
Causos Mineiros
Eurico de Andrade
Palavra de Bêbado Vale?
Dois
negociantes da cidade grande resolvem sair pelo interior a fora a fim de passar
a perna na capiauzada.
Foi
aí que chegaram em Tabuí, cidadezinha alterosa. Lá num boteco de um cantinho
da cidade, caladinho, sentado num tamborete, estava o velho Vito. Cavalinho
piquira lá fora esperando o dono tomar umas e outras para depois carregá-lo
com toda paciência para casa.
Só
que o velho Vito, capiau desconfiado e esperto, sem nem um tostão no bolso,
estava esperando alguém para também dar um golpe.
Quando
os dois bacanas entram no boteco, tendo visto o cavalinho lá fora, olham
gulosos para o velho. E este, vendo os dois, mira sedento nos olhos de cada um e
faz aquele ar tristonho de capiau sofredor e ignorante. E o Vito, mesmo olhando
a importância dos dois, pensa com os seus poucos botões: "pra quem tá
com fome e com sede duma branquinha, formiga é pimenta do reino. Vô enguli
essas duas formigonas engravatadas..."
-
Não quer vender o cavalo, meu amigo?
-
Vendo uai! Vinte mil mango é o preço dele. Quem pagá leva!
Os
negociantes se entreolham e resolvem executar um plano que já tinha dado certo
diversas vezes. Encher de cachaça o vendedor para levar o animal praticamente
de graça.
-
Não quer acompanhar a gente num traguinho, meu amigo?
-
Carece não, moço! vô injeitá! Responde o velho Vito já arrependido da
resposta. Boca seca. Sede danada duma branquinha queimadeira.
-
Eu insisto, meu amigo! Venha pra junto de nós!
O
velhinho sai, morrendo de humildade, do seu cantinho, e de uma golada só
entorna no bucho meio copo de cachaça e ainda lambe os beiços.
Os
negociantes gostaram da reação do velho e pensam: "já está no
papo". Mandam encher outro copo que o velho Vito entorna novamente de uma
golada só.
-
Quanto é mesmo o cavalinho, meu amigo?
-
É trinta. Trinta mil mango é o preço dele. Quem pagá leva.
Os
dois da cidade grande se olham meio assustados; Pedem mais uma talagada para
tirar a dúvida, e o velhinho emborca tudo de uma só virada.
-
O cavalinho é quanto mesmo, meu amigo?
-
É corenta. Corenta mil mango. Quem pagá leva.
Depois
de mais uns três copos da branquinha, com o velho Vito já bêbado, de quatro e
trocando as palavras, o cavalinho já estava custando setenta mil paus. Os dois
negociantes cada vez mais assustados e ficando sem graça com a história.
Entornam mais bebida no velho.
-
E o cavalinho, velho, diga quanto você quer por ele?
-
Ieu? Hic... quero nada não, moço! Hic... num é pra vendê mais não! Hic...
Ia vendê ele pra tomá uns golo. Já tomei dimais da conta, agora vendo mais
meu amiguinho não, uai! Hic!...