
Causos Mineiros
Eurico de Andrade
Toró não é Garoa nem Dorô é Procissão
A
procissão ia passando solenemente, molenga, pelas pacatas e tortuosas ruas de
Tabuí. Muita gente devota. Vigário, coroinhas, beatas, banda de música e
matracas a matraquear em homenagem ao Senhor morto. Procissão do Enterro. Plena
Semana Santa. Tardezinha. Quase escurecendo.
Povão
todo com velas acesas. Irmandades de tudo quanto é nome acompanhavam entre as
duas alas da procissão, o esquife mortuário. Senhoras piedosas desfiavam as
contas do rosário. Moças casadoiras, véu branco na cabeça, com os olhos
enviesados para a outra fila, a dos homens, onde poderia aparecer algum
candidato mais bem apessoado.
E
lá na frente da procissão ia o Doroteu, vulgo Dorô. Cabelo pretinho, tingido
na véspera, para combinar com o paletó. Era o membro mais devoto da Irmandade
do Santíssimo. Todo empertigado, caminhando mais duro que santo em procissão,
envergando uns enfeites avermelhados por sobre o paletó e o emblema da
Irmandade bordado na altura do peito. Sua função era carregar a cruz, pesada
pra dedéu, auxiliado por quatro ajudantes. Cada um dos quatro segurava uma
corda amarrada à cruz para impedir que ela tombasse deixando o Doroteu em
apuros.
O
peso da dita cuja era tanto que o nosso herói mal conseguia disfarçar alguns
gemidos. Não tinha condições de fazer nenhum movimento, a não ser andar rijo
e vertical como uma estátua, sem nem poder virar a cabeça, igual burro de
carroça.
Mas
tudo ia muito bonitinho, dentro dos conformes, até que começou o aguaceiro. O
toró caiu de repente apagando a velaiada e pondo todo mundo a correr. Tudo no
maior respeito. Muito silenciosamente. Cada um encontrou casa ou um canto
qualquer para não se molhar. O corpo de Cristo achou abrigo debaixo do primeiro
alpendre que apareceu. Até o vigário, o Padre Anacleto, com medo de resfriado,
concluiu que não era nada demais esperar passar a tempestade dentro do açougue
aberto às pressas pelo dono. Ficou lá, paramentado, no meio daquela carnaiada
toda.
Só Doroteu é que não viu o corre-corre e nem a fuga dos seus ajudantes. Não podendo olhar de lado e nem para trás e sem desconfiar do que acontecia, continuou sozinho, tomando chuva no lombo. Da cabeça escorria um caldo preto. Ele nem notava. Todo serioso fez o percurso combinado, realizando por conta própria a procissão do eu-sozinho. Sem velas, sem banda de música, sem vigário, sem gente, sem nada...