Textos em Prosa

Érica Antunes

Projeções

Era uma manhã tranqüila como tão poucas outras e ela comia uma maçã. Primeiro pegou displicentemente, como em qualquer filme de ação. E não pensou em mais nada. Ou melhor, queria pensar que não pensava em mais nada. Mas seu gênero pendia para o romance, o cheiro era bom e a cor era linda. Saboreou com jeito de moça apaixonada até chegar o miolo. Cansada não se sabe do quê, abandonou a pobre maçã sobre a mesa só para vê-la escurecer. Era hora do drama. A maçã era a vida: nascia bonita, crescia e se desenvolvia para depois ser devorada pela vontade de outrem e pelo tempo. Normalmente as pessoas se comparam a animais, ela se sentia meio maçã. Não das importadas, maçã nacional mesmo, das meio azedinhas e suculentas. Maçãs doces demais enojavam. E ninguém nunca é doce para sempre, uma pitadinha de qualquer coisa sempre é bom. Ou tudo se torna um marasmo. Embora quando a rotina se perca todo o mundo saia de lanterna no escuro da caverna. Estranha alma a do humano. Se fosse um bicho, seria uma ema. Feia e de pernas finas, pescoço comprido e engolidora de perdidos. Bem que ela se achava parecida com uma ema. E tinha dentões de coelho. Talvez resultasse do cruzamento de uma ema com um coelho. Não, aí a aberração seria muito grande. Era apenas uma aberraçãozinha, bem “inha”. Também tinha sardas e quando saía ao sol franzia o nariz. Talvez fosse uma maçã enferrujada. Quando era pequena sofria no colégio. Depois sofria com os namorados ou com a falta deles. Se estivesse exposta numa quitanda, faria parte da banca das ofertas. Não desejava era ser a maçã podre que estraga todas as outras. Às vezes queria se tornar argentina, das que são valorizadas por alguma coisa que nunca soube o que é, mas que é. A estirpe, imaginava que fosse isso. E a beleza, que elas eram grandes e saudáveis. Nem por isso deixavam de ser aguadas e sem graça. E a confusão estava feita, já não distinguia o melhor. Só via um lado, o de fora. E se via maçã-ema-coelho com cérebro de agenda. Guardava tudo e não produzia nada, movida pela vontade dos outros. A dela própria estava perdida com o lado que deixava de ver. Egoísta e dona de si sem autonomia. Paradoxal e paralela ao mesmo tempo. De vez em quando se descobria projetada na parede iluminada pelo abajur. Traços femininos que a tornavam bela e sem sardas. Só a sombra. Espécie de meia verdade, que a verdade inteira era um coelho correndo atrás da ema que devorava a maçã. A maçã nem era argentina, era nacional e enferrujada. A ema tinha pernas finas e pescoço comprido. O coelho era só um coelho de grandes dentes, nada da ovos de chocolate. A fase criança indo embora e trazendo a mulher que ainda a assustava. Podia tudo ao limite da consciência. Aos poucos deixava de ser agenda e se punha a escrevê-la. No fim do conto seria a Branca de Neve. Comeria a maçã com gosto, adormeceria por um período e um dia ganharia um beijo de amor. Mas a ema não estava na história e ela não era princesa. Tinha pernas finas e pescoço comprido. E dentões de coelho. Nenhum príncipe se candidataria e ela se tornaria a madrasta má. Talvez arranjasse um espelho hipócrita, que nunca diria a verdade porque ela não queria ouvir. Não dormiria mais, pronto. Para não sonhar. E se sonhasse acordada, pediria à ema que engolisse o pensamento. Viveria a mais pura e tensa realidade. Plantaria um baobá, daqueles que só ouvia falar sem nunca ter visto, para ter a certeza da sua minúscula condição. Pequena. Gostava de se sentir pequena. Mentira. Fingia que gostava porque não conseguia se sentir gigante. Por isso precisava do baobá. Se ao menos as pernas finas fossem também compridas...  mas não. Não adiantaria, ainda assim seria pequena de alma, o que é pior. Melhor mesmo era aguardar a posição do sol para projetar a sombra para bem longe. Tão disforme e tão bela! Era bom ver a própria sombra, uma meia verdade dela, só dela, muito dela. Um perfil feminino e sem traços. De vez em quando ela desenhava a si própria com giz de cera. Voltava ao jardim da infância e se sentia feliz. Depois o sol ia embora e só ficavam a boca, os olhos e o nariz no chão da existência, sem o contorno para lhes dar vida. Voltava a precisar do baobá. Era de novo a maçã, a ema e o coelho. Talvez nunca deixasse de ser.

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