
Textos em Prosa
Érica Antunes
A Iconoclasta
Ela andava ouvindo muita música. Música que nem era lá muito da época dela, que ouvia falar “no meu tempo” como sinônimo dos dezoito anos. Achava aquilo meio bobo, retrógrado e cheio de preconceitos. Tempo era tempo e pronto e acabou. E ela era nova, sabia. Mas o tempo dela era outro. Não gostava desse fútil e amplo e cheio de bailes e festas. Preferia ouvir. Que um dia ouviu aquele ditado dos dois ouvidos e uma só boca. Gostava de viver as histórias, as experiências dos outros. Mas pelas dela mesma não morria de amores. O mundo era grande, grande demais para se perder no meio de coisiquinhas. E ela se sentia bem isso: uma coisiquinha de nada. Ao meio-dia o sino da igreja tocava. Tocava, e daí? Daí que ela sentia assim uma nostalgia, uma vontade enorme de sentir a vida, de ver, de esperar. E entrava na alma da própria alma. E punha tocar uma música qualquer. E pensava coisas. Triste ela. Não triste-de-infeliz. Triste sem definição. Triste triste, como explicar algo assim? Triste com rompantes de alegria. Alegre com rompantes de tristeza. Paradoxo? Talvez. Meio esquisita. Mas ela andava preocupada. Muita coisa acontecendo de uma só vez. Mudanças enormes, conceitos inovados, tudo diferente. Crescimento, claro. Mas ela era metódica e morria de medo de brusquidão. Na verdade, queria mesmo era uma “casa no campo”. Queria era “um lugar pra levar os amigos, os discos, os livros e nada mais”, bem como ouvia sair das caixinhas do som. Só isso. Que lembrava da história do pescador. Aquela que tinha o doutor que falava ao pobre nativo: “por que você não vende os peixes que pesca, João?”. E João, no seu ostracismo, respondia: “e daí?” Nossa, que ela pensou isso aí de uma só vez e, no fim, se perdeu no meio de tudo. Que fio estava puxando mesmo? Não adiantava mais, ele se perdera no emaranhado. De novo! Mas, de repente, surgia aquela imagem. Foi no aniversário de cinqüenta anos da tia. Tudo muito rápido. Nascera. Crescera. E envelhecera. Não ela, nem a tia... a mulher! A mulher que estava ali, logo ali, sentada na cadeira de pé torto, perto do viveiro. Uma coisa estranha saiu de dentro dela quando viu a mulher. A mulher sem expressão, a mulher tão-somente. Alta, esguia. Feia. Como se anos de inexperiências pairassem ali. Inexperiências, bem dito! Não casara, não tivera filhos, não estudara, não trabalhara. E então, diria o pescador: “e daí?”. Daí, que ela começava a achar que o pescador não estava de todo certo. Que aquela mulher havia desperdiçado a vida. Jogado fora. Primeiro havia sido a menina. Depois a moça. E agora a mulher. Na verdade, nunca deixou a juventude, continua a vivê-la. Ou a persegui-la. Está lá, com seus cabelos compridos, loiros, olhos verdes. Bonita havia sido. Não mais agora. Não mais. Magra, esguia, alta. Mas corroída, que o tempo havia sido implacável. Permaneceu num estado latente, como se aguardasse apenas uma coisa: o eterno estar. Mas o verbo estar é terrível, passa mesmo. E sobram os marcos, as rugas. Então, a mulher apenas cruza as pernas e toma um copo de guaraná. Nada de mais nesse gesto, não fossem as marcas. Doídas marcas. O vestido de tecido mole, que ela não conseguia distinguir. A sandália baixa. Tudo compondo a imagem de um ser que não vive. Que passa pela vida, somente. E ela imaginou coisas. E ela teve nojo, asco, da figura da mulher. E ela pensou que logo aquela mulher iria sofrer com doenças. E então, quem iria cuidar dela? E ela pensou no vazio dos dias da mulher, sem um carinho à noite, sem filhos, sem netos. E ela pensou no desgosto que a mulher devia ter quando se olhava na frente do espelho. A mulher tinha umas mãos grandes, de dedos compridos. Podia ter dado uma boa pianista. Mas não. Limitou-se a nada. “E daí?” Era de novo o pescador atormentando. Daí que o nada é nada, não é vida. E cair no nada ela não queria. Ela queria vida, queria saltar do trapézio como havia ensinado a amiga-mãe que ela mais gostava. E ela estava prestes a isso. Estava aprendendo. Mas a repulsa que a mulher provocava doía também. Porque ela não queria sentir aquilo e sentia mesmo assim. Tinha nojo de tudo. E então, fixava ainda mais os olhos naquela boca funda, de dentes já não tão brancos. Os olhos verdes fundos também, num retrato de misericórdia. Ela não sabia de onde vinha aquilo que pensava. A mulher era tudo o que ela não queria nunca ser. Era o oposto. E isso a fazia sofrer. Porque pensava que podia se tornar aquilo. E se se tornasse aquilo, não ia se aceitar