Textos em Prosa

Érica Antunes

Jovino-Mandrová

Descalçou a sandália. Cansaço. Sete quilômetros de estrada. Pés doídos. Calejados sim, mas doídos. Sentou-se à beira da varanda. Abraçou os pés. Pés. Aqueles pés. Nunca havia parado para pensar nos próprios pés. Aqueles ali, feios sim, sujos sim, de unhas tortas sim. Aqueles pés que a levavam para cima e para baixo, para o lado e para todo o lugar. O cérebro comandava. Os pés obedeciam. Escravos. Pés escravos. Escravos dominantes, como era possível? Se não fossem eles, estaria lá, encostada como a Dona Maria das Graças, presa numa cadeira de rodas, sem licença para, sequer, ir ao banheiro sozinha. Pés, então, eram sinônimos de dignidade. Mas uma dignidade um pouco às avessas. Que andar a pé era por demais exaustivo. Sete quilômetros, meu filho! Sete quilômetros para quem tem sessenta e oito anos e pouco condicionamento físico é uma viagem! Sorriu consigo própria, sim senhor, sessenta e oito... sessenta e oitinho, ora já se viu! Avó de quinze netos, os mais velhos casados e pais e mães já... bisavó então também era, ora pois! Olhou para as mãos, para os braços. Uma carne assim flácida, dobrada, velha mesmo. Mãos de trabalhadora, mãos de mãe. As mesmas que abraçaram, tocaram, lavaram, passaram, cozinharam, limparam fraldas. Essas mãos de dedos curtos. Essas mãos de dedos grossos. Mãos. Suas mãos. A palma da mão. “Palma, palma, palma, pé, pé, pé...”, era a cantiga preferida das crianças. Das suas crianças. Daqueles marmanjos agora envelhecidos ou a caminho de. Uma cicatriz. Bem ali, perto do pulso. Estrago feito pelo varal de arame farpado. Braços e pernas. Pernas arqueadas, tortas, venosas. Os seios! Fontes de vida. Seios vítimas da gravidade. Seios esquecidos há muito. Pés, pernas, mãos, braços e seios. Quanta diferença da foto que carregava sempre. Vestida de noiva. Cabelo ondulado e viçoso. Olhos acesos. Ansiosa. O marido metido no terno marrom. As mãos no ombro dela. Sério, muito sério. Bigode. Um belo casal. É, é a vida. Manoel se foi. Ela não quis ir não. Muita coisa tinha para ver ainda. Pena que a catarata começava a turvar tudo. Mas nem sempre os olhos vêem tudo. As lembranças também vêem. Os pés, as mãos, as pernas e os braços. Criança nasce com o pé fino. A idade chega com os pés partidos, calejados e distorcidos. Cadê o pé de outrora? Foi embora também. Então vem um substituto, servil sim, mas feio de fazer dó. Uma vez, era moça, pisou num “mandrová”. Era um bitelão. Ferveu tudo, queimou de verdade. O jeito foi banhar o ferimento com fumo de corda e urina. Amarrou uma tira e mancou durante vários dias. Depois passou. Fora o medo. A avó contava que “mandrová” era coisa do diabo. Fazia mal às mulheres. Que tomasse cuidado para não ficar grávida do “mandrová”. “Mandrová” malvado. Não falou pra ninguém, mas passou noites sem dormir com medo do “mandrová”. Antigamente tinha dessas coisas. Agora as meninas se riem quando ouvem essas histórias. Os tempos são outros. E tinha a roupa da mina que deixava as mãos enrugadas por tanto contato com a água. Uma velhice temporária. Agora era permanente, nem adiantava pensar o contrário. No tempo da mina tinha os seios fartos e rijos. Muita vez surpreendeu Manoel a espiar com o rabo dos olhos ela se abaixando para esfregar a roupa. A raiz ficava à mostra, às vezes mais que a raiz, quando deixava um botão da blusa aberto só para provocá-lo. E que intento! Homem é menino. Homem se empolga fácil. Mas também ela era menina. E uma espécie de volúpia se apoderava das entranhas. O bico do seio intumescia. Estava pronta. Tempos idos. Tempos idos. Tempos idos. Manoel se foi, cadê Manoel? Os pés calejaram e a flacidez dominou o corpo todo. Levantou devagar. O cachorro abanou o rabo. “Vai, Sultão, vai pra lá que não tô pra brincadeira”. E o cão se afastou um pouco, de orelhas baixas. Uma bacia. Ela sentou de novo na área e enfiou os pés na água morna. Morava sozinha já há um bom tempo. Gostava de. Aquele sítio era a própria vida. A casa estava velha, claro, mas bem servia para fugir da chuva e do frio. Que mais podia querer? Quando morresse, queria era ser enterrada do lado do coqueiro, que nem aconteceu num livro muito muito triste que a neta andava lendo. Mexeu os pés n’água. Uns pingos caíram para fora da bacia. Atingiram formigas que saíram em disparada, decerto com o coração batendo. O coração dela deixava de bater aos poucos. Fraquejava dia após dia. Nem os remédios que o doutor receitara estavam lá adiantando muita coisa. Também a pressão andava um pouco alta. Mas não tinha importância. Era só fazer de conta que nada daquilo tinha importância. Era um adendo. Nada de mais. Coração era um órgão. Vitais eram as lembranças. Vitais eram os sentimentos. O órgão morria. A vida não. A vida vivia no coração daqueles que ficavam. Não era assim com o Manoel? Então não estava ele, bem ali, dentro dela e daquela casa antiga? Bastava entrar. Bastava entrar para nunca mais sair. De jeito nenhum. Manoel entrou. Manoel invadiu. Manoel não sai nunca mais não senhor. Que petulância daquele Jovino pensar que podia conseguir alguma coisa! Muita petulância. Estava morta pro mundo. Nem “mandrová” chegava mais perto. Foi enterrada com Manoel. Era dele, só dele. Jovino até era simpático, mas não ia ter vez não. De jeito nenhum. Não era mulher de dois, só de um. E o seu um tinha morrido. Então não era de mais ninguém. E se não era de ninguém, estava morta pro mundo. Além disso, que vergonha, era flácida. Ia passar o maior carão. E nem os bicos iam intumescer de novo. Já passara da idade dessas coisas. Não, Jovino tinha de sumir de vez. Jovino era um mau caminho. Jovino era um “mandrová”. “Sai pra lá fogo do inferno, tentação, capeta, diabo da cruz que o carregue!” Tirou os pés d’água e os secou numa toalha. Meteu-os numas chinelas velhas. Viu-os ressurgir. Estavam limpos. O aspecto era muito melhor. Jovino que trazia desgraça. Jovino que atordoava. Jovino-mandrová. Jovino sem risco de gravidez. Então Jovino não era tão mauzinho assim. Jovino podia até ser bom. Jovino podia até fazer bem. Jovino foi mandado por Manoel. Jovino faz viver. Cadê Jovino? Jovino pronto. Ela pronta. Pés resgatados. Seios vivos. Coração batendo forte de novo.

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