
Textos em Prosa
Érica Antunes
Espelhos D'Alma
Sinistra é a vida. Nascemos e não vêem a hora que andemos e falemos. Depois é hora de pensar na escola.
Fazemos o primário e não há roupa e calçado que chegue. No ginásio as meninas usam sutiã e menstruam enquanto os meninos engrossam a voz e são surpreendidos por alguns fios de barba.
Chega a juventude e, com as espinhas, as crises amorosas. Meninas que se perdem no espelho, experimentam saltos e vestidos e escrevem diários. Meninos que fazem musculação, guardam preservativo na carteira e aprendem a dirigir.
Depois vem o vestibular, a faculdade e o primeiro emprego. Finalmente o casamento e os filhos. Recomeço de tudo. Talvez apenas mais uma repetição. Não vêem a hora que as crianças andem e falem. Não vêem a hora que vão para a escola: “Mas não venço comprar sapato pra esse guri!” “Esse vestido tá muito curto, menina!”
E assim aparece a tal da maturidade. Junto com ela vêm os complexos, as rugas e os cabelos brancos. Depois ainda uma tal menopausa e outra tal impotência. Vai que um dia, a mulher que nunca pensou na velhice se encontra no espelho d’alma enquanto o marido que cria barriga se afoga ainda mais nas doses de uísque.
Ele não é o mesmo, barrigudo e careca, os pêlos do peito que sobraram estão branquinhos, as pernas afinaram e até as unhas ficaram meio amareladas.
Também ela não pode cobrar muito, os peitos caíram, perdeu a cintura e as menininhas de dezoito anos mostram umbigo. Sobra pele por tudo e os pés-de-galinha saltaram desesperadamente.
Foi Raul quem disse que queria nascer ao contrário? Talvez fosse uma solução, talvez fosse outro drama. Imaginemos se fosse comigo:
A oitava turma das bactérias destruidoras começa a desnascer e meus ossos aparecem. Assim vai até a primeira, quando lá estou, num féretro branco (eu quero que seja branco!), no ar o cheiro de flores murchas e de velas. Gente chorando ou fingindo que chora diante do meu rosto pálido.
De repente eu abro os olhos e vivo. Estou completamente enrugada. Levanto do leito reclamando do “bico de papagaio”, cumprimento as pessoas que ali estão e vou para casa de cadeira de rodas. Lá tomo minha sopa de leite com pão. Estou sem dentes e um odor acre se desprende de mim.
Passa-se o tempo e me aposento. Logo depois estou na ativa, pasta na mão e correria: chega da aula, volta pra aula, chega da aula, volta pra aula. Passam-se mais alguns anos e me formo e logo em seguida estou na faculdade.
Faço vestibular, vou a todas as festas, namoro. Uso calças baixas e mini-blusas. No colegial fico cheia de espinhas, estudo física, química e biologia, escrevo uma porção de diários. Chega, então, o ginásio, e lá estou me descobrindo moça para depois, no primário, me descobrir menina.
Brinco de queima, jogo peteca e brigo com os meninos. Vivo os quatro, os dois anos e logo desaprendo a andar. Engatinho e depois desaprendo também isso. Sou um bebê de colo. Não demora nada para o meu nascimento. Minha mãe fica grávida e depois de nove meses eu já não existo, duas células haplóides que me tornei.
Viver de trás para a frente seria isso. E assim descrevendo a vida, lembrei de um ditado de não sei quem que ouvi não sei onde: “A gente paga pra nascer, paga pra viver e paga pra morrer.”
Que ligação fiz não me perguntem, mas fico aqui pensando nessa história de a gente levantar de manhã e dar de cara com o espelho. “Cadê eu?” É quando se percebe que o tempo cumpre, o tempo cumpre, o tempo cumpre.
Cecília antes perguntou em que espelho perdeu a face. Difícil notar algumas mudanças, às vezes nem tão grandes, mas suficientes para alterar o ânimo. Crise de meia idade, minha amiga diz.
Sempre que ela fala isso lembro do filme “Prelude to a Kiss”. Lá estavam a noiva e o velho. Um cumprimento, um beijo e os corpos são trocados. Ele é ela e ela é ele. Continuam com a personalidade original, mas a moça se vê como sempre teve vontade: velha, cheirando a velho, perto da morte. O velho, por sua vez, revê o viço, a febre da juventude.
Retomando o pensamento, primeiro temos tanta pressa de seguir, de alcançar o auge da maturidade. Depois, o revés invade, queremos estacionar, parar no tempo e no espaço.
Quer saber? Vou é terminar essa crônica agora, antes que o sinistro me apanhe!