
Causos
Mineiros
Eurico de Andrade
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O
fantasma da sogra Mariana Caiu
lá na cozinha a sogra da Amélia. A velha se estrebucha toda, geme e se mija. Só
as duas em casa. Amélia parte para o desespero, sem prática para a desagradável
situação. -
Meudeusdocéu!
Oquecofaço? Mexe
daqui, vira dali, Amélia desconfia que a velha morreu. Medo provoca tremeliques
naquele corpo acostumado à brabeza da vida. Resolve chamar alguém naquilo que
é arremedo de hospital em Tabuí. Meia hora depois, chega a enfermeira, quase
alfabetizada. Olha, apalpa, escuta, desaperta botões e laços e nenhum diagnóstico.
Agoniada por ver aquela pouca prática vestida de branco, Amélia pergunta, com
receio de ofender: -
Cadê
o médico, fia? -
Ãhn?
Médico?... O dotô só mais tarde... foi socorrê arguém lá pras banda da
Perdição... -
Dona
enfermeira, então vamos tirá ela do chão e levá lá pra cama? -
Não!
Ninguém mexe nela enquanto o dotô não chegá!... é de lei! Como
orde é orde, Amélia, contrariada, engole em seco a petulância da moça e foi
cuidar de mandar recado pra cunhadagem. De vez em quando dá uma olhada na
sogra, esparramada no chão, quieta, como defunto. Agonia e tensão aumentando.
Aí, de tanto confabular com seus botões e doida para baixar o facho da
enfermeira, tomou decisão e chamou a moça, que cochilava num canto do sofá. -
Vamo
botá ela na cama! -
Não!
Ninguém mexe nela! É orde!... -
Que
orde que nada, ô coisa! Iscuta aqui, ô menina, a difunta é minha ou é sua? A
enfermeira abriu a boca, sem ter o que responder e surpresa porque a Amélia já
decretara a defuntice da sogra. Foram a duas e junta daqui, junta dali,
conseguiram colocar a velha na cama. Virara defunta mesmo, já endurecendo as
carnes e fria como gelo. Notícia
correu Tabuí. Povo vem feito mosca varejeira. Boquinha da noite. Vêm também,
de vários cantos da roça, o monte de uma dúzia de cunhados e cunhadas e noras
e noros e, também, os cento e tantos sobrinhos da Amélia, menos o seu marido,
o Lazim, que tinha começado viagem com boiada pras bandas do Goiás. Choro pra
cá, choro pra lá. Lamúrias. Arrependimentos. Bem
antes da meia noite, o povo curioso e esfomeado foi raleando, depois que
acabaram os quitutes, frango frito com farofa, brevidade e a pinga. Ficaram os
parentes, a maioria dormindo amontoada aqui e ali e uns dois ou três fumando um
cigarrinho lá fora enquanto jogavam conversa fora. Lá pelas três, Amélia não
aguentava mais. Tensão, cansaço, tristeza, sono, medo... foi desculpar-se com
a velha defunta. Só as duas no quarto.
-
Olha, dona Mariana, não fica chateada não, viu? Vou dar uma cochilada. A
senhora sabe que sempre fui atenciosa, só faltando adivinhar seu pensamento...
a senhora...
Amélia
tava tão absorta no monólogo, com a mão na testa da sogra, que não notou o
Lazim, chegando da viagem mal começada, por saber da morte da mãe. Ao ver a
esposa com os olhos fechados, falando com a morta, ficou ressabiado, pensando
que a mulher tava lelé, e colocou suavemente a mão no seu ombro, fria pela emoção
de ver a mãe morta. O susto foi tamanho e o grito maior ainda. Sem entender o
que acontecia, pensando em alma do outro mundo, Amélia cascou fora. Saiu em
correria desabalada e só conseguiu chegar até o sofá da sala, onde desmontou,
virando os zoinhos. Só acordou quando lhe deram álcool para cheirar, abrindo
ora um, ora outro olho, desconfiada de que aquela mão fria que tocara em seu
ombro era mesmo do fantasma da sogra Mariana. |