida, outra de morte matada e três por morte d'onça.
Mas, naquele dia, assim que terminaram as quatro léguas da trilh e entraram na
estrada esburacada de carro de boi, - com mais duas léguas chegariam a Tabuí
-, logo no começo, uma cruz nova, de peroba. Rezaram mais um mistério do
terço.
Nem bem
andaram trinta metros, outra cruz. Mais um mistério. Logo depois, outra. Todas
de peroba. Outro mistério. E não parava de aparecer cruz... cruzcredo!
Enfileiradas. A cada trinta metros, mais uma. Foi aí que o Guinel protestou.
- Pai, já rezemo quatro terço
e num pára de aparecê cruiz... assim nóis vai chegá pra procissão só amanhã!...
Lazo resolve olhar melhor as últimas cruzes e as acho estranhas. Bem diferentes
das antigas, pois que tinham o pé
comprido demais, desproporcional aos braços e à cabeça, muito curtos.
- Gente, vamo pulá uma cruiz
ô outra! O Guinel tá certo. Num vamo rezá em todas não... que me descurpe
cada
falecido...
Foi aí que apareceu outro ingrediente na história. Amarrados nos braços de
cada cruz, a partir do Capão dos Óculos, -
coisa esquisita -, dois fios de arame ligando uma à outra. Aquilo foi muito
curioso, novidade de primeira, foi bão
demais da conta pra meninada e apressou a caminhada de todos, pois, quando
chegavam numa cruz e viam que tava amarrada com o arame, corriam pra seguinte e
pra seguinte a fim de terem certeza de que o arame continuava.
- Ôta arame cumprido, pai!... Aí
foi que o Lazo entendeu tudo.
- Muié! Fios! Vamos cortá a rezação!
Isso daí num é cruiz! É a tal de luiz eletri qui vi dizê qui tá chegano lá
na Mutuca. Essas cruiz pareceno girafa deve sê pra sigurá esses arame que vai
acendê a luiz da Mutuca... bãobora digero
quisinão a gente num bamo vê nem chero de procissão!...
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