
Textos em Prosa
Érica Antunes
As Tiras do Chinelo
Era
o fim de uma tarde quente e cansativa. Paula sentia as pernas num formigueiro,
quase as perdendo no caminho. O comércio prestes a fechar e nem se via um
grande movimento naquela véspera de feriado do Dia das Crianças, crise que
chegava até nos brinquedos, fazendo criança virar adulto mais cedo. A árvore
que despejava flores amarelas nas calçadas e nos cabelos dos mais calmos no
andar estava quase pelada já, quem diria?!
Boas
as vésperas de feriado: saía mais cedo, pensava na manhã que passaria
dormindo até mais tarde, no jardinzinho da frente que poderia podar – tinha
até uma rosa bem vermelha desabrochando –, na comida que prepararia com amor
para o marido que deixava de ver nos dias de pão nosso. E o bebê, meu Deus? Lá
estava ele a lhe puxar os cabelos, sorrindo sorriso murcho de boca sem dentes, tão
lindo ele! Tinha o nome do avô, Bernardo... Bernardo Neto... com o tempo
viraria só Neto, o que era uma pena. Quando era solteira, dizia que jamais
daria o nome de outra pessoa à prole, achava que era transferência, uma espécie
de sombra que não tinha vida própria. Mas Bernardo era um nome tão lindo e o
sogro era tão bom que não pestanejou diante da sugestão – quase um pedido
– do marido. E como amava Roberto! Amava tanto que não via como ele andava
feito um pato, as mãos acompanhando a bunda: de lá para cá, de cá para lá.
Quer dizer, via mas não se importava, nem quando ele palitava os dentes, nem
quando mascava chiclete com tanta força com a boca aberta, nem quando falava
"para mim fazer". Roberto era o homem da vida de Paula e Paula só
enxergava isso, mais nada. Tapada para o mundo, aberta para si própria, mesmo
que isso representasse uma extremada submissão. Talvez não fosse a eterna
"amélia" do lava-passa-cozinha-cose, tinha lá uma certa autonomia.
Trabalhava há muitos anos na Escola de Primeiro Grau Dona Isildinha, aquela lá
perto da Vila Sete, recheada de serezinhos não muito bem recebidos pela vida.
Era professora da terceira série e às vezes fazia mutirões contra piolhos,
olhando a cabeça de um por um. Carinhosa e plenamente feliz, não cobrava da
vida o que fosse além da tranqüilidade e da paz de espírito. E lutava para
ser justa e boa de coração, embora não tivesse assim tanta consciência
disso.
Mas,
voltando, Paula vinha do trabalho no fim da tarde de véspera de feriado e viu.
Paula viu, pela primeira vez na vida viu: um casal já idoso, e o chinelo da
velha que arrebentou! Paula viu. Paula viu o que ninguém viu, o olhar
desalentado da senhorinha e a reclamação para o marido: "E agora, João?
Eu não posso ir a pé, você vai ter que comprar um chinelo para mim".
Paula
parou. E a mulher tentou recolocar as tiras, não deu certo. João não tinha
dinheiro, aposentadoria havia acabado há pouco na farmácia. "E agora, João?",
essa fala quase parodiadora do José de Drummond ressoava no cérebro, entrava
pelo sangue, invadia as artérias e fazia Paula rir quase chorando de tanta vida
que guardava dentro de si. De joões e josés vive o mundo. Sentiu uma ternura tão
grande, tão grande, espécie de orgasmo infantil. De repente tinha vontade de
sair dançando na chuva, como aquele ator que foi tão aplaudido um dia fez! E
as pernas da velhinha eram grossas de varizes e ela cheirava mal! E o chapéu se
enterrava cada vez mais na cabeça de João! Pobre João que não tinha dinheiro
e não sabia o que fazer. A senhorinha cheirava a suor e João a sarro. O
cigarro de palha devia mesmo estar no bolso. Tocos de dentes amarelos. Gente da
roça. E a cada observação Paula se sentia mais feliz, como se tudo, de
repente, houvesse despencado diante de si.
Paula
ria tanto e ao mesmo tempo se crucificava: estava rindo da desgraça alheia. Era
má. Má e insensível. Ruim de coração. E rindo, lembrou da história que a
tia-avó havia contado há tanto tempo: eram os dois casadinhos de novo, ele
sisudo, ela nem tanto, e a pose para a fotografia. O tio não queria que a tia
mostrasse os dentes, por demais vulgar naquela época, e dava cutucões,
chamando a seriedade. Bigodudo ele e obediente a tia. Mas a fotógrafa não se
conformava, queria um sorriso... um sorrisinho, ora! Não, que o tio era mesmo
um senhor de família, respeito era bom e apreciava muito. E a fotógrafa
despudorada disse "Olha o passarinho!" e levantou as saias! Que escândalo!
E foi assim que o tio bigodudo e muito bravo acabou enquadrado na maior
gargalhada! Histórias de família...
Tudo
isso apareceu enquanto Paula, parada como uma estátua, fazia brilhar os
olhinhos de alegria diante de João e sua companheira. "E agora, João?"
A tira não parava mesmo, pobre velhinha! João não tinha dinheiro. E as pernas
dela cheias de varizes também se enchiam de folhas molhadas pela chuva
primaveril há pouco terminada. Descalço para casa, mas que falta de dignidade!
E que boa piada para uma véspera de feriado! Contaria aos vizinhos, a Roberto e
ao cachorro: "Lulu, a mulher perdeu o chinelo no meio da rua... quiáquiáquiá!"
O cão olharia indignado e riria com ela e então Paula jogaria o osso longe
para que Lulu buscasse. Tudo normal, tudo feliz, tudo como em todos os dias.
Mas
não. De repente Paula se tomou de piedade. De repente enxergou uma lágrima de
vergonha no fundo dos olhos da velha. De repente João era um desgraçado joão-ninguém.
E Paula teve vergonha da própria felicidade ensandecida. Os dentes amarelos, o
cigarro no bolso, o suor da mulher eram retratos na parede da alma. Era a história
de um povo representada por dois marionetes num fim de tarde de véspera de
feriado, no meio da rua. O protagonista era o chinelo arrebentado. E Paula
esqueceu a dança na chuva e se lembrou de outro filme muito mais triste. Era a
dura e fria realidade. O pão que escapava a cada dia. A crueza da falta de
meios.
Paula
foi à sarjeta. Paula transformou-se em bruxa. Paula-feliz era culpada de tudo.
Porque tinha família estruturada. Porque vivia uma vida sem maiores
transtornos. Porque no fim do mês podia pagar a farmácia. Porque seu chinelo
nunca arrebentava na rua.
Paula
era má. De coração e de alma, Paula era má. E ali, parada, colaborava para a
tristeza da outra. Como podia ser feliz se a velhinha era triste? "E agora,
João?"
Descalçou
os sapatos e entregou à senhora. Saiu a pé de pés no chão pela cidade no fim
de tarde de véspera de feriado. Resgate de si própria.