nunca mais. Porque aquilo era horrível. Sem cabimento. E ela sonhava coisas lindas. Queria filhos. Queria estudo. Queria trabalho. Mas “e daí”? Daí, seu pescador, que ela tinha (e que fique aqui a cacofonia) um objetivo. Daí que ela queria sugar a vida, viver de verdade. E a mulher olhava os pássaros do viveiro como quem olha o nada no horizonte perdido. E ela se perguntava, assim do nada, uma coisa boba e vergonhosa: “será que essa mulher é virgem?” E se condenava por isso. E pensava que pensava que pensava coisas idiotas. E que por assim proceder, estava cada vez mais próxima da figura da mulher. Mas ela queria distância. Uma enorme distância. Que idéia de ficar construindo a vida das pessoas! Que ficasse a mulher pra lá, com sua vidinha pacata, ora essa! Uma palavra! A mulher falava, não era muda! “Aceito”. Um copo de guaraná. Mais um. E outro. A-cei-to. E um esboço de sorriso. Voz meio esganiçada, decepcionante. Piorante, se existisse a palavra. Havia mesmo nascido para isso, um peso morto. Que respirar não era vida. Não no sentido que ela estava aprendendo tão bem. Não! Então a mulher continuava como nascera, apenas satisfazendo as necessidades fisiológicas. E talvez estivesse pior, que nem chorar chorava mais para ter o acalento da mãe. Nada de nutrir a alma. Vazia. Completamente vazia. Um tambor cheio de ar. Imaginava isso e sentia uma terrível comiseração. Queria estender os braços e dizer: “você vive, criatura!” Mas não. O asco dominava. O asco a impedia de tomar qualquer atitude que não fosse a da observação. “Observar para não repetir o erro”, isso já havia ouvido tanta vez da boca daquele professor de história lá nos idos de mil, novecentos e oitenta e alguns. Pois agora era chegado o momento da observação. Pleno. Confuso. Perto. Apavorante. “Não repetiria, não repetiria”, repetia-se para si mesma. E a mulher, quando em vez, pousava os olhos natimortos sobre o bebê de ano e mês. Instinto materno adormecido. Não aflorado nem com um beijo do príncipe. Que devia ter transformado o príncipe no sapo. E matado o amor de vez. Então, olhava o bebê como olhava os pássaros no viveiro. Inexpressivamente. Olhava por olhar. Definitivamente, sentia asco pela mulher. Ser mais abominável! Então não via que aquele bebê era lindo, lindo, descobridor das coisas mais incríveis que existem? Deus, ele andava, e com que alegria seguia um passo atrás do outro, as perninhas ainda meio bambas! E ele sorria, as gengivas ainda desprovidas de boa parte dos dentes, a baba a escorrer pelo queixo! A diferença, a enorme diferença, é que o bebê sentia a vida. A mulher a anulara. Deixara-a presa atrás da porta, bem escondida no mais profundo ego. Calma, agora estava devaneando! Então o ego da mulher era o culpado de tudo? Culpado ou não culpado, o problema era o ego. E podia explicar essa teoria muito bem. A menina cresceu e se tornou moça. A moça viveu e se tornou mulher. A mulher não casou, não estudou, não trabalhou. Foi então que apareceu a dona frustração. Porque as amigas casavam, estudavam, trabalhavam. E então veio a amargura. E então veio a supremacia do ego. A mulher se colocou em posição tão eloqüente que nenhuma outra criatura alcançava a sua graça. Nem ela própria. Tudo era repelido pelo ego. Que o ego dizia: “não, você não é digno de mim”. Mesmo que, nas profundezas dele mesmo – o senhor ego –, soubesse que isso não passava de uma mentira. Podia dizer uma coisa e pensar outra, mesmo que pensasse que não queria pensar. Mas o pensar que não quer pensar é outro campo que não tem explicação e foge à autonomia humana. E a mulher não era autônoma, era vítima da situação que ela própria criara e desenvolvera. Nesse caso, a autonomia se rendera à vontade intrínseca. Um frio de pavor, a mulher sentou perto dela. Céus, que o rabo do olho caminhava para lá e para cá e ela pensava: “eu não falo com essa mulher, eu não falo com essa mulher”, “vai embora daqui, sua besta, que não quero você perto de mim, sua burra”. Tamanho o asco. Tamanha a rejeição. Mas a mulher: “filha, por que é que você está tão quieta aí?” Catarse pura. A mulher lhe dirigira a palavra. Céus, e agora? Fingiu que não ouviu, esboçou um sorriso. Virou para o outro lado. E saiu. Iconoclastia não. A mulher havia de continuar sendo aquilo que construíra. Havia sim. Saiu mesmo. Disfarçando: “vem cá, meu bebê lindo, vem com a tia!” Mas sabe lá se o bebê não sentia o mesmo que ela sentia com relação à mulher! Sabe lá se o bebê não a considerava asquerosa também! Sabe lá...