
Textos em Prosa
Érica Antunes
Bolhas de Sabão
Ando com tremenda dificuldade para escrever. Sento na mesma cadeira vermelha, de frente para o mesmo computador, uso o mesmo programa, mas não sei, de repente tudo sumiu, restou somente o branco da tela que não quer ser nem de leve tocado pelo negro das letras.
Ah, meu Deus! Tanta coisa por dizer e essa impossibilidade armada até os dentes me rouba todas as idéias e o que é pior: a vontade.
Fecho o programa, vejo a página desaparecer, lembro do relógio derretendo que pintaram no início do século, alio a Cassiano Ricardo e seu “conservemo-nos serenos”. Esse relógio por que sempre fui apaixonada passa a me apavorar. Será mesmo isso possível?
Sento debaixo da árvore quase centenária e olho o bosque e seus micos e pássaros. Ah, meu Deus, “cada minuto da vida nunca é mais, é sempre menos”... o vento do fim da tarde toca meu rosto, uma carícia boa de sentir que se transforma, aos poucos, em espécie de temor: por quanto tempo terei chance?
Vejo a chuva de flores do ipê lá mais longe, essa cidade que tem uma árvore para cada quatro habitantes... ah!, queria apenas poder fechar os olhos e pensar que é um sonho, “vestido não há, nem nada”...
Reticente estou e penso intrigada no ser que “é apenas uma face do não ser”. Choro por dentro, um desabafo incessante de quem, por tanto tempo, esqueceu de viver. Por fora franzo a testa e sinto o vento me despentear sem cerimônia nenhuma. As folhas caídas, tapete natural, viram um redemoinho, jogadas para longe, arrastando-se, partes do mundo que são.
Também me sinto arrastar embora o vento, por mais que se esforce, não consiga me trazer para fora. Vou, como a rosa vermelha deixada à Iemanjá nas águas do mar, caminhando rumo ao desconhecido que encanta e assusta.
É, “desde o instante em que se nasce, já se começa a morrer”. O choro de dentro é água por entre os dedos... turva-me a visão, sou apenas uma mulher que morre a cada instante sentada debaixo duma árvore quase centenária.
O frio vai ficando maior, enredo as pernas com os braços, posição quase fetal. Os micos pulam de galho em galho na mesma algazarra de sempre. Micos não pensam em instantes, micos vivem... e só.
Leio um livro qualquer, mais concentrada em Enya que me chega aos ouvidos como um sopro: vai, vive! Quero ser mico, quero apagar os instantes e seguir pelo fio dourado tecido pelas Parcas...
Debaixo daquela mesma árvore permaneço até que o sol, tímido, vai se mudando para outra parte que talvez eu jamais tenha oportunidade de ver. Levanto, então, e vou embora com ele.
Levantando, meu Deus!, percebo que tenho pernas. Posso andar, isso que tanto me doeu há tão pouco tempo é agora um senhor orgulho: posso andar!
Desejo de sorrir sem motivo, de dizer “eu amo você” para quem aparecer pela frente, de nadar, pescar e correr para todos os lugares e para lugar nenhum, só pelo prazer de sentir o sangue pulsar, o coração pulsar, a vida pulsar.
Desejo bem simples de coisas bem simples que esqueci de sentir... talvez uma carência oculta despontando, talvez o aprender a cada instante...
E volta o instante, o aqui e agora, eterna melancolia recheada de negativas. Nem sei ao certo que espécie de proibição é essa, “mas que as bruxas existem, lá isso existem!”
Difícil é volver à realidade holocáustica quando o mundo dos sonhos beira o Olimpo. Ah, pudesse eu me alimentar da ambrosia e do néctar, ganhar um instante mais de desvario...
... mas vem Adélia Prado, assim do nada e me diz, taxativa como ela só: “mulher, eu sou”. Também eu, logo me defendo e estaco, mãos na cintura, acinte ao ar e à terra, ao fogo e à água... ah!, quatro elementos!
Enfrentar é a lei, encarar os lados dos lados dos lados – nem perguntem o que quis dizer que não sei explicar –, não apenas deixar a água escapar por entre os dedos: aprender a observá-la nessa ação.
Viver é se enxergar no espelho quase sem cabelos, ou mais velha, ou mais feia, ou com olheiras de uma noite mal dormida e, mesmo assim, gostar do que vê. Viver é passar diante de uma criança e sorrir o mais puro sorriso, é ver o que há de bom no que há de ruim.
Viver é fazer bolhas de sabão e segui-las até que desapareçam no ar. Um dia, talvez não muito distante, quando meu fio dourado acabar, também desaparecerei...