
Textos em Prosa
Érica Antunes
Doce de Abóbora
-
Tem doce de abóbora com coco, fiz nessa semana, quer?
Como
já havia recusado a massa de pão frita e o café, resolvi ser gentil:
- Hummmm! Adoro doce de abóbora!
Apareceu
a vasilha plástica de tampa suarenta da geladeira:
- Vê se gosta...
Despejou uma tantada numa xícara de chá com uns ramadinhos pintados, trincada, daquelas bem antigas e humildes, e me entregou uma colher:
-
Pega essa de cabo meio torto mesmo, o que vale é o conteúdo! – vi o sorriso
branco da dentadura.
-
Claro, quem liga para essas
coisas?
Sentei
na mesma mesa que sempre vi no mesmo lugar desde que me conheço por gente: as tábuas
meio envergadas pelo correr do tempo, algumas inscrições produzidas pelas
pontas das facas logo depois de chupar as laranjas e fazer das cascas bichos
horríveis, flores do jardim, secretos duendes.
Apanhei
a xícara e, enquanto pus a primeira colherada na boca, pensei se, de fato, o
tempo existe. Tudo num átimo, naquela mesma cozinha e seu mistério guardado em
prateleiras azuis e panelas penduradas. Onde ficariam as tampas?
-
Está uma delícia o doce...
– disse sem sequer ter prestado atenção ao gosto.
-
Gostou mesmo? Pois sabe que
foi açúcar que dava pra fazer seis cafés?
Miséria,
concluí. A que ponto chega o humano: medir a quantidade de açúcar e compará-la
a míseros bules de café...
Ainda
vi o vermicida enfiado na greta entre a parede e o teto. Por ali deveriam entrar
ratos... ou não?
-
Açúcar demais, hein? –
menti calculando a irrisoriedade do que minha tia considerava um disparate.
O
açúcar devia ser do tipo "cristal", daqueles comprados no armazém
ou embalados em grossos sacos plásticos que eu mal agüentava carregar durante
os cinco e os seis anos de idade.
-
Pois então, menina, e o preço
tá pela hora da morte. O governo diz que não tem inflação, mas como, se a
gente nem compra mais nada com a aposentadoria?
A
réstia de alho presa num grande prego e o varal de lingüiças, bem perto do
fogão à lenha, me olhavam com cara de poucos amigos. Quanto devia custar um
pacote de açúcar "cristal"? Fiz as contas de quantos quilos cabiam
no orçamento mensal daquela pobre coitada.
-
Está tudo tão difícil, não,
tia?
A
gata, deitada num velho cesto de vime, dava de mamar aos filhotes.
-
Se tá. Esses políticos só
aumentam os deles e pro povo só dão banana.
Banana
é mais barato que açúcar? Se bem que a banana dita por ela tinha outra conotação...
Minha
tia estava regredindo, era visível. Tornava-se apenas mais uma aposentada que
saía do banco e deixava o parco dinheirinho na farmácia:
-
Sabe que o médico disse que
tô "osteoporose"?
-
Verdade? – disse abrindo
os olhos num susto enquanto pensava na lexicografia da moléstia.
-
Verdade. Agora não posso
mais ajudar seu tio na colheita. Tô proibida, na "forga".
O
tio também envelhecera. Sentado na varanda, passava os dias pitando o velho
cachimbo. Ainda usava chapéu e calçava botinas. Fiapos de história reunidos
nos poucos cabelos restantes, tão finos e brancos como seda recém-saída do
casulo.
-
Mas a senhora precisa
descansar um pouco, tia, já trabalhou muito.
Era
uma escrava lembrada pelos "Demônios da Garoa" numa música tão
popular. Mal se levantava e o tanque se fazia gigante, encarando-a com desdém.
O ferro em brasas, pesado, e as roupas que não acabavam nunca.
Olhou
pela janela, como se visse o nada:
-
É, fia, mas quem é pobre e não nasceu em berço de ouro, só descansa quando
junta os pés no caixão.
Senti
um frio na espinha e de novo a enxerguei velha e carcomida. Naquele canto da
cozinha antigamente ficava um balaio, cadê ele?
Eu
me enganava tentando desviar minha própria atenção, mas sabia que o inevitável
seria mencionado mais uma vez:
-
Você, que é estudada e
sabe das coisas, tem que lutar pra não lavar cueca de marido.
Ah!,
meus sais!
-
Tia!
-
É isso mesmo. Olha pra mim: velha, feia e sem um tostão furado. Se não agüentar
as bebedeiras do seu tio, morro de fome e de vergonha, que no meu tempo mulher
casava pra vida inteira...
Pronto.
Chegáramos no grande tema de novo. O mundo dava cambalhotas e a cena era sempre
a mesma: minha tia em pé, as mãos na cintura, os olhos meio fechadinhos,
metida num vestido de sarja, contando as barbaridades a que era submetida:
-
Pois que ele chegou outro
dia e jogou o prato longe, dizendo que aquilo era comida de cão e não de
gente. E mais tarde quis me bater porque a calça ficou com dois vincos. Já
cansei de pedir um ferro elétrico, mas ele não dá.
Eu
podia aconselhar ou consolar, mas em respeito a mim mesma e ao meu tio, mantive
um silêncio sepulcral.
Terminei
o doce com um nó na garganta, como se colaborasse para as despesas por ter
ingerido aquela xícara de tanto açúcar, açúcar para seis cafés!
-
Estava uma delícia.
Levantei
para lavar a xícara e a louça que se acumulava sobre a pia. Ela usava sabão
de soda ainda! Pude vê-la tal qual sempre vi quando criança: a pá de madeira
na mão, mexendo o imenso tacho de ferro borbulhante do calor da fogueira. Ouvi
nitidamente o "Não chega muito perto que é perigoso espirrar em você"
e todo o suor escorrendo de sua testa.
-
Não precisa lavar, fia,
deixa aí que mais tarde eu lavo.
Deixar?
Jamais! Em seguida, quando a mistura estava no ponto, minha tia despejava o sabão
numa forma de madeira e deixava tudo intocado por dias e dias, até que a
consistência necessária fosse obtida. Era uma alegria essa fase, eu podia
ajudar riscando com um graveto o lugar do corte. Surgiam, então, as barras
quadradas que logo eram dispostas numa tábua comprida que depois era levada ao
alto.
-
Que é isso, lavo num
instantinho! Gosto de lavar louça, sabia?
Mentira
pura, mas quem é que não fala coisas que soam bem ao interlocutor? Eu estava
no universo dela e só me restava essa gentileza.
-
Fia, assim você estraga as
unhas.
De
fato, o esmalte das unhas descascaria. Mas o tempo também descasca os objetos e
as pessoas, bastava olhar para minha tia e seu rosto enrugado de sofrimento. A
diferença é que no dia seguinte eu podia pintar minhas unhas de novo da cor
que desejasse: vermelhas, rosas, douradas, azuis.
...
minha tia já não tinha unhas, tinha o passado tão remoto que chegava a doer.