Textos em Prosa

Edison Veiga Junior

O cachorro de penas
(monofilosofia em prosa poética)

O cachorro de penas lia o jornal do dia antes do seu dono, e ainda rogava um desprezo quase divino ao defunto poeta imortal João Cabral.

O cachorro de penas fazia xixi no poste que fora desativado pelo Poder Público, visando a economizar os 20% da Lei do Apagão.

O cachorro de penas não mordia ninguém. Mas tinha um estrambólico doido varrido que, para virar manchete de imprensa marrom, mordia o cachorro. E dizia que era bom.

O cachorro de penas adorava o carteiro mas odiava as cartas. Para ele, trocar correspondências  era a maneira mais medíocre de se estreitar os laços de amizade.

O cachorro de penas rasgou todos os tratados de psicologia moderna, defecou em cima da psicanálise e comeu a parapsicologia. Freud explica que ele era tarado por uma cadela que fazia análise.

O cachorro de penas ia ao Mc Donald's e pedia uma tubaína e um pão com mortadela. Diante da exuberante interrogação da mocinha uniformizada, ele latia sem pestanejar: "Não vou pedir pelo número porque não sei contar".

O cachorro de penas olhava a lua e não uivava. Dizem que ele não entendia a magia da lua.

O cachorro de penas freqüentava a 3.ª série do Ensino Fundamental da escola pública. Pedia a volta do latim e odiava matemática.

O cachorro de penas era a favor do contra e vivia varrendo a sujeira para debaixo do tapete.

O cachorro de penas queria ganhar um osso tecnológico, com Internet e tudo, de presente de Natal. Sua mãe lhe prometera apenas um celular pré-pago, caso ele não tirasse notas vermelhas.

O cachorro de penas detestava frases feitas.

O cachorro de penas era um pouco niilista. Tomava café sem açúcar porque achava besteira camuflar o gosto ruim do café com a farinha da cana.

O cachorro de penas não voava. Mas sonhava tão alto que as pessoas chegavam mesmo a acreditar que ele fosse até a exosfera com suas asas natimortas.

O cachorro de penas sempre se perguntava se as agulhas de injeção letal eram desinfetadas antes das execuções. Afinal, o condenado à morte não podia sucumbir e se tornar um póstumo aidético.

O cachorro de penas tiritava de medo do vendedor de hot dog.

O cachorro de penas era a reencarnação do Rei Sol e, portanto, segundo a concepção de alguns filósofos baratos, estava vivendo o carma para pagar pelos abusos de sua corte absolutista.

O cachorro de penas andava cada vez mais taciturno e sorumbático.

Um dia o cachorro de penas saiu para comprar pão e nunca mais voltou.

Dizem que ele morreu atropelado por um caminhão amarelo ou foi caçado pela carrocinha intransigente. Prefiro acreditar que ele fugiu revoltado com o sistema e/ou, em última análise, se matou com dois tiros no coração.

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